Crise de autoridade entre pais, filhos e professores

Eduardo Aquino
O Tempo

Passamos rapidamente das gerações de filhos que sentiam medo e respeito com o simples olhar de reprovação dos pais, para a geração de mães e pais que temem olhares e atitudes de seus filhos. Que pena! Cenas que seriam impensáveis tempos atrás, como agressão verbal e até física contra os pais e professores, hoje se banalizam como se fosse normais a falta de limite e educação básica de crianças e jovens, bem como a noção de respeito e hierarquia. Nivelados adultos e jovens pela absoluta ausência de autoridade.

Discussões ásperas, palavrões, elevações no tom da voz e desobediência parecem se tornar a regra e não a exceção nos lares e escolas mundo afora. Na China, inclusive, deram o nome de “filhos imperadores ditatoriais”. Situação agravada pela política de filho único, os chinesinhos maltratam e exigem privilégios impensáveis, ainda que à custa de sacrifícios indescritíveis de pais carentes e escravos. E como muitos deles eram agricultores analfabetos e seus filhos estudados e tecnológicos, não há nem conflitos, pois quem manda são os filhos ditadores.

INVERSÃO DE VALORES

Voltando ao nosso país, diversas áreas como a pedagogia, psicologia, sociologia tentam entender essa inversão de valores da cultura, da família, da escola. Uma delas diz que com o avanço das mulheres (e mães) ao mercado de trabalho, as crianças numa época de formação de sua estrutura psicológica, de adquirir valores e traços de caráter, são privadas da tutela materna (o lado paterno em geral é ausente) e entregues a cuidadores incapazes de exercer ou substituir o papel dos pais. Em geral, avós ou vizinhos sub-remunerados para “tomar conta” de filhos alheios.

Sem uma política de creches ou escolas integrais, tais crianças são soltas para frequentar a rua, ser instrumento de pessoas mal intencionadas e crescem sem limite, punição, educação. E mães e pais que mal veem os filhos compensam com permissividade excessiva, presentes, realizações de desejos de crianças cada vez mais consumistas e exigentes.

ESTABELECER LIMITES

Ora, a natureza é pródiga em exemplos de estabelecimento de limites, punição, como elementos básicos de educação dos filhotes para que um dia sejam capazes de sobreviver sem a presença de adultos. Me diga se algum leãozinho, agride uma leoa mãe?

A cada dia, a noção de autoridade se perde. Na escola, tentativas de impor regras mínimas de convívio pacífico, ou o uso de mais rigor, são logo confundidas com abuso, seja pelos pais condescendentes com seus filhos – nessa hora algumas mães viram leoas na defesa de sua cria – ou o Estado que intervém com conselhos tutelares, ECA, e até “lei da palmadinha”.

DETERIORAÇÃO

Ressalte-se que avanços existiram com algumas dessas medidas, mas estranhamente todo esse aparato e o mote “lugar de criança é na escola”, contribuíram para a gradativa deterioração nos relacionamentos professores-alunos e pais-filhos. Há que se dizer que os vícios eletrônicos, a desigualdade de facilidade no domínio tecnológico entre gerações, também acentuaram a falta de comunicação e afeto.

Um certo cansaço, talvez apatia dos adultos em retomar as rédeas, se impor como autoridade, entender que educar dá trabalho mas é gratificante, torna a jovem geração autodidata, e valores e cultura são ditados nas ruas, nas redes sociais, nos WhatsApp da vida.

TEMOS DE REAGIR

É hora de reagir, assumir o comando. E sem joguinhos de culpa, chantagens emocionais, constrangimentos, ameaças. Entender que cada comportamento dos nossos filhos ou alunos requer uma lei simples: mereceu tem, não mereceu deixa de ter! Valor é algo que se obtém com luta e dificuldades, já utilidade é quando se lembra de algo quando há necessidade.

Seu filho te valoriza ou utiliza? Eles querem tudo ao mesmo tempo, exigem cada vez mais e detestam ouvir “não” ou ser frustrados. Mas nosso papel é exatamente, frustrá-los, estabelecer regras e limites, pelo menos enquanto usufruírem do nosso lar. Tem que deixar claro que eles podem tudo (ficar horas na internet, sair, beber, transar) desde que se sustentem, tenham trabalho digno, estudem com seriedade.

Mas ninho, só o afetivo. Afinal alguém vê pássaro pai ficar dando minhoca no bico de filhote adulto? Colhemos o que plantamos. Simples assim…

10 thoughts on “Crise de autoridade entre pais, filhos e professores

  1. Meu caro professor Rocha,
    Discutimos à exaustão uma escola deficiente, com professores mal pagos, conteúdos programáticos aquém do que exige a realidade atual, enfim, um esboço de ensino público, que precisa ser reformulado e aperfeiçoado, principalmente no que diz respeito à valorização dos mestres.
    Entretanto, a sociedade tem a sua parcela de culpa, e não é irrelevante, ao contrário, se aproxima em demasia da omissão governamental nesta área de fundamental importância ao desenvolvimento do País e progresso individual e coletivo da população.
    Pois a falha gritante dos pais com relação aos professores e consigo mesmos na função precípua de educadores, é a confusão que fazem entre ensino e educação.
    A escola ensina, informa, mas pertence aos pais a obrigação de educar, orientar, adaptar o filho às convenções sociais e ao meio social, em consequência.
    Não é o que acontece atualmente, quando também se quer que a escola eduque, faça as tarefas inerentes aos pais dos alunos, então o confronto, a rebelião, o choque de interesses e conveniências.
    Pais que não admitem que os professores corrijam seus filhos quanto às agressões aos colegas, má educação reinante para com os mais velhos, atitudes violentas, cobrando dos professores que sejam passivos com relação ao comportamento inadequado e inconveniente do filho, alegando a necessidade de seus pais trabalharem para o sustento da família e a criança ficar só, abandonada, razão pela qual a rebeldia diagnosticada, percebida, a violência exacerbada e muito menos aceita e justificada contra justamente os que ensinam, que tentam formar futuros cidadãos e úteis e decentes à sociedade.
    Diga-se de passagem que as greves constantes dos professores em nível nacional, contribuiu para este desrespeito dos alunos, incentivados pelos pais que sempre foram contra esta forma de protesto dos professores, diante dos problemas que teriam de enfrentar com o filho em casa e eles precisando ir trabalhar.
    Na verdade, os pais mais enxergam a escola como depósito de crianças, uma creche em tamanho maior que um local de ensino, de formação, de informação, mas um endereço onde a sua cria está guardada e supostamente protegida por cuidadores (novo termo petista a professores), simplesmente uma subversão da função de professor para babá, e que deve atender aos caprichos e frustrações de jovens mal cuidados e educados pelos seus genitores.
    Pouco se importam com as notas de seus filhos, se estão progredindo em sala de aula, se prestam atenção nas matérias administradas, se sabem ou aprenderam um pouco de História, Geografia, Português … não vem ao caso.
    O importante é onde deixar a criança durante os dias da semana, e horário de expediente.
    Uma vez rompido este vínculo que havia no passado entre pais e escola, filhos e professores quanto à hierarquia absolutamente inegociável e que sempre se deveria manter entre alunos e mestres, a obediência e respeito em níveis aceitáveis e irrepreensíveis, o ensino deixou de ser a mola mestra, e passou a ser substituído por uma educação que se resume em guardar os filhos dos outros e impedir que se matem entre si, as perseguições, as turmas que se enfrentam nas saídas da escola, e aqueles que se mostram os mais valentes quando esbofeteiam a professora ou a agridem com objetos ou lhe ferem o rosto com canetas ou os indefectíveis celulares.
    Evidentemente que os professores que ganham mal, que são desrespeitados pelos governos que não cumprem acordos e promessas de campanha, que são agredidos por pais e alunos se sentem desprestigiados, desvalorizados, sem a importância fundamental e decisiva que conduz um aluno a se comportar em sala de aula porque está diante daquele que tem como intenção lhe acrescentar conhecimentos, independência, progresso, desenvolvimento mental.
    O professor está ali momentaneamente, até a próxima greve, até ser maltratado pelos pais, até ser cobrado agressivamente pela nota baixa que deu ao aluno que não estudou, até ser taxado de mal arrumado, de ser um flagelado social porque mal tem recursos para andar de ônibus, quanto mais estar vestido com esmero pela falta de dinheiro, ainda mais conseguir se atualizar, comprar livros, frequentar cursos de aperfeiçoamentos, interessar-se pela profissão.
    Pois a intenção dos governos foi plenamente atingida, de romper a corrente que unia as famílias aos mestres, a escola aos alunos, o ambiente escolar aos lares, quando impediu que a população constatasse no ensino o meio de se libertar do jugo de políticos corruptos e desonestos, mentirosos e enganadores, e alcançasse o discernimento, percebesse o quanto é usada despudoradamente pelos mandatários do País, e passasse a se ver livre das propostas mal intencionadas, sub-reptícias, e de condenarem o povo à ignorância, à miséria, de modo que este permaneça permanentemente dependente do governo para ser manipulado e usado conforme as necessidades do poder.
    E, digo mais:
    Tende a piorar esta relação aluno/professor diante da dúvida quanto à necessidade do ensino neste País, que não valoriza o estudo, não propicia oportunidades dignas ao pesquisador, ao cientista, diante do enaltecimento para políticas deletérias, parlamentares desonestos, presidentes da nação corruptos, e que conseguem enriquecer e conquistar posições no meio social, no lugar de estarem na cadeia, separados do povo, justamente pelo mal que tanto praticaram.
    Certamente este crime de se deixar uma população semianalfabeta e índices alarmantes de analfabetos será a marca registrada dos últimos governos brasileiros, e que se mostra na sua plenitude lamentável e deprimente nas relações entre alunos e professores, pais e escolas, quando a luta não é para melhorias no ensino, no aprendizado, na formação do aluno e aperfeiçoamento dos mestres, mas na sobrevivência, em se ter dinheiro para comprar alimentos, pelo menos!
    Tenho razão quando afirmo que substituíram o idealismo pela ideologia e, o partidarismo, pelo patriotismo.

    • Caro Bendl, apenas uma correção ao que escreveste. Tudo isto acontence em progressão geométrica nas escolas públicas que é ao mesmo tempo a grande formadora do eleitorado petista. Na outra mão, os ricos continuam colocando os filhos nas escolas particulares de formação tradicional pois sabem da necessidade de uma boa educação e escolaridade. Isto, vai fazer a diferença no futuro pois permite uma melhor formação universitária, e depois, as melhores oportunidades de emprego. No passado, acontecia o inverso na formação fundamental pois as escolas públicas eram as que ofereciam a melhor qualidade de ensino com a melhor formação dos alunos. Tu sabes, que em Porto Alegre todo o mundo queria estudar no Julinho.

      • Paulo_2,
        Tu tens plena razão, e agradeço complementares o meu texto com mais esta verdade que registras.
        O Colégio Júlio de Castilhos nas décadas de cinquenta, sessenta e até setenta, era a referência gaúcha para um ensino de qualidade, superior, organizado.
        No entanto, Paulo_2, o professor era também valorizado, uma autoridade em sala de aula, e o sonho das meninas que estudavam o Normal era ser professora, além de os alunos respeitaremos mestres, os pais, e chamados à responsabilidade diante de alguma atitude incorreta.
        Havia cobrança, exigências, comprometimento de todos.
        Tempos outros, que não voltam mais.
        Um abraço, guri.

    • Prezado Sr. Francisco Bendl. Cumprimento-o por seu comentário lúcido e perfeitamente claro quanto a situação caricata em que se encontra a escola no país. Ao longo do tempo, pressões ideológicas sobre a educação vem solapando suas estruturas determinando um processo perverso de “desconstrução”. Uma das ações do ECA retirou, da escola, a propriedade de educar, relegando-a a mera transmissora de conteúdos, mesmo assim, reconhecidamente defasados…
      Tudo o que o senhor coloca está no terreno das “consequências”. Quanto às causas, sugiro a leitura do livro “Maquiavel Pedagogo”, de Pascal Bernardin, Ed. Eclesiae, disponível , na Internet, para download, usando o buscador do “Google”.
      Parabéns pelo texto!

  2. Bendl,
    Lamento dizer,….mas a tua critica é a pura realidade vivida neste País.
    E, peço licença para acrescentar: em escolas ditas de nível superior (pagas) não temos mais discentes mas, clientes! Muitos alunos somente querem diplomas e isto ocorre sob a vênia dos coordenadores de cursos, verdadeiros pau mandados!
    Ao professor que exigir conhecimentos e reprovar o cliente não lhe é alocada a disciplina no próximo semestre.
    Um País neste quadro que comentas perdeu o passo da história.
    SDS
    Vitor

    • Prezado Vitor Cast,
      Os ricos sabem como manter as reservas de mercado para seus filhos, e perceberam com a queda de qualidade no Ensino Público a deficiência responsável pela mediocridade, pela dificuldade que o aluno egresso desta escola teria em obter boas colocações e vagas existentes à procura de especialistas, pessoas com estudo, então enalteceram a escola particular onde a obediência, a hierarquia, as regras são obedecidas, e professores que, se não recebem salários justos, pelo menos ganham um pouco mais e não são agredidos, ofendidos e desprezados.
      Continuo afirmando que o Ensino público sofreu esta depreciação porque foi um plano muito bem traçado pelos governantes, pois é muito mais fácil manipular e usar um povo inculto e incauto que uma população dotada de estudo, de senso crítico, de discernimento, que não se deixa conduzir e exige de seus mandatários que ajam conforme mandamentos constitucionais.
      Parece que o plano de Brizola e Darcy Ribeiro que tanto queriam uma escola de qualidade, e que o turno integral seria responsável por este avanço, deu início ao desprezo de nossas autoridades com relação à oferta de uma escola pelo menos razoável.
      Pois a queda foi inexorável, e atingimos níveis de inferioridade em comparação a nações muito mais pobres que a nossa no Ensino Público que nos envergonha, independente do analfabetismo e analfabetismo funcional, este com seus índices negativos sempre em elevação.
      Resultado:
      Governos corruptos e desonestos eleitos;
      Povo sendo explorado;
      Condições sócio-econômicas cada vez piores;
      Falta de perspectiva profissional;
      Desesperança.
      Um abraço, Vítor.

      • Senhor Francisco Bendl, suas colocações no primeiro comentário são perfeitas! Mas neste último, eu discordo de dois pontos. Primeiro, não acredito que o governo decidiu tornar o povo analfabeto, acho que foi puro descaso e agora estão colhendo os frutos e, talvez, pensando em manter a situação. Segundo, o comportamento dos alunos em escolas privadas também é deplorável. É comum o professor ouvir: sabe quem é meu pai? Quem paga seu salário sou eu, você é meu empregado! Existe a pressão de pais nao satisfeitos com repreensões ou notas dos filhos, junto a direção do colégio. Quanto à violência física, não sai nos noticiários, ou inexiste ou é abafada pela direção.

  3. Urge uma tomada de posição. É indispensável, fundamental> mas primeiro, é preciso acordar.
    Não vou tecer muitos comentários sobre o tema: seriam tão amplos que precisaria de tempo, de espaço, paciência. Confesso que, por vezes, já não os tenho mais!
    Bendl, amigo dileto, já teceu comentários na mesma direção que também eu iria.
    Quando alguém adoece, procura um médico. Mas primeiro, deve reconhecer que está doente que precisa ir ao médico.
    Nosso país e nossa sociedade, ambos, estão doentes. Espero que ainda não tenham atingido o grau de “ser doentes”. A diferença entre ser e estar é lógica, não necessitando explicações.
    Nas últimas três décadas, assistimos a destruição da base de conhecimento e cultura de nossa sociedade. Trocamos tudo pelo mercado: produtos de consumo pela capacidade de pensar, agir, conviver e educar.
    E, pouco a pouco, as famílias entregaram seus filhos ao estado!
    Assim, muitos dos resultados e de seus efeitos, estão registrados nas matérias publicadas aqui na nossa TI, a mostrar-nos o grau de nossa doença.
    Roubar não é feito: feio é não ser esperto. Estudar para que? Um idiota-espertalhão chega à presidência e mais da metade do povo brasileiro se sente representado. Reelegem-no e depois, reelegem “seu poste”.
    O ministério da educação (tem até um site), não dá rumo a coisa alguma. A escola pública, por todo o país, “virou um saco de lixo”. E eu, continuo esperando a definição do que seja “pátria educadora”. O povinho pensa e diz, ser “o estado brasileiro” aquele que educa seus filhos! Mais um engano.
    Senhores e senhoras, em poucos anos, condenamos nossos filhos e netos a serem “educados” por um estado de merda! O que dizer-se de políticas ditadas por presidentes, governadores, prefeitos e legisladores como os que tivemos e temos atualmente? Claro que existem as exceções. Mas elas não conseguem vencer o jogo!
    Se não estou enganado, e sei que não estou, juntando-se os ladrões, seus roubos, a destruição do patrimônio público, a exploração da madeira na Amazônia – pelos guardiões da floresta e tudo mais que rola pelos descaminhos de nosso país, a conclusão também é lógica: estamos no buraco.
    Assim, a cada dia que passa, mais e mais nos atolamos. A massa silenciosa, abestalhada, omissa, sem força e sem vontade de pensar, realimenta o monstro apelidado de “estado”.
    Se Dillma não for impitimada (em breve será vocábulo), não renunciar ou Jesus não voltar já, é bom arquivarmos nossas consciências num lugar bem longe e fundo. É ela que nos faz compreender o tamanho da bobagem que o povo tem feito.
    Paro por aqui. Como disse no início, o assunto é muito grande.

    • Fallavena, meu amigo,
      Se uma grande parcela do povo sabe do que estamos comentando e concorda conosco, jorram perguntas inevitáveis:
      Por que não reivindica uma escola de qualidade?
      Por que não apoia os professores quando exigem salários melhores?
      Por que não educa seus filhos e transfere aos mestres esta função, que é específica da família, intransferível?
      Por que esta espécie de cumplicidade com os governos que entram e saem e nada fazem para melhorar esta escola que os próprios pais são os primeiros a criticá-la?
      Por que aceita omissa e passivamente que os parlamentares se autoconcedam salários nababescos, e não clama que parta desta verba fantástica seja locada à construção de colégios, bibliotecas, aquisição de computadores, melhores instalações para os alunos?
      Simplesmente, Fallavena, em razão do que mencionei acima que, professores, pais e alunos, lutam para sobreviver, e o ensino foi deixado de lado, exatamente a intenção de nossos governantes sendo contemplada com êxito absoluto.
      Um abraço.

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