Crise social é consequência da política econômica do próprio governo Bolsonaro

Charge do Nando Motta (brasil247.com)

Pedro do Coutto

A crise social a que se referiu o ministro Paulo Guedes para explicar porque decidiu ultrapassar o teto orçamentário é uma consequência da própria política econômica que ele traçou e que o presidente Jair Bolsonaro aceitou  colocar em prática como medida de salvação administrativa e recuperação da economia brasileira. Foi um desastre. Os preços subiram, os salários caíram, a fome passou a atingir um quarto da população brasileira numa escala dramática. Os fatos comprovam a contradição essencial de um ministro e de um governo que não têm um projeto sequer definido ou um rumo capaz de ir ao encontro dos problemas da população. Veja-se o exemplo da Covid-19 e dos resultados da CPI do Senado.

No O Globo, a reportagem comentando a tentativa de explicação do ministro Paulo Guedes é de Manoel Ventura e Geralda Doca. Na Folha de S. Paulo, de Bernardo Caram e Marianna Holanda, ambas nas edições de ontem. O presidente Bolsonaro após as pressões que recebeu de vários setores optou por manter Paulo Guedes no Ministério da Economia. Apesar de, como definiu O Globo em seu editorial de ontem, ele tenha perdido a credibilidade em face de suas próprias contradições. Estas, aliás, fomentadas por ele, incorporaram-se à política desconexa do Palácio do Planalto.

AUXÍLIO BRASIL – Entre as contradições, destaco que Paulo Guedes prioriza as despesas como Auxílio Brasil no sentido de atender os não contribuintes da Previdência Social, esquecendo ao mesmo tempo os que contribuíram e contribuem para ela. Isso de um lado. De outro, o presidente e o ministro anunciaram a distribuição do auxílio de R$ 400 através do programa que substitui o Bolsa Família sem definir quais as pessoas que irão receber a ajuda de emergência e como serão feitos os pagamentos.

Pode-se presumir os pagamentos por intermédio da Caixa Econômica Federal. Mas a respeito de quem os receberá ainda não surgiu uma definição. Pode-se dizer que através das 14 milhões de famílias inscritas no programa anterior ao que será implantado em novembro. Mas nesse caso, por que substituir o seu nome ? O problema não termina aí, ao contrário começa. Porque das 14 milhões de famílias, cerca de 60 milhões de pessoas estão inscritas, mas como serão feitas as inscrições daqueles que irão ingressar na nova programação?

PROBLEMA SOCIAL – O ministro Paulo Guedes afirmou que a ultrapassagem do teto decorreu de um abraço social um pouco mais longo nas camadas carentes. Reconheceu a existência de um problema fiscal quanto às despesas e receitas públicas. Mas não é essa a questão, e sim o volume do consumo sobre o qual ele repousa. Paulo Guedes acrescentou, segundo O Globo, que não faz mal que ocorra o déficit de 1% do Produto Interno Bruto.

A afirmação é absurda. Mas ele é PhD em absurdos. Previu o superávit de R$ 1 trilhão em 10 anos com a Reforma da Previdência, quando o dólar começou a subir ele disse não ter importância pois a moeda americana no mercado brasileiro é flutuante. Agora, ele chega ao ponto de afirmar que foi absolutamente normal o pedido de demissão de quatro titulares das secretarias da pasta.

A prioridade do governo é social, assinalou também. Mas como ? Sessenta e sete por cento dos acordos salariais firmados ao longo do governo Bolsonaro ficaram abaixo da inflação. Os trinta e três por cento restantes foram exceções na medida em que empataram. Mas o empate representa a perda do poder de compra a partir da semana imediata porque o reajuste salarial sempre sucede aos aumentos do custo de vida registrados. São sempre uma reposição  de um período anterior e que no dia seguinte tornam a perder a corrida contra os preços. Relativamente ao funcionalismo público de 2019 para cá, os reajustes são exatamente de 0%.

FALSAS PROMESSAS –  Os espaços publicitários sobre aplicações financeiras, especialmente os veiculados através da televisão, acumulam-se no espaço e não têm base na realidade. Pois se base na realidade tivessem, a renda das famílias brasileiras encontrar-se-iam num patamar muito acima daquela dos quais se encontram. As promessas de remuneração ultrapassam as taxas normais do mercado a começar pelos índices aplicáveis às cadernetas de poupança. Existem promessas de remuneração 10% acima das cadernetas. Mas as cadernetas por si já estão com juros negativos, sendo derrotadas pelo processo inflacionário.

É só comparar a inflação de 10% anunciada pelo IBGE para o período de setembro de 2020 a setembro de 2021 com as atualizações mensais dos depósitos. E observe-se que as aplicações das cadernetas estão somando R$ 1 trilhão, valor que tem se mantido ao longo dos dois últimos anos.

Portanto, quaisquer aplicações superiores à rentabilidade do mercado, de modo geral, só podem se basear em aplicações de risco. Como é o caso da Bolsa de Valores que na semana passada apresentou um recuo de 7,2%. Portanto, jogar com oscilações no mercado de capitais é algo incerto. Além disso, o problema é que as mensagens publicitárias, em sua maioria, não se baseiam em perspectivas concretas.

DATA HISTÓRICA – Artigo da historiadora Heloisa Starling, no espaço de sábado de Ancelmo Gois no O Globo, focaliza uma data histórica que se aproxima, o 11 de novembro de 1955, quando o general Henrique Lott, ministro da Guerra (nome do Ministério na época) e o general Odylio Denys se insurgiram contra o governo Carlos Luz, presidente da Câmara que substituira o presidente Café Filho que saiu de cena sendo hospitalizado. As urnas de 1955 haviam eleito Juscelino Kubitschek. Carlos Lacerda liderando um movimento golpista desfechou uma forte campanha contra a sua posse na Presidência da República.

Na segunda quinzena de outubro, morreu o general Canrobert Pereira da Costa, ministro da Guerra do governo Dutra. No sepultamento , o general Henrique Lott discursou e em seguida tomou a palavra o general Jurandir Mamede defendendo que JK não tomasse posse, sustentando que ele não teve maioria absoluta e que recebeu o voto de analfabetos, o que a lei não permitia na época. Foi um ato de subversão.

LONGA ESPERA – O general Lott propôs a punição do general Mamed. O presidente Carlos Luz negou a punição e fez o general Lott esperar 2h30 para ser recebido por ele no Palácio do Catete. Lott retornou à sua residência no Maracanã. Na casa ao lado residia o  general Odylio Denys. De madrugada, Denys comunicou a Lott que o Exército não aceitava a sua demissão e a quebra na hierarquia e na legalidade. Lott então assumiu a liderança do movimento político-militar que afastou Carlos Luz e no dia 21 de novembro afastou o próprio Café Filho. Lacerda se asilou na Embaixada Cubana.

Tempos depois o general Lott  disse que o 11 e o 21 de novembro foram apenas toques da ponta da espada para restabelecer as engrenagens democráticas. Carlos Lacerda  em sua trajetória, toda vez que era derrotado, manifestava-se contra a posse dos eleitos. Assim foi contra a posse de João Goulart em 1961 e contra a posse do governador Negrão De Lima nas urnas de 1965 para o governo da Guanabara.

São páginas da história do Brasil que estarão para sempre na névoa do tempo. No episódio da posse de JK, historiadores não têm focalizado um documento importante que foi a carta aberta de Dom Helder Câmara a Lacerda: “Você, Carlos, está com ódio no coração. Você fala em tanques e canhões, você os teme ou os deseja? Faz-me parecer que você os deseja se eles estiverem ao seu lado”.

8 thoughts on “Crise social é consequência da política econômica do próprio governo Bolsonaro

  1. Pedro do Couto traz a lume para os leitores da TI esses fatos históricos esquecidos do distinto público.
    Carlos Lacerda tramou também para a derrubada do segundo governo Vargas, eleito em1950, após o governo desastroso do general Eurico Gaspar Dutra, eleito após o final da segunda guerra em 1945.
    Lacerda foi do Partido Comunista na juventude e evoluiu para a direita, num duplo salto carpado até o final de sua vida, sempre conspirando contra a democracia e a posse dos eleitos.
    Juscelino foi boicotado antes e depois da posse. O general Henrique Teixeira Lott garantiu a posse de Juscelino contra os golpistas de sempre. As revoltas Militares de tropas da Aeronáutica, de Aragarças e Jacaraecanga, contra Juscelino foram desmontadas e o presidente mineiro concedeu anistia aos revoltodos.
    Lacerda também conspirou para a derrubada de João Goulart, na esperança de ser o homem do sistema para ocupar a presidência nas eleições de 1965. Ledo engano, o general Castelo Branco cassou os direitos políticos de Lacerda e para não perder a viagem, a de Juscelino também. Aquela aventura militar, apoiada por Lacerda e Juscelino durou 21 anos. Vejam como a ambição dos políticos podem vir a comprometer os destinos da nação e a infelicidade do povo. Tristes e abatidos com a cassação dos direitos políticos, Lacerda e Juscelino foram ao Uruguai pedir ao presidente João Goulart, aonde estava exilado, para se juntar aos dois na famosa Frente Ampla destinada a preparação da volta ao país a normalidade.
    Se tornou impossível, pois Jango foi informado que se botasse os pés no Brasil seria morto. Joao Goulart morreu na Argentina de enfarto fulminante. Juscelino morreu de acidente de carro na Rodovia Dutra, perto de Barra Mansa/RJ e Lacerda morreu estranhamente em um hospital de Araruama na Região dos Lagos/RJ.
    Até hoje, esse desenlace envolto em mistério nunca foi devidamente explicado e nem será evidentemente.
    Certamente, os políticos atuais, que desconhecem a história politica do país, continuarão a cometer os mesmos erros daqueles célebres lideres políticos, Juscelino, Jango e Lacerda. Para não dizer que não falei de flores, as atuais lideranças do generalato das Forças Armadas, também desconhecem o papel democrático desempenhado pelo general Henrique Teixeira Lott. Infelizmente para o Brasil, os bons exemplos são jogados no lixo, vindo em primeiro lugar os desejos individuais de Poder em detrimento da nação.
    Isso vale para todos que estão na serena política.
    Mais uma vez obrigado, Pedro do Couto, por me proporcionar com seu texto, voltar aqueles tempos vibrantes e sombrios.

  2. Tenho comentado aqui na TI exaustivamente, sobre o legado desastroso do ministro Paulo Guedes na condução da equipe econômica do governo, respaldado pelo Presidente. Guedes faz o que Bolsonaro manda, mesmo que contrarie suas convicções ultraliberais. Deve dizer em privado: ” as favas os escrúpulos de consciência” parodiando a frase do coronel ministro Jarbas Passarinho na histórica reunião no Planalto, que selou a entrada no cenário do governo do general Costa e Silva, em 1968, do Ato Constitucional 5, AI 5.
    Guedes será lembrado pelos juros estratosféricos, inflação alta, acima dos dois dígitos, investimentos em offshores de paraisos Fiscais, intolerância e preconceito com a população pobre, que agora quer se fazer crer de preocupado por causa de objetivos eleitoreiros na eleição de 2022.
    Guedes é realmente um falso profeta, pois promete, promete e nunca cumpre seus desígnios, sempre na casa do trilhão.
    Gosto de citar um exemplo muito citado por Bolsonaro: “quem nunca mentiu para uma namoradinha…”. Será que eles pensam, que nós vivemos para ser enganados por eles?
    Economia em V, estamos decolando, esse déficit de 1% não é nada, a inflação alta está no mundo todo. Ora tudo para enganar os trouxas, mas, essas coisas chega uma hora, que cansa, e aí, minha gente, o povo começa a mudar.
    Antônio Palloci e Guido Mantega eram assim também e levaram o PT ao desastre nas Urnas. Acho, que Paulo Guedes será o Judas de Bolsonaro nas eleições de 2022.
    Vocês já pensaram na cena dos debates eleitorais, quando todos esses equívocos de Guedes tiverem que ser explicados por Bolsonaro? O presidente já confessou diversas vezes, que não entende nada de Economia.
    Que fazer?

  3. O Brasil teve o trágico destino de ter que enfrentar dois tipos de vírus ao mesmo tempo. O primeiro se desenvolveu em 2016, com o golpoe arquitetado pelas elites e seus capitães-do-mato,com apoio de uma parte insana da população. Tal vírus, quebrou várias empresas, sucateou a indústria nacional, causou milhões de desempregos, precarizou o trabalho, a renda, a saúde, a educação. Bolsonaro é a mutação deste vírus, que atinge a sociedade de uma forma mais grave e mortal. Todo vírus é burro, pois na volúpia de se reproduzir mata seu próprio hospedeiro.

  4. Precisa ser revista a lista de beneficiários desses auxílios.

    Daí mais de 50 milhões de informais que não contribuem e tantos também são os milhões de beneficiários de programas de auxílio do governos.

    Alguns muitos dos beneficiários certamente cuja renda não é suficiente para o sustento. Mas muitos outros vivem razoavelmente da renda na informalidade porque oculto do pagamento de impostos. Ainda assim, eSpertos, conseguem obter auxílios.

    Dados de beneficiários que poderiam ser cruzados com os recursos informáticos disponíveis, endereços, parentesco, porém, a fiscalização é inexistente de qualquer das esferas governamentais que pagam benefícios ficando restrita à apuração apenas com Denúncias.

  5. Bolsonaro e Guedes acabaram de dar entrevista em Brasília, num puxadinho ( feira de criadores de passarinho) na tentativa de acalmar o mercado, nesta segunda feira, dia 25.
    O ministro soltou o verbo, repetindo diversas vezes, que a Reforma Administrativas que está parada na Câmara economizaria 320 bilhões em 10 anos.
    Guedes atacou Lula dizendo que o presidenciável advogou o Auxílio Brasil em 600 reais e Rodrigo Pacheco, que se lançou candidato a presidente pelo PSD e que por isso, não deveria barrar as Reformas Administrativa, do Imposto de Renda e dos Precatórios, nesse caso foi politico ao desqualificar adversários do seu chefe, Bolsonaro.
    Guedes, respondendo as perguntas, afirmou que o Brasil vai crescer mais do que a Argentina e Venezuela, que estão quebrados.
    Falou também, que se não fosse a Pandemia o Brasil estaria decolando rumo ao paraíso da Economia.
    Atacou deselegantemente, o ministro de Sarney, Mailson da Nóbrega, que segundo Guedes quebrou o país com a política feijão com arroz. Execrou também seu ex- amigo Afonso Celso Pastore, economista que trabalhou no governo do general João Figueiredo, diferentemente dele que trabalha para um presidente eleito, por fim, humilhou o economista Henrique Meirelhes, ministro da Fazenda de Lula, dizendo que aumentou salários por três anos seguidos.
    Sua preocupação foi também, afirmar que é favorável ao Teto de Gastos e que fecha com o Presidente na flexibilização do controle do déficit público para ajudar os mais pobres, sendo isso melhor, do que um decreto de Bolsonaro de Calamidade Pública.
    Por sua vez, Bolsonaro fez defesa enfática do saneamento das estatais, que segundo ele eram um antro de corrupção e com ele estão dando lucros estratosféricos.
    Disse que demitiu toda a diretoria do Imetro junto com a presidência do órgão colocando coronel do IME no lugar. Sobre a Petrobrás os dois foram favoráveis a privatização total da empresa, mas, Bolsonaro disse que a burocracia para essa privatização vera muito complicada.
    A preocupação visível do presidente, era explicar os aumentos dos combustíveis, botando a culpa nas administrações petistas, que não terminaram três Refinarias, duas no Nordeste e uma no Sudeste.
    Foi o que pude constatar da entrevista nesse resumo.

  6. Bolsonaro é o criador da crise social além da econômica?
    Moral(?!) Bolsonaro exportou suas crises para o planeta inteiro?
    O que que há Seu Pedro? Perdeu a coerência?
    Quem fechou indústria e comercio e toda linha produtiva?
    Honestidade intelectual deveria fazer parte da grade das faculdades de jornalismo, nem tudo se justifica em nome da ideologia, até porque os leitores de jornais não são burros, mas não nego que a muitos sofrem de déficit cognitivo.

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