Crônica de uma ocupação anunciada

Carlos Chagas

Longe de qualquer cidadão contestar a eficácia, o valor, a coragem e os resultados da ocupação das favelas da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, ontem, no Rio. Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Federal, Polícia Rodoviária e Marinha uniram-se para agir como em outras favelas, garantindo a presença do poder público naqueles antigos bolsões antes completamente dominados pelo tráfico e pelo crime organizado.

Tem dado certo em todo o território do antigo Estado da Guanabara, não obstante a atuação de bandidos que continuam traficando, bem como de agentes policiais corruptos e infiltrados nas forças da lei. Só que tem um aspecto impossível de ser entendido pelos leigos, como nós. Demonstram a experiência e a História que nesse tipo de operações, sejam policiais ou de guerra, a surpresa é a alma do negócio. Pegar o adversário desprevenido constitui passaporte para o sucesso, de Napoleão a Hitler, de Pearl Harbour ao Dia D.

Sempre haverá o risco da inteligência inimiga perceber e tentar neutralizar as investidas, mas já imaginaram se os japoneses tivessem anunciado com antecedência o bombardeio da principal base aérea americana no Pacífico? Ou se o marechal Rommell soubesse semanas antes que o desembarque aliado se daria na Normandia? Pois é.

Há semanas que as autoridades fluminenses alardearam a invasão da Rocinha. Claro que era previsível, os bandidos são bandidos por não serem idiotas, mas no Rio as coisas transcenderam o bom-senso. Chegou a ser anunciado, há duas semanas, que a ocupação da Rocinha aconteceria às 5 da madrugada de domingo, ontem, com a presença de blindados da Marinha, com o Bope ocupando as florestas vizinhas, a Polícia Federal já tendo subido o morro para detectar esconderijos e depósitos de droga e de armamentos, e a Polícia Civil identificando os chefões do crime por suas fichas criminais e suas fotos.

O que aconteceu? Uma beleza de ocupação. Nenhum tiro foi disparado, nenhum entrevero de resistência verificado. Porque os bandidos foram todos embora, registrando-se a prisão antecipada do Nem, num golpe de sorte. Apenas um boi-de-piranha viu-se capturado, certamente deixado como chamariz, com o futuro da sua família garantido financeiramente enquanto estiver na cadeia.

Pretextando demonstrar resistência, os criminosos destacaram menores de idade para despejar galões de óleo morro abaixo, visando atrasar a subida das viaturas, mas sabendo que adiantaria muito pouco. Uma resposta propositadamente pífia para marcar posição e fingir resistência. Aliás, como esses galões de óleo subiram a favela, volumosos como são, sem que os espiões policiais percebessem? Alguns fuzis e granadas foram desenterrados num buraco duvidoso, quase ostensivo, com terra revolvida ao redor, de forma a ser percebido com facilidade pelos policiais. Até o decalque de um coelho colado numa das armas foi encontrado, como a demonstrar a derrota total dos bandidos, em se tratando do segundo em comando no tráfico. Com certeza um artifício para as autoridades e a imprensa celebrarem a vitória, quando o grosso do armamento estará em lugar incerto e não sabido, quem sabe já retirado da favela. Assim, como as drogas. E os bandidos.

Dirão as autoridades, com muita lógica, que tudo se fez para, na invasão da Rocinha, poupar-se a população de tiroteios, massacres e assassinatos. Os criminosos concordarão em gênero, número e grau. Eles também colaboraram…

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OBSTRUÇÕES

Prepara-se a oposição, na Câmara, para obstruir a segunda votação do projeto que prorroga a DRU. Assim como fizeram semana passada, deputados do DEM, PSDB e PPS dizem-se prontos para protelar os trabalhos no plenário até às seis horas da manhã ou mais, visando vencer pelo cansaço a base parlamentar do governo. A propósito de obstruções, é sempre bom lembrar que tem limites.

Em novembro de 1955 a maioria da Câmara tentava votar o impedimento do presidente Café Filho, para garantir a posse do presidente Juscelino Kubitschek, mas a antiga UDN, golpista, obstruía com sucessivos e quilométricos discursos de suas principais estrelas. Presidia a casa o general Flores da Cunha, legalista, que não suportava mais as protelações e preocupava-se com o resultado do conflito. Muitos deputados da maioria estavam se retirando para dormir, depois de 24 horas seguidas de obstrução. Quando pela décima vez Aliomar Baleeiro discursava, baseado no regimento interno, o velho presidente não teve dúvidas. Interrompeu-o dizendo: “Cale a boca, baiano pernóstico! Nós vamos votar é agora!” E votaram, salvando a democracia…

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