Croniquei, do verbo cronicar, que agora existe

Antonio Rocha

Cronicar é a arte de fazer crônicas, da qual sou aprendiz. Assim que o vocábulo surgiu na minha mente, corri ao Dicionário Aurélio Século XXI e constatei que o citado verbo não existia, ou seja, doravante, passa a existir.

Uma das minhas alegrias é criar neologismos. Me valho dos dicionários para conferir a intuição e o ótimo livro “Breviário da Conjugação de Verbos”, de Otelo Reis, obra que me acompanha há décadas, desde os tempos da graduação na antiga Avenida Chile,RJ, onde existia a Faculdade de Letras, da UFRJ, hoje no local, existem duas torres imensas, uns 20 andares, imagino.

Recentemente, descobri em uma livraria a 55ª edição do citado volume, 2011, com o selo da editora Villa Rica, de BH, MG.

Consultei o Breviário, que tem 1219 verbos da Língua Portuguesa e não vi o “cronicar”, então deduzi… é neologismo mesmo. Está criado e recomendo aos dicionaristas incluí-lo em suas próximas edições.

Por gostar muito da Sociolinguística, enveredei pelos caminhos da gramática literária, ficcional, cronical. Gramática enquanto arte. O tal novo acordo acabou com o trema, meu computador é antigo e ainda coloca os dois pontinhos sobre o “u”, gosto muito dos finados pontos…

Confesso então meu lado KGB – Krônicas Gramaticaes Brasileiras, não esquecendo que admiro outro KGB – Kristós, Gandhi e Buda (Kristós em grego).

Já sei, vão me chamar de jurássico, por grafar gramaticais com “e” e crônica com K. Ora amigos, lembro o tempo em grego, Kronos, implacável Deus que engole os filhos…

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PS – Gratidão à TI que aceita textos, não apenas noticiosos e comentarísticos… (outro neologismo?)

9 thoughts on “Croniquei, do verbo cronicar, que agora existe

  1. Pois é esta variedade de temas postados pelo nosso incansável Mediador, que a Tribuna da Internet se distingue dos demais blogs, que apresentam um assunto diário e invariavelmente sobre política.
    O professor Antônio Rocha nos apresenta um texto muito interessante e curioso, além de agradável e culto, diante da possibilidade que temos de “cronicar”.
    Escrever o que pensamos, sentimos, entendemos, enfim, de nos comunicarmos com o próximo e mundo a respeito de situações ou momentos de vida que ora passamos.
    E como é bom e útil registrarmos as nossas ideias com relação a várias abordagens, que vão se acumulando como aprendizados e de nos deixarem versáteis, tanto pela liberdade oferecida pelo blog para qualquer manifestação como caracterizar este espaço democrático exatamente pela fuga dos padrões estabelecidos pelos demais, enaltecendo o comentarista, a notícia, o fato, e a sensibilidade de cada um quanto à forma como interpreta o que foi lido e que lhe chamou à atenção.
    Parabéns, professor, pela crônica.

  2. Antônio, permita-me uma correção. Cronicar (verbo) existe sim e consta do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras, 1a edição de 1981, da Bloch Editores, na página 210, assim como seus derivados cronicado, cronicador, cronicante e cronicável.

    E tem mais: comentarístico existe também (página 183)!

    • Antonio, é muito difícil que alguém deixe de encontrar alguma palavra no Vocabulário, por mais estapafúrdia que ela seja: são 400 mil registros!

      A propósito, a nossa língua está virando uma mixórdia, graças aos lexicógrafos que resolveram incorporar todo e qualquer barbarismo adaptado ao nosso vocabulário. Outro dia dei de cara com o verbo “leiautar” no Houaiss. Pombas!, já não temos esboçar, delinear, projetar? Para que legitimar o uso de uma barbaridade dessas? O pior é que já constava do Vocabulário em 1981.

      • Ricardo, para “leiautar” já temos há muito tempo, fartamente usado nas redações de jornais, “diagramar”, por um profissional chamado “diagramador”. Esse pessoal não precisa ficar inventando moda…
        É como agora parece que virou moda usar “acessar” (do uso inglês “access”) no lugar de “aceder”, ou “seguir” em vez de “continuar” (essa última, que vem do uso no espanhol “sigue”, cria pérolas como uma manchete de jornal que vi há tempos: “Cadáver segue desaparecido”, que me fez imaginar um zumbi seguindo alguém que não está lá)…

        • Pois é, Wilson, existem expressões e palavras que são criadas por determinados grupos, espécies de dialeto até, que para eles fazem sentido, mas que não têm obrigatoriamente que ser incorporadas ao vocabulário oficial, já que quem não pertence a tais grupos não têm a menor noção do que elas significam e muito menos a necessidade de empregá-las.

          Aliás, a incoerência dos lexicógrafos é patente e o maior exemplo disso é o verbo “deletar” que Houaiss começa dizendo que é “palavra a evitar” e que devemos substituí-la por “apagar, suprimir, remover”. Logo “deletar”, que, além da sua origem, é uma palavra que já caiu em uso popularíssimo.

          Suponho que os “intelequituais” do tope de um Houaiss não gostem de “deletar” por acharem que se trata de um anglicismo, como o próprio e como já ouvi e li muitos argumentarem.

          Acontece que “deletar” não é anglicismo porcaria nenhuma, porque deriva do latim deleo (apagar), que deu em deletus (apagado) e deletilis (esponja para apagar). Portanto, o verbo “deletar” pode ser usado sim, porque vem da nossa língua-mãe, e não importa se os americanos o descobriram primeiro. Aliás, nós já temos “delével”, do mesmo radical latino, significando “que pode ser apagado, eliminado, destruído”.

          É exatamente pela falta de critério desses “intelequituais” que a língua empobrece.

  3. Pois é Fróes, a Lingua é viva, dinâmica, vive se auto-recriando (ou será autorrecriando?).

    Uma lição que recebi, ainda criança, logo que aprendi a ler: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus …” (Evangelho de João, 1) aproveito para citar uma raridade, “Novo Testamento”, tradução do original grego, com as variantes da Vulgata, pelo padre jesuíta, o catarinense Huberto Rohden (1893-1981), que viveu muitos anos em Porto Alegre, a edição é de 1930.

    Mas quem entende bem desta área é o Lionço (obrigado pelo seu comentário, Lionço).

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