Custo de vida: cálculo do IBGE inclui os que ganham 40 salários mínimos

Pedro do Coutto

O título causa surpresa? Sem dúvida. No fundo, uma forma encontrada pelo IBGE para diluir o peso percentual da alimentação nos orçamentos domésticos, em particular, e da inflação de modo geral. Quantos recebem 40 salários mínimos por mês no país? O Anuário Estatístico do IBGE sequer vai a este limite específico. Fica na faixa máxima dos 20 pisos. Ela reune apenas 2% da força de trabalho brasileira. Se estendermos o elástico para 40 SM, no máximo vamos encontrar, e olhe lá, somente 1%.

Por que, então considerá-la como parâmetro? Exatamente porque, quanto menor renda perceber uma família ou pessoa, maior percentual será seu encargo com alimentação e moradia. Excelente reportagem de Clarice Spitz, O Globo de quinta-feira 12, focaliza o assunto. Um belo gráfico da Editora de Arte do Jornal acrescenta luz ao texto, já por si bastante claro. E clarificador.

Tudo isso a propósito de nova metodologia adotada, a partir deste ano, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Clarice Spitz ouviu pessoas, consultou outras fontes. Para Luiz Otávio Souza Leal, do Banco ABC, se o sistema que começa agora estivesse em vigor no ano passado, a inflação não teria sido de 6,5% e sim 6,1 pontos. De pato a ganso é pouco o avanço, como se dizia. Para a empresa Focus, o índice inflacionário de 2012 recuará para 5,3%. Talvez seja um sonho de uma noite de verão, como escreveu Shakespeare há 410 anos.

Previsões inflacionárias, no Brasil, nunca dão certo. Lembro-me de Delfim Neto e os expurgos salariais praticados no governo Medici. Irrecuperáveis. Porque em cima da parcela garfada deixam de incidir todos os reajustes anuais posteriores. É bom lembrar o fenômeno antissocial. Mas o que passou, passou. Voltemos ao presente.

O IBGE – revela O Globo – publicou os novos pesos percentuais aplicados aos itens de despesas. Entrou até a compra de automóveis. Mercado minoritário. Mas deixemos para lá. Alimentação e bebidas pesam 23,4% nos encargos familiares. Habitação 13,2%. Vestuário 6,9, artigos domésticos 3,9 pontos. Transportes, que no Rio este mês subiram 10,6%, pesam 18,6 pontos na composição do índice geral. Saúde 10%. Uma piada. E os preços dos remédios? Despesas pessoais 10,5%. Educação 7,2; comunicação (televisão, internet, jornais, revistas, audiência de rádio), 5,2 pontos.

Não encontrei na lista as tarifas de eletricidade, gás, água, condomínio, IPTU. Ia me esquecendo do Imposto de Renda. Ele foi elevado em 2012, pois o fator aplicado de atualização em 4,5 pontos. A taxa inflacionária de 2011 atingiu 6,5%. Estamos diante de, pelo menos, duas omissões na ampla relação de encargos obrigatórios. Conter o elevador inflacionário no papel é face. Na pratica difícil.

Mas eu comecei o artigo me referindo à inclusão das famílias ou pessoas que ganham 40 salários mínimos por mês. O contingente é baixíssimo. Porém sua influência como redutor é alta. Sabem por que? Simplesmente porque enquanto para quem ganha até 3 salários mínimos (60% da população), o consumo de alimentos pesa fortemente, para quem recebe 24,8 mil reais mensalmente. Influi muitíssimo menos em termos de percentagem. Assim, o principal item da despesa coletiva desce para um patamar ilusório. Menos para o bolso da maioria da população brasileira.

O mesmo se aplica à habitação. Para quem possui casa própria, o custo é baixo. Para as 9 milhões de famílias que pagam aluguel é bem elevado. Outra coisa: São 66% dos que trabalham os que recebem de 1 a 5 salários mínimos mensais. Esta é a realidade brasileira, à luz dos fatos. Mas é fácil desfocá-los à sombra das percentagens algébricas adotadas pelo IBGE. O Instituto não está mentindo. Apenas ocultando a verdade plena.

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