Custou 30 milhões de reais o sorteio das chaves para a Copa de 2014?

Pedro do Coutto

Reportagem assinada por Almir Leite, Bruno Louzada, Silvio Barseti e Wagner Vilaron, edição de sexta-feira de O Estado de São Paulo, revelou que o evento envolvendo o sorteio das chaves pás as eliminatórias de 2014, que teve a presença da presidente Dilma Roussef, custou nada menos que 30 milhões de reais. Tal importância – acentua a matéria – foi custeada em partes iguais pelo governo do Rio de Janeiro e pela Prefeitura da cidade. A solenidade, na Marina da Glória, área administrada pelo empresário Eike Batista, foi organizada por uma empresa particular especializada em promover tais acontecimentos.

O preço está alto. Sobretudo porque não inclui despesas com publicidade, já que a cobertura dos jornais e emissoras de rádio e TV é gratuita. O acontecimento é de repercussão internacional. Escrevo este artigo na tarde de sexta-feira. Paralelamente, é claro, há o merchandise, já que vão aparecer nas telas e nas fotos os nomes das empresas patrocinadoras. Lance publicitário excelente. Dilma ao lado de Pelé. Mas este é outro ponto da questão.

Almir, Bruno, Sílvio e Wagner entrevistaram o secretário geral da FIFA que veio para assistir tudo. E também analisar o ritmo das obras dos estádios e de infraestrutura para 2013 e 2014, já que antes da Taça do Mundo haverá a Copa das Confederações. O ritmo não ganhou ainda a velocidade esperada porém os gastos públicos estão velozes demais. Valcke, que havia se baseado em declarações do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, em 2007, de que não haveria investimentos públicos para projetos particulares, mostrou-se surpreso com a mudança de rumo. Conhece pouco o Brasil, me parece, país em que o gesto não corresponde à palavra. Palavras, como diz o velho ditado, o vento leva. Levou.

Foi o que aconteceu com as afirmações de ontem de Ricardo Teixeira. Hoje, a realidade é outra. Amanhã à medida em que se aproximarem as datas limite, vai mudar novamente. Para pior: mais depressa “inevitáveis” vão surgir. É sempre assim. A aliança entre empresas empreiteiras em nosso país com substancial parcela do mundo político é indestrutível. As pessoas passam, o sistema e o estilo ficam. Não se trata apenas de preço. Além do preço sempre inflado, há as renúncias fiscais que são, sem dívida financiamentos indiretos.

Os investimentos em torno de 1 bilhão de reais no Maracanã, estádio Mário Filho, por exemplo, vá lá por que se trata de patrimônio público, embora o governador Sérgio Cabral já tenha manifestado a intenção de arrendá-lo. Mas o Itaquerão, futura arena do Conríntians, constitui propriedade privada. Vai custar – revelou O Estado de São Paulo – 490 milhões. Aos preços de hoje, dos quais 420 custeados pela Prefeitura da capital paulista e mais 70 milhões de reais pelo governo do Estado. Estes os desembolsos diretos. Os indiretos encontram-se embutidos nas renúncias fiscais, cobertas pelos contribuintes, pelos que vivem de salários, por todos nós.

Em nosso país tudo é assim, a lua acende a poesia lá no céu, como no velho samba da Portela. O sol também – afirmo eu -, pois o sorteio das chaves, esperamos, realizado à beira-mar com ondas suaves tocando o ancoradouro, custa 30 milhões. Um leve balanço do tempo fornecendo a atmosfera de mais uma Copa do Mundo. Uma festa sem dúvida intensa e de repercussão universal. Vale a pena. No fim das contas, trata-se de um ato elegante, ao qual não faltam emoção e magia. Perspectivas de alegria e felicidade popular, apesar dos pesares, emolduradas por tantos interesses. Que fazer?

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