CUT é mais agressiva com a Dilma do que foi em relação a Lula

Pedro do Coutto

Sem dúvida, como a frase que está no título. Basta ler o que a Central Única dos Trabalhadores divulgou em seu site na Internet, edição de quinta-feira 12, para se concluir a diferença de tratamento. É verdade que, não existindo duas pessoas iguais, não há como esperar comportamentos semelhantes, seja por parte dos presidentes, seja por parte das entidades de classe em relação a eles. Perfeito. Mas estou me referindo à atmosfera que durou até o final de 2010 e a atmosfera em 2012. A CUT, semana passada, assumiu um outro tom, bem mais agressivo do que o usado anteriormente.

Ao divulgar a greve das empresas estatais de energia, que começa nesta segunda-feira, e cuja duração indeterminada dependerá, é claro, de nova rodada de negociações, o presidente da Federação Nacional dos Urbanitários, Franklin Moreira Gonçalves, rejeitou no alinhamento salarial, apenas a reposição inflacionária que, de acordo com o IBGE, é de 5,1% para o período maio de 2011 a maio de 2012. A proposta trabalhista situa-se em torno de 10%, além de pontos adicionais. Portanto, temos de um lado 10%, de outro cinco. A FNU é vinculada à CUT, daí o apoio que recebeu.

O dirigente sindical, entretanto, cobra perdas anteriores não repostas e acentua que um governo popular e democrático não pode se recusar ao diálogo com os trabalhadores, por sinal – frisa – uma das fontes principais da vitória de Dilma Rousseff nas urnas de dois anos atrás. No final do documento, Moreira Gonçalves anuncia também o apoio da CUT à greve anunciada do funcionalismo federal. E acrescentou: apoiamos igualmente as que já estão acontecendo e apoiaremos as demais que vão se iniciar.

Neste ponto, uma surpresa: apoio antecipado antes de saber a motivação dos movimentos? Parece algo estranho. Transmite a impressão que existe algo político nesse posicionamento.
Por exemplo, uma arregimentação sindical em torno do julgamento do ex-ministro José Dirceu pelo Supremo Tribunal Federal?

Como esta hipótese já foi colocada pelo próprio Dirceu, pelo deputado Rui Falcão, presidente do PT, e pelo novo presidente da CUT, Vagner Freitas, tornar-se-ia oportuno, para dizer o mínimo, o presidente da Federação Nacional dos Urbanitários esclarecer de forma nítida os limites da mobilização, no sentido de que uma coisa não se confunda com outra. Afinal de contas, luta por melhoria salarial nada tem a ver com a tentativa surpreendente de pressionar o STF através de uma concentração na Praça dos Três Poderes, em Brasília.

Como a separação de objetivos não foi iluminada e colocada no palco das hipóteses, será importante Franklin Moreira Gonçalves esclarecer a diferença, sobretudo para evitar que os interessados em libertar José Dirceu aproveitem-se de uma greve legítima para exercer pressão ilegítima. O panorama conduz a que se pense sobre as hipóteses, aliás conflitantes, na medida em que se unem reivindicações coletivas e interesses pessoais.

Não é sem razão que se localiza o tema sob este prisma. Pois chama atenção a diferença de linguagem da CUT, que engloba a Federação Nacional dos Urbanitários, usada em relação ao ex-presidente Lula e a aplicada quanto a presidente Dilma Rousseff. O julgamento do mensalão teria dividido correntes do Partido dos Trabalhadores? Se criou, é hora de a atual presidente assumir o comando da negociação salarial entre empregados das empresas elétricas e o governo. Parece haver um fio desencapado. Tocá-lo sem a cautela necessária pode produzir um choque.
Mais um fato: a greve por tempo indeterminado aproxima o movimento que se desenrola com o julgamento do STF. Os que se empenham pelo ex-chefe da Csa Civil têm aí uma oportunidade para confundir a opinião pública.

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