CUT não encontrou clima para defender acusados do mensalão

Pedro do Coutto

No início de julho, o novo presidente da CUT, Wagner Freitas, em entrevista à Folha de São Paulo, primeira página da edição do dia 9, anunciou mobilização popular dos trabalhadores, incluindo concentração pública, para defender os réus do processo do Mensalão. O julgamento começa agora no STF. A UNE seria também convocada a mobilizar estudantes. Este era o projeto também do presidente do PT, deputado Rui Falcão, e do ex-ministro José Dirceu.

Não houve clima para a defesa dos acusados, muito menos para qualquer movimento visando a pressionar o Supremo Tribunal. Clima houve, isso sim, para passeatas em favor do julgamento e de repúdio aos réus, como o do Leblon, domingo, objeto de reportagem de Renato Onofre, O Globo de segunda-feira, foto de Eduardo Nader.

Isso prova, mais uma vez, que para se desencadear manifestações nas ruas é indispensável a presença de forte motivação. Caso contrário, as tentativas de mobilização popular esvaziam-se. Houve entusiasmo nas campanhas pelas diretas já, um milhão de pessoas nas ruas do Rio, em 84. Entusiasmo arrebatou também o povo na campanha presidencial de Tancredo Neves, apesar de as eleições de 85 terem sido indiretas. Muitos anos atrás, em 45, o comício dos lenços brancos, Largo da Carioca, pela redemocratização do país fez história.

A passeata do luto contra o Presidente Fernando Collor tornou-se decisiva para, em etapa seguinte, a aprovação do seu impedimento e queda do Palácio do Planalto. Todos esses movimentos contaram com forte impulso da imprensa e a demonstração maciça da vontade popular.

Do lado contrário, há o exemplo da conclamação de Collor para que as pessoas fossem às ruas vestidas de verde e amarelo. Não pegou. A população só é movida por impulsos espontâneos. Não funciona orquestrá-los. A força da comunicação, aliás, está nesse ponto. É comum ouvir-se que tudo o que acontece é produto da mídia. Engano. A mídia não é uma fábrica de fatos. Nada disso. É um espelho. A imprensa fotografa e reproduz os acontecimentos usando – isso sim – seus títulos como lentes para destacar os que julga mais importantes. Mas não tem força alguma para criá-los.

Tome-se o exemplo das ondas do mar. A mídia pode lançá-las além dos limites da orla. Não possui, porém, condições de fazê-las retornar ao oceano. Forte quando vai no sentido da maré, ao encontro da opinião pública. Fraca nos episódios em que alguns tentam desviar as atenções sobre esse ou aquele aspecto.

Graças a Deus é assim. Caso contrário, seríamos, todos nós, escravos das empresas de comunicação e dos jornalistas. Outro exemplo: os apresentadores de televisão que alcançam níveis de audiência. A força publicitária de que se revestem é intensa. Mas sob o prisma comercial. É só. Não influem no pensamento coletivo, nos planos políticos e econômicos. Ilusão pensar o contrário.

É natural essa realidade. Porque para influir no pensamento é indispensável conteúdo lógico nas colocações. Não havia a menor lógica num movimento popular em defesa dos acusados do mensalão de 2005. Exatamente por isso a tentativa de mobilização não produziu efeito. O reflexo que se viu nas ruas, pelo menos nas ruas do Rio, foi exatamente a vontade popular em sentido contrário. As coisas acontecem assim. É necessário emoção para que partidos ou entidades de classe possam colocar o povo nas praças, ruas, passeatas. Não é tarefa fácil. Ótimo que seja dessa maneira.

Claro que existem as concentrações organizadas. Sem dúvida. Mas não apresentam o mesmo calor, a mesma disposição, o mesmo entusiasmo. O calor humano possui uma força de irradiação e confirmação de justiça muito intensa. Sem o senso de justiça, nenhuma iniciativa humana consegue legitimar-se.

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