Dá o dízimo ou vai pro inferno

Sebastião Nery

Santa Catarina toda conhece esta história. O governador do PMDB, Casildo Maldaner (90-91), depois senador, foi a uma cidade do interior lançar a candidatura de Aníbal, um pastor evangélico do partido, à prefeitura.

A cidade estava agitada. Aníbal havia escolhido para vice o comerciante Vavá, de péssimos antecedentes e presentes. Quando o governador subiu ao palanque com Aníbal e Vavá, ouviu vaias de todo canto. Aníbal pegou logo o microfone, abriu uma Bíblia enorme, pesada, suspendeu sobre a cabeça :

– Meus irmãos, hoje acordei resolvido a vir a este comício renunciar à minha candidatura a prefeito, porque nossos adversários andam dizendo que meu vice Vavá é ladrão. Mas, na hora de sair para cá, abri minha Bíblia, que é minha luz e meu farol, e pedi a Jesus que ele me iluminasse. E ele me iluminou.

Aníbal abaixou a Bíblia, já aberta, pôs o dedo em cima e continuou :

– Está aqui, na Bíblia, a resposta a nossos inimigos. Se Jesus, que era Jesus, o Senhor que tudo sabe e tudo pode, morreu na cruz entre dois ladrões, por que eu, seu mais humilde servo, não posso ser prefeito ao lado de um só?

Aníbal e Vavá ganharam a eleição e acabaram cassados pela Câmara.

Macedo, mercador da fé e do voto

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PASTORES

Os jornais publicaram foto do ministro Marcelo Crivella fazendo campanha para Celso Russomanno. Sobrinho do “bispo” Edir Macedo e herdeiro da Igreja Universal, dona da TV Record, que há muito tempo fez uma “parceria” com Lula, o “bispo” Crivella avisava o petista Fernando Haddad que “peixe morre pela boca”.

A Bíblia de Aníbal é a mesma de Edir Macedo e Crivella. Ela também conta que a única vez em que Jesus, a suprema compreensão, perdeu a paciência e a calma foi quando entrou no Templo de Jerusalém e lá encontrou “os mercadores e os vendilhões” do Templo, com suas mercadorias e seus dízimos, e os expulsou violentamente.

Não há diferença entre o que Edir Macedo e os demais pastores fazem com os votos de milhões de fiéis de suas “igrejas” e o que faziam os “mercadores e vendilhões” do Templo expulsos por Jesus. Em nome da fé, conspurcando a Bíblia e a mensagem do Cristo, os daqui mercadejam votos como os de lá mercadejavam objetos e dízimos.

E ainda se queixam de que os que os criticam têm “preconceito”.

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A UNIVERSAL

Eles devem conhecer, e seus ludibriados “fiéis” também deveriam ler, o irrespondível e devastador livro “Ou Dá o Dízimo ou Desce ao Inferno – Análise das Estratégias de Persuasão na Teologia da Igreja Universal”, do professor Alex Peña-Alfaro, da Universidade de Pernambuco, tese de doutorado defendida na Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona.

Entre outros documentos raros, ele estuda um vídeo em que o “bispo” Edir Macedo, proprietário da Igreja Universal, “ensina aos pastores como pedir os dízimos nos templos”:

– “Você tem que chegar e se impor. Tem que mostrar ao fiel que, se ele quiser ajudar, Amém. Se não quiser ajudar, Deus vai arrumar outra pessoa para ajudar. Entendeu como é que é? Se ele não quiser, que se dane” (sic). Ou dá ou desce (sic). Se se mostrar chocho, o povo não vai confiar em você. Você tem que ser um super-herói. Tem uns que dizem : – “Há quanto tempo eu queria isso”!. Esse vai ficar do nosso lado, esse vai dizer : – “Isso mesmo!”, e põe tudo lá. Se tiver alguém que não dê, tem um montão de gente que vai dar. Tem que ser no peito e na raça. O povo quer ver seu pastor brigando com o demônio. Nós vamos lá. Bota pra quebrar, faz cambalhota, o povo fica louco”.

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