Da série: Não leia jornalões nem assista à TV brasileira. Não há nem haverá estado alauita na Síria.

Joshua Landis (Syria Comment)

Muitos jornalistas e figuras da oposição síria têm insistido em que os alauitas estariam planejando voltar às Montanhas Alawitas, em tentativa para criar e estabelecer estado separado nas chamadas Montanhas Costeiras, na Síria. Absolutamente inverossímil. Aqui, as cinco principais razões pelas quais não há nem haverá estado alawita.

1. Os alawitas sempre tentaram deixar as montanhas e chegar às cidades. Depois que a França ocupou a Síria em 1920, os primeiros censos mostraram profunda segregação demográfica entre sunitas e alauitas. Em nenhuma cidade com mais de 200 habitantes sunitas e alauitas viviam juntos. As cidades costeiras de Latakia, Jeble, Tartus e Banyas eram cidades sunitas, com vizinhos cristãos; mas não havia alauitas nas vizinhanças. Só em Antióquia os alauitas vivem na cidade; e essa cidade foi capital de uma região separada, autônoma, Iskandarun, que foi cedida aos turcos em 1938. Em 1945, só se registraram 400 alauitas como habitantes de Damasco.

Desde o fim da era otomana, os alauitas fluem para fora da região das montanhas que acompanham o litoral, para viver nas cidades. O estabelecimento, pelos franceses, de um estado alauita autônomo junto à costa, e o alto recrutamento de alauitas para o exército aceleraram esse processo de urbanização e de mistura de religiões nas cidades sírias.

A Síria de Bashar Assad acelerou ainda mais a urbanização dos alauitas, depois que foram pela primeira vez admitidos nas universidades, às quais chegaram em grande número, e em postos de serviço público, em todos os ministérios e instituições nacionais.

2. O projeto dos Assads para resolver o problema da divisão sectária na Síria foi promover a integração dos alauitas como “muçulmanos”. Os Assads promoveram estado secular e tentaram fazer desaparecer as tradições sectárias e a ideia de uma “identidade alauita”.

Nunca se criaram instituições alauitas para fixar ou promover alguma identidade alauita cultural, religiosa ou qualquer outro particularismo. Os Assads jamais trabalharam para promover qualquer coisa que se possa chamar, ainda que só por analogia, “um estado alauita”.

Ao contrário, os Assads recorreram ao passado, para definir os alauitas como muçulmanos. Bashar Assad é casado com uma muçulmana sunita, o que se integrou ao projeto de construir uma nação sem diferenças religiosas que se apresentaria como exemplo de integração. Sempre disse que seu objetivo é promover uma visão “secular” da Síria.

3. Assad jamais tomou qualquer medida para lançar o que pudesse ser apresentado como bases de algum ‘estado alauita’. Não há infraestrutura nacional na região costeira que possa sustentar um estado: não há aeroporto, nem usinas de energia elétrica, nem indústrias importantes que gerem empregos locais ou qualquer instrumento para construir qualquer tipo de economia nacional.

4. Nenhum país reconheceria algum estado definido como “estado alauita”.

5. Talvez mais importante que tudo isso, um estado alauita não teria como defender-se. É possível que as shabbihas [gangues armadas] e as brigadas armadas de alauitas [que o governo sírio diz que estão sendo armadas por estrangeiros] tentem voltar às Montanhas Alawitas, no caso de serem expulsas da capital. Mas por quanto tempo poderiam permanecer lá?

Tão logo os grupos sunitas sírios se unam – o que provavelmente acontecerá, se tiver sucesso a estratégia ocidental de criar sectarismos na luta na Síria – eles próprios se encarregarão de por fim a qualquer resistência alauita que venha a constituir-se na Síria, ou a forças remanescentes das gangues armadas que estão lutando nas grandes cidades.

Seja qual for o grupo que venha a dominar em Damasco e no controle do Estado na Síria, esse grupo dominará sem dificuldade qualquer resistência alauita que se tenha já constituído ou venha a constituir-se. Terão o dinheiro e a legitimidade, e terão apoio internacional para pôr fim a quaisquer ‘separatismos’ que se inventem na Síria. E a Síria não sobreviveria sem a costa.

Mais importante que isso, a Síria não aceitará nenhum tipo de divisão que implique perder as cidades portuárias de Tartus e Latakia. Nenhuma dessas cidades pode ser dita hoje ‘alauita’ e todas as cidades costeiras continuam a ter populações majoritariamente sunitas.

Joshua Landis é diretor do Centro de Estudos do Oriente Médio
e professor associado da University of Oklahoma, EUA.

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