Dallagnol diz que postura de Aras sobre a Lava Jato está equivocada: “É algo a ser mantido, expandido e replicado”

Na visão de Deltan, a discussão é ‘crucial’ para o futuro da operação

Ricardo Brandt, Fausto Macedo e Rayssa Motta
Estadão

Depois de seis anos à frente da Lava Jato em Curitiba, base e origem da maior operação de combate à corrupção já deflagrada no País, o procurador Deltan Dallagnol se despede do cargo de coordenador da força-tarefa. As horas-extras de trabalho passam a ser dedicadas ao tratamento da filha de um ano, que vem apresentando sinais de regressão no desenvolvimento.

Em entrevista ao Estadão, Deltan diz que a decisão foi motivada exclusivamente pela necessidade de cuidar da família, mas admite que sentiu os ataques enquanto esteve no cargo. “Tentaram por inúmeras vezes, sem sucesso, aplicar punições desproporcionais ou me retirar à força da coordenação”, afirma.

EMBATE JUDICIAL – A saída foi anunciada em um momento de reveses para a Lava Jato. Os grupos de trabalho no Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo travam um embate judicial com a cúpula do Ministério Público Federal (MPF) para impedir o compartilhamento irrestrito do banco de dados sigilosos da operação. O pedido de devassa partiu do chefe da instituição, o procurador-geral da República Augusto Aras que, empunhando o mote da ‘correção de rumos’, colocou sob suspeita o volume de informações conservado pelas forças-tarefas.

“A postura dele (Aras) em relação às forças-tarefas está equivocada. Elas são modelos de atuação no Brasil e no mundo. Alcançaram resultados contra a corrupção antes inimagináveis. É algo a ser mantido, expandido e replicado”, defende Deltan. A prorrogação dos grupos de trabalho ainda é dada como incerta.

À revelia dos procuradores, que temem perder independência pra tocar as apurações, o Conselho Superior do Ministério Público discute a remodelação da operação através da centralização das investigações sob o guarda-chuva de um comando único em Brasília.

DEBATE – Na visão de Deltan, a discussão é ‘crucial’ para o futuro da operação. “Essa é uma das decisões que deve se pautar pelo interesse público e não eventuais questões pessoais”, argumenta.O procurador também falou sobre o episódio do PowerPoint contra o ex-presidente Lula, que lhe rendeu um pedido de processo disciplinar apresentado pela defesa do petista e arquivado por prescrição na semana passada.

“Embora tenha se dado dentro da lei, gerou polêmicas e desgastes. Hoje faria diferente. Agora, é importante dizer que o que se disse naquela entrevista coletiva, com um esforço para ser acessível e didático para leigos, constava, de modo mais técnico, na denúncia apresentada, que embasou a condenação do ex-presidente”, ponderou.

A grande ofensiva dos adversários da Lava Jato pesou em sua decisão?
Minha decisão foi cem por cento guiada pela necessidade da minha filha. A recomendação médica é de 40 horas de terapia semanais, sendo 15 em clínica e 25 em casa por meio de pais e cuidadora. Isso vira nossa vida de pernas para o ar, mas daria quantas cambalhotas na vida fossem necessárias por amor à minha família e aos meus filhos. Preciso redirecionar as horas extras que a Lava Jato exige para dentro da minha casa.

Sua saída pode aliviar a pressão e os ataques anti Lava Jato ?
Se as pressões e ataques estiverem vinculados à minha posição na coordenação, sim. Contudo, se estiverem vinculados ao tipo de trabalho que é feito, não. Como colegas de outras forças-tarefas também sentem as pressões, acredito que seguirão existindo, em grau um pouco maior ou menor.

Onde está a maior ameaça à Lava Jato? No Congresso? No Supremo? Ou na PGR?
Decisões dessas três esferas podem ter impactos tremendos na operação e, mais importante, no futuro da luta contra a corrupção. No momento, a questão central é a prorrogação da força-tarefa, que precisa ser decidida até 9 de setembro.

Augusto Aras quer acabar com a Lava Jato? Por quê?
Tenho o maior respeito pelo Procurador-Geral, chefe da Instituição em que estão minhas lealdades profissionais, mas a postura dele em relação às forças-tarefas está equivocada. Elas são modelos de atuação no Brasil e no mundo. Alcançaram resultados contra a corrupção antes inimagináveis. É algo a ser mantido, expandido e replicado.

O senhor se arrepende de algo que fez na Operação Lava Jato?
Foi uma jornada intensa de aprendizado e aperfeiçoamento do trabalho. Várias inovações deram certo e foram fundamentais para os resultados, mas algumas não foram bem recebidas ou geraram polêmicas. Hoje, por exemplo, chamaria vários outros órgãos para participar e aperfeiçoar o acordo feito com a Petrobras. Embora tenha permitido que mais de R$ 2 bilhões ficassem no Brasil e tenha sido reconhecida sua legitimidade por sete órgãos diferentes, gerou desgastes que poderiam ter sido evitados.

O PowerPoint foi um erro?          
Esse foi outro episódio que, embora tenha se dado dentro da lei, gerou polêmicas e desgastes. Hoje faria diferente. Agora, é importante dizer que o que se disse naquela entrevista coletiva, com um esforço para ser acessível e didático para leigos, constava, de modo mais técnico, na denúncia apresentada, que embasou a condenação do ex-presidente pelo Judiciário, confirmada em duas instâncias independentes.

Atacar Deltan virou uma forma de atacar a Lava Jato?
Com a saída do ex-juiz Sergio Moro, creio que os ataques passaram a se concentrar em mim por uma questão de estratégia. É muito mais fácil construir teorias de conspiração sobre uma pessoa do que sobre quatorze procuradores e trinta servidores que têm diferentes histórias e visões de mundo, os quais trabalham conjuntamente na Lava Jato em Curitiba.

Sua saída é uma vitória dos inimigos da Lava Jato?
Tentaram por inúmeras vezes, sem sucesso, aplicar punições desproporcionais ou me retirar à força da coordenação, embora nenhum processo jamais tenha sido instaurado contra procuradores da força-tarefa por conta de seus atos em investigações e processos. O que estava em jogo nessas situações era muito mais do que a figura de Deltan ou a Lava Jato, mas as garantias para que promotores e procuradores possam atuar com independência e processar poderosos sem risco de vingança e retaliação. Até hoje, essa independência foi preservada e quem ganha é a sociedade. Com minha saída por razões pessoais, assume a coordenação um procurador competente, dedicado e independente e o trabalho seguirá firme.

A troca do ‘coordenador’ da força-tarefa pode indicar uma mudança de rumo na Lava Jato?
Como as decisões na força-tarefa curitibana sempre foram colegiadas e o novo coordenador tem essa mesma visão democrática, a operação deve avançar de modo semelhante. É uma excelente equipe e há muito trabalho por fazer, mas decisões de Brasília podem impedir que os frutos sejam colhidos.

Acredita que a PGR deve prorrogar por mais um ano a força-tarefa? Sua saída pode influir na decisão?
Essa é uma das decisões cruciais que impactará o futuro da operação e deve se pautar pelo interesse público e não eventuais questões pessoais. Os resultados do trabalho são muito significativos, basta ver que nas duas semanas anteriores oferecemos acusações por corrupção envolvendo prejuízos relevantes, de cerca de R$ 300 milhões, e atores relevantes, como Ministro do TCU. Tivemos também duas fases, uma por corrupção com prejuízos de R$ 600 milhões, e o anúncio de um acordo que recuperou R$ 100 milhões. Diante da importância desse tipo de trabalho prosseguir, três órgãos da Procuradoria-Geral – a Corregedoria, a Câmara de Combate à Corrupção e o Conselho Superior – recomendaram ao PGR que prorrogue as atividades, por reconhecerem grande interesse social nisso, mas a decisão é dele.

Sem o senhor se na Lava Jato, as chances do PGR obter todo acervo de dados das investigações é maior? Ou nada muda?    
A meu ver, nada muda.

Como vê a saída coletiva dos colegas da força-tarefa Lava Jato em São Paulo?
Lamento muito, porque era um grupo que vinha se dedicando muito e obtendo resultados importantes. O trabalho em forças-tarefas é voluntário e, pelo que compreendi, ficou inviabilizado pela incompatibilidade entre a visão, entendimento e linha de atuação da procuradora responsável pelo caso e da equipe de procuradores designada para atuar com ela.

17 thoughts on “Dallagnol diz que postura de Aras sobre a Lava Jato está equivocada: “É algo a ser mantido, expandido e replicado”

  1. Uma pérola do seu Heleno, que antes foi general: ‘É possível melhorar a preservação da Amazônia’.
    Ora, seu Heleno, isso não é nem elocubração – tudo pode melhorar especialmente a amazònia, que se encontra num estado lamentável.
    Como brasileiro, esperava algo mais elaborado e convincente do governo. Mas fazer o quê – temos que contar com o que temos.

  2. Os abutres estão deitando e rolando na tragédia humanitária da Covid (inclusive maximizando o assalto ao povo com seus covidões)
    Mas como sempre já vimos, esperar alguma ação dos membros do Estado Cleptocrático, notadamente da velha e carcomida (in)Jusitiça que pensa, alias, possibilita que a lei tenha validade só pros 4 Ps (puta, pobre, preto e pederastra), é pura perda de tempo. Cada vez mais gangues lotam e ganham as eleições em todos os níveis.
    E, como já vimos, também, só o ´povo na rua pode resolver essa bendenga. Pós-pandemia teremos gigantescas manifestações anticorrupção e o corolário impichamento do chefe da famiglia de plantão.
    Muitos ciclos ainda virão até que atinjamos um nível mínimo de civilização consoante o Estado Democrático de direito.
    Esse ciclo está perdido, vide o “caçador de marajás”, Witzel.

  3. Falta verdade e sobram sacanagens. Tenho, diariamente, distribuído vídeos pequenos sobre as promessas do “Minto”. Aqui mais uma que ele jogou fora,junto com sua palavra empenhada!
    E ao contrário do que muito e muitos afirmam, continuo repetindo: a culpa é do povo, do povinho filho deste grande, imenso e rico país!
    Frequente as redes sociais e entenderá os por quês de estarmos ainda com a lama no pescoço!
    Povo corrupto precisa da corrupção para viver! É o vício sustentado pelo lixo da política.
    Para aqueles que “entendem” diferente, pergunto: se é o povo que elege os políticos, como responsabilizar os políticos que o povo elege erradamente?
    É o ECA da política – crianças e menores não são responsáveis por seus atos. Os eleitora não são responsáveis por aqueles que elegem! Se não são, então são “crianças e adolescentes inimputáveis”!

  4. Esperar ação anticorrupção por membros do Estado Cleptocrático ´chega a ser ridículo. Só o povo na rua é que pode impulsionar a luta contra o maior problema do país, a corrupção. Os abutres nutrem-se da miséria humana advinda da pandemia.
    Passando isso, com certeza, teremos as maiores manifestações já vistas contra a corrupção, com o corolário impichamento do chefe da atual famiglia no comando da bagaça.
    Outros ciclos virão, pois esse já era, vide o “caçador de marajás”, Witzel.
    A Indústria da Miséria, corolária da da Corrupção, não tem nenhuma chance de gerar massa crítica de apoio e sustentação dos corruptos. O coranavoucher não vi salvar nenhuma famiglia.

    • Delcio, que Deus ouça tuas palavras! Também acredito nisto, mas estou receoso de que não seja suficiente! Jamais esqueça que aqui, pela construção e composição do povo, a corrupção nasce como capim!
      Abraço.
      Fallavena

      • Delcio, esse é o caminho, difícil trabalhoso, árduo, mas não impossível. O procurador Deltan, na sua entrevista de hoje ao Villa, escancara a realidade, as vitorias da Operação e de cidades que conseguiram anular os corruptos, mas também desnuda as infinitas forças que no Poder e na sociedade lutam denodadamente para conservar e ampliar a impunidade. Um exemplo são as automáticas agressões à Lavajato e seus personagens quando surge neste pequeno espaço alguma alusão à praga maldita.

        • Delcio e F.Moreno
          Só as camadas com valores e princípios podem mudar a história e a organização em um país! A época dos lideres já era!
          Com uma organização, metas e dedicação, é possível promover mudanças. O”gado” ainda pode ser vacinado! Acreditem.
          Abraço.
          Fallavena

          • Antonio, você deve ter notado que esse é meu ideal faz tempo e embora não tenha tido repercussão aqui, sigo trabalhando e formulando teorias e estratégias e auscultando outros espaços. Em breve talvez eu tenha algo concreto para trazer à sua apreciação.

  5. Boa tarde , leitores(as):

    Senhores Ricardo Brandt, Fausto Macedo , Rayssa Motta ( Estadão ) , Carlos Newton e Marcelo Copelli , vedem o quanto a política dos ” DOIS PESOS e DUAS MEDIDAS ” , são extremamentes nocivos ao país , o Procurador da República Deltan Dallagnol , esta literalmente sendo ” DEMONIZADO e PERSEGUIDO ” impiedosamente, pelo PGR Augusto Aras e seus comparsas ministros/juizes criminosos do STF , por ter dito ( A VERDADE ) que a eleição do Senador Renan Calheiro para presidir o senado federal é nocivo ao país , e a Senadora Katia Abreu ” é LADRA e CORRUPTA ” , pois descontou a ” PREVIDÊNCIA SOCIAL e FGTS ” de seus funcionários e não entregou a quem de direito , isso é público e notório .
    No entanto o Presidente Jair Messias Bolsonaro , se achou no direito de se ” METER e INTERFERIR ” , em assuntos internos de outro país , como abaixo descrito , e até hoje ninguém o chamou ou interpelou para se explicar e até mesmo pedir desculpas por sua intromissão indevida em assuntos internos de outro país .
    ” RELAÇÃO CONTURBADA – Opostos no espectro ideológico, Bolsonaro e Fernández têm uma relação conturbada desde as eleições argentinas de 2019, quando o presidente brasileiro fez campanha aberta contra o peronista. Após a vitória, houve tentativas de moderação do discurso, mas o brasileiro não compareceu à posse do vizinho, quebrando uma tradição de décadas “.

  6. Boa tarde m leitores (as):

    Senhor Procurador da República Deltan Dallagnol , a postura do PGR Augusto Aras , sobre a Lava Jato não tem e nem é equivocada , e sim , deliberada , premeditada e principalmente criminosa , ou seja , entregar a cabeça de vocês numa bandeja , em troca de uma maldita vaga no Supremo Tribunal Federal – STF , que está á leilão , a ser entregue a quem se dispuser a ser ” TÍTERE e LACAIO ” , dos Presidente Jair Bolsonaro .
    Lembram-se do Ex – Delegado da Polícial Federal Protógenes Queiroz ( da operação Sathiagara ) , liderado pelo então juiz De Sancti , que teve que deixar o país , pois foi perseguido pelo Ministro Gilmar Mendes e vários juizes(as) ,desembargores(as) paus mandados para não ser assassinado , á mando do banqueiro ladrão Daniel Dantas ?

    • Sr José Carlos, o que o senhor relata nos seus comentários é apenas uma mísera amostra da podridão que se alastrou pelas instituições públicas e parte da sociedade deste pobre país.
      Não é necessário o senhor gastar seu tempo e a fluência de seus conhecimentos e argumentos na exposição da praga, já sobejamente conhecida e condenada pelos leitores por ela explorados e moralmente ofendidos e, dissimuladamente ignorada pelos demais. Concentremos nossos esforços na pesquisa, identificação, valoração e divulgação dos danos, numa tentativa de diminuir a leniência de uma parte da população que se deixa influenciar pelas narrativas criminosas dos esbirros da PRAGA.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *