De Nelson Rodrigues a Romero Jucá: perdoa-me por me traíres

Pedro do Coutto

O senador Romero Jucá, tricampeão em matéria de liderança do governo no Senado, pois liderou para FHC, Lula e agora Dilma, decidiu pedir desculpas públicas à presidente da República pelo fato de seu irmão, Oscar Jucá Neto, ter denunciado a existência de corrupção do Ministério das Agricultura. Oscar Jucá Neto partiu para ataque contra o ministro Wagner Rossi quando, por sua vez, foi demitido de uma diretoria da Conab sob acusação de práticas ilícitas. Ótima reportagem de Gerson Camaroti, Cristine Jungblut e Adriana Vasconcelos, O Globo de terça-feira 2, destacou o episódio.

Teatral. E impressionista. Claro, pois surpreende que alguém peça desculpas por outrem quando este denuncia a existência de crime. Ora, é princípio básico de Direito que aquele que tem conhecimento de ações criminosas tem obrigação (aparente) de tornar pública sua indignação. Não há, portanto, motivo algum para desculpas.

Mas foi o que o senador Romero Jucá fez. Quer dizer, então, que o crime pouco importa, o que pesa no caso é o constrangimento causado pela denúncias? Não tem lógica. E sem lógica não se vai a lugar algum. O líder da maioria na Câmara Alta caiu plenamente numa contradição.
Como a do personagem principal da peça de Nelson Rodrigues, novembro de 56, Teatro Municipal, quando no fim do primeiro ato dirige-se à própria mulher em tom forte e dia: “Judith, perdoa-me por me traíres”. O ator que representou o papel, Leo Jusi, infelizmente morreu antes do tempo. A peça é a única em que Nelson Rodrigues atua. Faz o tio Raul, chamado pelo sobrinho para tentar contornar uma crise conjugal. O sobrinho julga-se culpado pelo envolvimento de Judith com outro homem. “Você não tem razão nenhuma”, diz o tio Raul. Desce o pano.

Em parte deslocando o conflito para o plano político, Romero Jucá desempenha, 55 anos depois, o papel que Leo Jusi vivei em 56. Pede perdão a Dilma Roussef por algo que não cometeu. E, ainda por cima, retrata-se por uma acusação da qual sequer foi o autor. A voz é de seu irmão. Baixem-se  as cortinas do teatro e do passado.

Saimos de um ato e vamos para outro. No segundo ato, um outro absurdo, reportagem de Chico Otávio na mesma edição de O Globo. A Controladoria Geral da União identificou e acusa a empresa Delta de superfaturamento da ordem de 23,5 milhões de reais nas obras de adaptação da antiga sede do Jornal do Brasil para no espaço excepcional, ser instalado o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia. Além  do superfaturamento (um roubo portanto), atraso nas obras quer, no início, tinham sua conclusão prevista para o final de 2009.

Há mil pacientes na fila aguardando cirurgias, acrescentou Chico Otávio. Incrível.
A CGC está acusando a Delta, muito bem. Mas quem efetuou o pagamento superfaturado? O Ministério da Saúde? Quem afinal? É tão desonesto quanto o responsável pela apresentação da cobrança por valores falsos. Ninguém é responsabilizado? Descem as cortinas para o último ato.

Este é outro tema. O das acusações generalizadas que se transformam em escapismos por parte de quem as revela. Num blog que circula pela Internet, de autoria pouco nítida, um personagem dirige acusações ao governador Sérgio Cabral a partir de sua mudança de endereço e diz que uma revista semanal ia publicar reportagem a respeito, mas na última hora desistiu.
Acentua ser a revista de grande circulação. Tem que dar o nome. Não está correto. Sem especificar, está lançando uma sombra contra a Veja, Época e Isto é.

O item 4 do artigo 5 da CF veda o anonimato e daí a denúncia vaga. O autor da acusação deve dirigi-la concretamente. Com endereço certo. O campo da Internet não pode ser o refúgio da irresponsabilidade e da falsidade.

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