De Vargas e Lacerda ao mar de lama, versão 2010

Pedro do Coutto

A corrupção administrativa foi o tema inicial e também dominante da campanha que o jornalista Carlos Lacerda, diretor proprietário da Tribuna da Imprensa, desfechou contra Getúlio Vargas e seu governo, em 54, a partir do financiamento, pelo Banco do Brasil ao jornal Última Hora, de Samuel Wainer, e que culminou com o suicídio do presidente a 24 de agosto. Dezenove dias antes a crise político-militar atingia o auge com o atentado da Rua Toneleros.

Lacerda, com base em seus artigos e reportagens lançou – vejam só – “O Livro Negro da Corrupção”, base de sua campanha em outubro para deputado federal naquele ano. Choviam denúncias envolvendo a guarda pessoal do Catete, chefiada por Gregório Fortunato, personagem central de “Agosto”, obra de Rubem Fonseca, transformada em minissérie da Rede Globo com José Mayer, Lima Duarte, Vera Fisher e Tony Tornado, este num desempenho fantástico como o “anjo negro” do Palácio.

Vargas dissolveu a guarda pessoal depois do episódio Toneleros e quando soube que Gregório havia comprado uma fazenda de propriedade de seu filho Maneco Vargas. O ato da demissão de Fortunato possui ainda uma testemunha viva, o embaixador Edmundo Barbosa da Silva, hoje aproximando-se dos 100 anos. Aos jornais, Vargas afirmou que “nos porões do Catete corria um rio de lama”. Especialista em denúncias de corrupção, detentor de talento excepcional, Lacerda transformou o rio em mar de lama. Passados 56 anos, um oceano de lama emerge na Casa Civil do presidente Lula, tragando e comprometendo diretamente a ex-titular do posto, Erenice Guerra e familiares próximos, com empresários distantes do poder, mas que dele desejavam se aproximar e participar de nebulosos negócios.

Se existe outra vida e dela os que lá se encontram têm comunicação com a existência terrena, Carlos Lacerda há de estar perplexo. Imaginem os leitores fosse ele vivo hoje. O que ele denunciou ontem não é nada perto do que se passa agora. Lendo-se no fim da semana a reportagem de Diogo Ecosteguy e Otávio Cabral, na Veja que está nas bancas e a matéria assinada por Fernanda Odila, Andreza Matais, Fábio Amato e Rubens Valente, Folha de São Paulo também de sábado, é que é possível avaliar o que se passou nos bastidores do executivo. Um verdadeiro bando de pessoas sem escrúpulos tomou de assalto diversos pontos estratégicos da Esplanada dos Ministérios e desencadeou um movimento de saques em sequência impressionante. Seus integrantes não se detinham diante de nada. Barreiras morais foram derrubadas caminho afora, limites éticos ultrapassados em alta velocidade. Sobretudo impressiona profundamente a parte da reportagem da Revista Veja assinalando como se distribuíam envelopes recheados de propinas no próprio Palácio do Planalto.

Como Vargas ontem dissolveu a guarda pessoa, Lula da Silva hoje viu-se obrigado a varrer a Casa Civil, antes que os escândalos em bloco pudessem desabar sobre a candidatura Dilma Rousseff. Erenice Guerra e o grupo que montou podiam ser incluídos na lista de amigos e detentores da confiança do presidente? Nada disso. Eram efetivamente inimigos disfarçados pois traíram de forma explícita e aparente a confiança que receberam. Drama muito ruim para Dilma Rousseff. Tanto na reta final da campanha, mas sobretudo quando assumir a presidência em Janeiro. Ela não percebeu a atuação de sua secretária executiva e sucessora na Casa Civil? Se não percebeu, é um mau sinal em relação ao que será o seu futuro mandato. Vamos ver.

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