De vidraa a pedra

Carlos Chagas

Virou moda, de uns dias para c, atribuir a Acio Neves a culpa pelos ndices de preferncia de Jos Serra estarem abaixo dos nmeros de Dilma Rousseff. Queixas sucedem-se no ninho dos tucanos, como se o ex-governador de Minas fosse o responsvel pela ascenso da candidata nas pesquisas.

Pode ser at verdade que, se Acio tivesse sido o candidato a vice na chapa de Serra, seriam outros os resultados das consultas populares. Mas ele no quis, prerrogativa ligada tanto sucesso em Minas, pela necessidade de ajudar Alberto Anastasia, quando pela estratgia futura. Caso o ex-governador de So Paulo viesse a perder as eleies com ele de vice, Acio ficaria pendurado no pincel, sem escada, perdendo as chances de tornar-se o prncipe herdeiro da social-democracia. E diante da derrota na tentativa de reeleio do atual governador mineiro, hiptese por enquanto provvel, o neto do dr. Tancredo estar preservado, com a vitria garantida para o Senado. Se errou mais do que acertou ao rejeitar a vice de Serra, ou, ao contrrio, preservou-se, s as urnas revelaro, mas o que no d para assistir o PSDB nacional jogando pedras em Acio Neves. Ele poder muito bem virar o jogo e deixar de ser vidraa, caso se mantenha como a maior figura mineira da atualidade, opo bvia para as eleies de 2014.

O singular nessa histria que at o adversrio, Helio Costa, meteu sua colher na panela, censurando Acio por no haver deixado o PSDB e ingressado no PMDB, quando poderia ter-se tornado candidato presidencial do prprio Lula. Trata-se de um raciocnio distorcido. Primeiro porque ningum garantiria o apoio do presidente da Repblica, depois porque o PMDB mestre em tirar o tapete de seus prprios filhos. Que o diga o ex-governador Roberto Requio.

Em suma, Acio Neves escolheu seu prprio caminho, preferindo o certo pelo duvidoso, mesmo se no conseguir eleger Anastasia. Logo chegar a hora de devolver as pedras recebidas, em especial sobre quantos tm telhado de vidro.

Dia de chegar em casa

A sucesso presidencial no permitir, mas, por cautela, os candidatos deveriam ficar em casa, hoje. Uma sexta-feira, 13, em agosto, no data que se ignore. Mesmo estando a astrologia fora de moda, seria sempre bom tomar cuidado. Afinal, ningum pode escorregar, na corrida pelo palcio do Planalto. Jos Serra faz dias que no divulga mais sua agenda, dizem que para evitar movimentaes de seus adversrios. Dilma Rousseff tem dedicado uns dias, poucos, a permanecer reunida com assessores, sem eventos pblicos, e hoje poderia ser um deles. Marina Silva parece que visitar o Acre, seu estado natal, onde sempre poder abrigar-se sombra da floresta. S quem pode dar de ombros para a data Plnio de Arruda Sampaio. Tanto como comunista quanto como catlico praticante, porque nem a Igreja nem a extinta Unio Sovitica davam bola para supersties.

As verdadeiras estrelas

medida em que o tempo passa e as eleies se sucedem, mais aumenta a praga em parte responsvel pelo descrdito do jornalismo. Porque deveriam os profissionais da arte de informar ter presente que em qualquer tipo de entrevista, a estrela o entrevistado. ele que devemos estimular e at provocar para que fale, exponha-se ou se enrole. Jamais o entrevistador deve julgar-se o centro da entrevista, procurando minutos de fama ilusria no quintal dos outros.

O que cada vez mais assistimos jornalistas discursando e dando opinies, em vez de perguntar. Alm de se dedicarem mal-educada prtica de interromper respostas quando ainda incompletas. Pensam que o povo bobo, que no percebe a distoro. Ledo engano. Basta atentar para os ndices de audincia das entrevistas, cada vez mais baixos.

O n da segurana pblica

Anuncia-se para as prximas horas a divulgao, por Jos Serra, de seus planos para desatar o n da segurana pblica, ou seja, de que maneira enfrentar a insegurana que faz do cidado comum um prisioneiro em sua prpria casa ou uma vitima certa de ser atingida na primeira esquina. Envolver o governo federal na questo hoje em mos dos governos estaduais e municipais pode ser um bom comeo, at mesmo com a criao do ministrio da Segurana Pblica. S que no basta a injeo de recursos federais nas precrias estruturas policiais de estados e municpios. Torna-se necessrio reformular as leis penais, acabar com a farra dos benefcios para bandidos que pouco tempo depois de condenados esto nas ruas praticando os mesmos crimes. Atacar as causas, em vez de ficar combatendo apenas os efeitos, outra estratgia imprescindvel. A par com a represso, preciso a preveno, voltada especialmente para a juventude. Alm do emprego bvio das foras armadas, pelo menos na vigilncia permanente das fronteiras e no enfrentamento do contrabando de drogas e armas. E quanta coisa a mais?

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