Debate de 89: nem Boni, nem Collor, e sim sua edição pela Globo

Pedro do Coutto

Numa entrevista sábado, 26, à Globo News, o ex-superintendente geral da Rede Globo, José Bonifácio Sobrinho (o Boni) afirmou ter transferido no segundo debate da sucessão de 89, entre Collor e Lula, ajudando o perfil do primeiro e atuando para armar a farsa das pastas a seu lado como se contivessem fatos capazes de abalar ainda mais o candidato do PT. Isso porque ele entrou no confronto decisivo abalado pelo papel de Miriam Cordeiro, representação paga pelo PRN, partido do atual senador por Alagoas. Lula havia vencido disparado o primeiro combate, tanto assim que subiu no IBOPE e quase encostou em Fernando Collor. Passou a crescer na reta de chegada e, na minha opinião, iria ultrapassá-lo. Mas havia uma Miriam Cordeiro no caminho.

A Folha de São Paulo de terça-feira 29, excelente texto de Nelson Sá, focaliza a entrevista à Globo News e vai ao passado, antes ouvindo o diretor da Central Globo de Jornalista, Ali Kamel. Este acentuou que o episódio já fora tornado público no livro de Mario Sérgio Conti sobre a forte atuação de Boni na Vênus Platinada. E acrescentou que Roberto Marinho havia pedido ao Boni uma análise sobre o primeiro debate. Assinala, portanto, que Roberto Marinho não mandou Bonifácio Sobrinho refazer o perfil de Collor para o segundo confronto. Tudo perfeito. Bom e oportuno o relato de Ali Kamel.

Mas não é esta a questão essencial. A questão essencial – para citar Shakespeare – não está no debate e sim na sua reedição resumida no dia seguinte por Alberico Souza Cruz, vice diretor de Armando Nogueira no Jornalismo, mas, pelo que aconteceu, já o estava ultrapassado. Não há dúvida que Lula, transtornado pelo desempenho de Miriam Cordeiro, perdeu o confronto final. Além do mais, em vez de se concentrar para o debate dirigido por Marília Gabriela, sede da antiga Rede manchete, chegou ao Rio vindo de campanha eleitoral de rua em Belém do Pará. Vejam só o absurdo. No dia do lance decisivo para o rumo das urnas, tendo o Brasil diante de si como cenário, Lula se cansa no norte do país, disputando votos nas ruas de Belém.

Levanto agora a suspeita de ter sido traído por algum setor responsável por sua programação. Mas este é outro caso. Incorpora-se à memória analítica que todos nós, jornalistas, devemos cultivar e praticar, até pelo exercício da inteligência do prazer da redescoberta. Aliás, não só os jornalistas, mas todas as pessoas de percepção quando visitam o passado.

Voltemos ao tema debate. Derrotado, Lula perdeu o ímpeto, teve sua arrancada final freada. Era o fim de sua candidatura à presidência? Ainda não. Alberico de Souza Cruz, amigo de Collor, não sei se com autorização de Roberto Marinho, mas com pelo menos a concordância silenciosa e tácita de Boni, propôs que o debate da noite na véspera, fosse reeditado com cortes.

Alberico, protegido também pela omissão de Armando Nogueira, levou o programa de sua autoria ao ar durante uma hora. Os cortes aplicados à versão original ampliaram mais a derrota de Lula, pois representava os melhores momentos de Collor e os piores de Lula. Os eleitores de Luis Inácio entraram em pânico. Os militantes do PT e do PDT de Brizola, que havia perdido por um ponto para Lula no primeiro turno, mas que o apoiou no segundo, foram às ruas com suas bandeiras e sua disposição. Porém o resultado do debate, e depois a gravação dirigida por Souza Cruz, lançaram um jato de água fria no seu entusiasmo. Não conseguiu apagá-lo, mas diminuiu substancialmente o calor da chama reformista. Os conservadores, tinha-se certeza, haviam vencido mais uma eleição na história do Brasil.

Acompanhei a computação, estado por estado, região por região, comentando para a Rádio Jornal do Brasil e para a Rede Manchete. O IBOPE apontara uma diferença de 4%. Acertou em cheio. Esses 4% Collor deve a Miriam Cordeiro e a Alberico Souza Cruz. Esta é a verdade.

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