Deborah Colker, Clara e Theo

Jorge Béja

Aqui me sentei, cedinho, para enviar esta mensagem a vocês, nesta quarta-feira, 21 de Agosto de 2013. Passei a noite em claro. A justa ira, justa indignação e justa vontade de bater forte me tiraram o sono. Conheço a mim mesmo. Se estivesse a bordo daquele avião, brigaria. E brigaria muito.

Teria dito àquele aviador que ele é um monstro, sem a mínima condição de conduzir a si próprio, menos ainda uma aeronave. Que sua autoridade é nenhuma. E quando alguma, ela é limitada e transitória, a partir da decolagem até o pouso. Não, mais. E autoridade para ser exercida sem dela abusar, sem dela ofender, sem dela constranger.

Que seu gesto, brutal e boçal, ignorou o natural, fundamental e incontornável dever de urbanidade que cada pessoa humana tem a obrigação de dispensar à outra. Que ele agrediu. E agrediu muito, a avó, a mãe, a criança, os passageiros, a todos nós, que estávamos dentro e fora do avião. Agrediu a humanidade. Cuspiu em vários artigos do Estatuto da Criança e do Adolescente. Escarrou escarro podre, fétido e contagioso, no artigo 18 (para citar apenas um) que diz ser dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.

Desde dezembro de 1912  a lei brasileira determina que o transportador é obrigado a conduzir o passageiro incólume, do embarque ao desembarque final. Que o menor dano que o passageiro sofrer durante o percurso deve ser amplamente reparado. Todos vocês, Deborah, Clara e Theo, sofreram desmedido dano moral decorrente da pesada ofensa aos seus direitos, individuais e familares. As marcas e consequências são indeléveis. Não apagarão jamais.

Peço que vocês não se calem. Que questionem e interpelem o governo brasileiro, poder concedente, e a quem incumbe fiscalizar e manter sob seu controle a atuação de suas concessionárias. Recorram à Justiça, contra a empresa aérea, com pedido de ampla reparação financeira do dano moral que Theo e todos os seus familiares sofreram e sofrem.

Desde a Constituição Federal de 1988 a reparabilidade do dano moral passou a constar inscrita na Carta Magna. E que o Judiciário não venha fixar valor irrisório, o que representaria outro dano a todos vocês. Que a quantia seja realmente expressiva, para que a empresa aérea entenda ser mais proveitoso gastar com a boa seleção e preparação de seus funcionários do que gastar com a reparação dos danos que eles causaram.

Não estivesse eu já aposentado e não mais exercendo a advocacia, me incluiria no rol dos advogados que aceitariam o patrocínio de tão nobre e justa demanda. Mas não posso. Das quase três mil que defendi, em 43 anos de advocacia no Rio de Janeiro, sempre em busca da reparação do dano a vitimados, restei, perto dos 70 anos de idade, impregnado da mesma e intensa dor que vi minha clientela amiga sentir. E chegou o tempo de me tratar.  Mas expresso toda a minha solidariedade. Reajam, agora nos tribunais.

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12 thoughts on “Deborah Colker, Clara e Theo

  1. Onde o comandante errou ?
    A passageira tinha laudo médico atestando que a doença não é contagiosa ? Se tinha e apresentou, o comandante errou feio.
    Se a passageira não apresentou laudo é provavel que o erro da tripulação tenha sido somente na condução do imbroglio.

  2. Dorothy – a passageira e avó de Theo é pessoa sensata, uma artista de renome internacional e sabe que a doença congênita do neto não é contagiosa. Sua palavra é mais do que suficiente. Déborah Colker jamais iria ingressar no avião com neto a ponto de colocar em risco a saúde dos demais passageiros. Ou será que o futuro desta criança,de seus pais e avós,vai obrigar que eles sempre levem um salvo-conduto médico para poder sair de casa,viajar e ir a qualquer lugar que queiram?
    JORGE BÉJA

    • JORGE BÉJA – Todas as pessoas são sensatas, até prova em contrário, inclusive o comandante da aeronave. Em um caso desse somente a palavra não é suficiente e é por esse motivo que existem LAUDOS MÉDICOS. A meu ver é necessário apresentar laudo médico sempre que um passageiro, qualquer que seja, portador de alguma doença ( de pele como no caso), contagiosa ou não, adentrar um avião comercial para realizar viagem junto a outras tantas pessoas. Se houve erro do comandante é provavel que tenha sido na condução do imbroglio.

  3. Dorothy, serei breve, concordo com você e, proponho que na formação de
    pilotos e tripulação em geral, seja incluido no curricilo o curso de medicina.

    • Isso mesmo lafer. O comandante somente fez valer a regra. E a regra tem que valer inclusive para “famosos”. É assim no mundo inteiro em qualquer viagem em avião comercial.

  4. A liberdade de expressão, de manifestação, de crítica, de comentar, de expor idéias e tantas outras, quando elevadas e nobre, são legítimas. Deixa de ser quando se debocha, mais ainda de uma situação que envolveu uma criança. E criança portadora de doença que merece todas as nossas atenções, muito amor e todo o carinho. É porque isso não aconteceu com o filho, neto, ou bisneto do comentarista que sugere façam os pilotos e as tripulações curso de medicina. É preciso ter todo o cuidado com o que se diz e se escreve. Além de ferir e maltratar ainda mais o sentimento do próximo, pode custar caro ao bolso, ou à conta bancária.Não adiante voltar atrás. Está escrito.
    JORGE BÉJA

  5. De acordo com a imprensa, foi necessária a presença de um médico do aeroporto para atestar que a enfermidade não era contagiosa.

    Ou seja, dentro daquela aeronave não havia ninguém capaz de tecer uma hipótese diagnóstica ao caso clínico, tampouco os responsáveis pela criança possuíam um atestado médico.

    Sendo assim, a decisão do comandante em manter a aeronave no solo foi correta. Mas pelo jeito a tripulação não soube conduzir o estresse gerado com atitudes corretas e cordiais.

    Foi um caso desagradável, é claro. Mas só se tornou notícia por envolver pessoa famosa.

    Apesar de tudo, tal confusão não deve servir de bandeira para acharmos que devemos judicializar tudo, imitando aos americanos, que levam tudo aos tribunais. Até porque o judiciário brasileiro já está imensamente sobrecarregado, e sua morosidade deve bater recordes mundiais atualmente.

    Todos os envolvidos, se quiserem, poderão superar o ocorrido, amigavelmente.

    Depois então a companhia aérea passará a treinar melhor sua equipe para situações semelhantes. E os pais da criança passarão a portar necessários atestados médicos, sempre que precisarem viajar.

    PS: Quem viaja do Rio para Manaus, por exemplo, sabe que precisará levar seu cartão de vacinação contra a febre amarela. Numa eventual fiscalização, o passageiro não chegará ao destino, caso esteja sem tal documento. E ninguém obviamente briga na justiça por isso.

  6. Para mim, a Débora sempre que viajar deve levar atestado médico informando que a doença da criança não é contagiosa. Aliás, em qualquer situação, se alguém olhar para aquelas feridas a primeira coisa a ser pensada é em contágio. Já tive fogo selvagem e sei como é. A aparência é repugmante.

  7. A atitude do comissário pode ser questionável quanto à forma de abordagem, mas ele tem que zelar por todos os passageiros. Fica uma pergunta? Por que nao anda com o atestado, na aeronave, provando por a+b, que é uma doença rara e nao é contagiosa. Por que que os outros sao obrigados a acreditar que apalavra de um famoso vale mais que a dos outros? Lamento pela criança, pois era fácil de evitar!

  8. Senhor Aroldo – Nem a aparência do fogo selvagem que o senhor disse ter tido, nem a aparência da doença do pequeno Theo são “repugnantes”, mas comoventes, a despertar em todos nós solidariedade, carinho,atenções especiais, compreenssão e, acima de tudo, muito e muito amor. Jamais, piedade. Jamais, repugnância.
    JORGE BÉJA

  9. Aquele avião nada mais é do que um enorme tubo metálico, com ar pressurizado, que muitas vezes voa em altitudes de cruzeiro acima dos 36 mil pés. Mesmo sendo uma aeronave moderna, a renovação de ar (por minuto) é baixa, assim como é também baixíssima a umidade relativa do ar. Portanto as chances de transmissão de doenças infecto-contagiosas são MUITO mais altas do que em ambientes ditos daqui da “terra firme”.

    A GOL usa aeronaves que levam até 180 passageiros. Portanto são muitas vidas sob sua responsabilidade, desde o momento em que embarcam, até o momento em que desembarcam dos seus aviões. E os passageiros precisam ser protegidos inclusive de contaminações.

    Há coerentes protocolos nacionais (e até internacionais) para minimizarem os riscos de transmissão de doenças infecto-contagiosas em aviões.

    No caso em questão, a tripulação não soube conduzir, de forma respeitosa, delicada e adequada, a abordagem àquela família, aonde havia a criança com enfermidade até então desconhecida dos tripulantes. Lamentável.

    Mas aparentemente Deborah Colker também agiu de forma lamentável, tentando usar de sua fama para “forçar” a decolagem, e o prosseguimento da viagem.

    Aliás os “famosos” e “importantes” – deste Brasil – historicamente costumam armar enormes escândalos, quando se sentem injustiçados. Mas se omitem tranquilamente quando as injustiças ocorrem com seus vizinhos, por exemplo, pertencentes à classe dos “anônimos”. Com exceções, é claro.

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