Declínio e queda do comunismo

Humberto Braga

Em 1945, com a União Soviética triunfante, um professor baiano, Herbert Fontes, cujo saber inexplicavelmente se confinou na província, asseverou que o regime comunista desmoronaria ainda no século XX.

Ele não se valia dos costumeiros anátemas contra o “mal” vermelho.  Seus argumentos, embora não fossem originais (Hayek já os utilizara), eram objetivos e foram de previsão certeira.

No sistema econômico soviético, frisava ele, o mercado fora substituído pela planificação central a cargo do Estado. Ela funcionou eficazmente na edificação da indústria pesada, com a gestão de um limitado numero de grandes empresas. Porém, malogrou rotundamente na produção e distribuição dos bens de consumo que, ao contrário, requerem um grande número de pequenas empresas. E esse fracasso se patenteou no declínio da eficiência tecnológica, portanto da produtividade e da qualidade dessa indústria. A economia da União Soviética servia para a guerra, não para a paz. O país lançava foguetes espaciais, mas nele escasseava até o papel higiênico. O colapso era inevitável.

A essas objeções econômicas acrescentavam-se as de cunho político. O regime soviético não era apenas uma ditadura. Ditaduras havia muitas, inclusive no Brasil. O que o distinguia, até de outros totalitarismos, era a adoção pelo Estado de uma complexa ideologia político-filosófica que se proclamava a única verdadeira e excluía toda diversidade, toda divergência no plano público do pensamento. Ela proscrevia a pluralidade intelectual, criminalizava a dissidência doutrinária e assim asfixiava o espírito crítico.

No Partido Comunista se concentrava o poder político e também a autoridade teórica. A revolução social exigia completa submissão mental. Afastar-se da ortodoxia era incorrer no pecado da heresia. Assim procedeu a Igreja Católica no passado. Mas, quando no fim da Idade Média, a Revolução Comercial transformou econômica, social e culturalmente a Europa ocidental, aquele monopolismo se quebrou.

A Reforma protestante proclamou a liberdade de interpretação dos textos sagrados e religião acabou sendo questão de consciência individual. Também o monopolismo ideológico marxista-leninista se revelou incompatível com as modernas sociedades, cuja complexidade se manifesta no pluralismo, condição decisiva de progresso. O exemplo da China não afirma esta conclusão porque ela, embora sob uma ditadura (nunca foi democrática), tem-se distanciado do modelo soviético, tanto no plano econômico quanto no doutrinário.

Enfim, cada um tem o direito de sustentar que as suas idéias são as corretas, mas ninguém tem o arbítrio de impor aos outros uma camisa de força intelectual.

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