Delúbio assumir a culpa por Dirceu? O STF pode acreditar nisso?

Pedro do Coutto

Em reportagem publicada na edição de 2 de julho, segunda-feira, O Estado de São Paulo, João Domingos e Cristiane Sanmarco, revelam que, agindo de acordo com outros acusados pelo Mensalão, Delúbio Soares aceitou assumir integralmente a culpa pelo escândalo de 2005, visando a inocentar José Dirceu. Ambos, é claro, estão tentando iludir o Supremo Tribunal federal. Tal manobra, assim, só pode piorar a situação de todos no julgamento de agosto.

Sou levado a pensar que José Dirceu é um personagem raro, um delirante da cena política. Pois como Delúbio Soares, que era apenas tesoureiro do PT, poderia exercer qualquer poder de mando? Nem ele, tampouco Genoino, ex presidente do partido que, segundo João Domingos e Cristiane Sanmarco, estaria inclinado também a ir para o sacrifício no lugar de Dirceu. Genoino disputou o governo de São Paulo, em 2002, contra Geraldo Alckmim.

Mas tal orientação (absurda) não foi tomada por unanimidade. O advogado Arnaldo Malheiros Filho, que defende Delúbio Soares, disse a O Estado de São Paulo não concordar com a estratégia. Delúbio, acentuou, não fez nada sozinho. Nem poderia. Posição semelhante à de PC Farias no governo Fernando Collor. Sem cobertura do poder, os agentes financeiros, por mais sinuosos que sejam ou fossem, não dão um passo. Tem que contar com uma cobertura pesada. Supor o contrário é desprezar a capacidade humana de pensar e chegar ao óbvio, palavra consagrada por Nelson Rodrigues.

A pergunta é muito simples: se José Dirceu não tinha nada com o Mensalão, por qual motivo o presidente Lulas o demitiu? Se nada tinha com nada, porque a Câmara dos Deputados cassou seu mandato parlamentar? O advogado de Dirceu, Oliveira Lima, sustenta o contrário: Dirceu, disse ele, não tinha a mínima ideia do que se passava.

Neste ponto, Oliveira Lima apenas transfere a confissão para outros. Pois se José Dirceu não tinha a mínima ideia do que se passava, é porque o Mensalão existia. Claro. Só se pode dizer que alguém não sabia de nada, a partir do reconhecimento da existência do fato. Caso contrário, o advogado partiria da negativa plena e total. Não assumiu tal posicionamento. Portanto, de forma tácita, reconheceu a existência de uma conjuntura ilegal. Uma coisa leva à outra. Não pode existir uma terceira interpretação.

Este é o ângulo em que Dirceu tenta colocar Delúbio, que não ocupava cargo de relevância na administração federal. E se Delúbio não pode caber no figurino surrealista, muito menos Marcos Valério, publicitário. Como, sem o poder do Palácio do Planalto, poderia ter feito os pagamentos que praticou? Como conseguiu o dinheiro para pagar 10 milhões de dólares a Duda Mendonça num paraíso fiscal fora do país?

Quem afirmou este fato ao deputado Osmar Serraglio, relator da CPI dos Correios e do Mensalão, foi o próprio Duda Mendonça. Valério e Delúbio são personagens do elenco de apoio da trama urdida que fracassou. E só poderia fracassar. O baixo nível dos atores talvez seja o instrumento principal da corrupção ganhar a imprensa e as ruas.Revoltante.

A dupla de reportagem ouviu Arnaldo Malheiros, amigo de Márcio Thomaz Bastos e defensor do ex-tesoureiro: Que Delúbio distribuiu dinheiro, distribuiu. Mas foi para pagar os gastos de partidos aliados. Tudo com o conhecimento da cúpula do PT. No mundo todo, compram-se aliados de forma diferente, oferecendo-lhes cargos e não dinheiro. Francamente, na minha opinião, basta este texto para o Supremo basear o julgamento que se aproxima. Nem mais, nem menos. É suficiente.

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