Demanda por esperança

Murilo Rocha

Ainda é difícil compreender o movimento social em andamento em todo o Brasil, mas, certamente, é equivocado tentar desqualificá-lo pela ausência de bandeiras definidas ou pela comparação com outros atos políticos na história do país – luta contra a ditadura, Diretas Já, Fora Collor. O mérito de agora talvez seja justamente emergir após anos de um processo massificador de despolitização em todos os níveis. É mais natural mobilizar-se quando há polarização entre duas forças bem-delineadas, quando há um inimigo definido e alternativas para um modelo de vida melhor. E isso foi colocado fora do desejo de toda uma geração. Acreditar em mudanças estava até ontem fora de moda.
Por isso, é contraditório e conservador exigir um caráter revolucionário, programático e organizado por parte dos manifestantes. A ideologia dos tempos atuais sempre vendeu – e ainda vende – a tese da liberdade individual como liberdade de consumo, do anacronismo das ideologias, do fim da história.
Quem agora protesta nasceu em uma época sem esperança, sem horizonte. E talvez seja essa angústia, esse vazio, o motor de tanta insatisfação atirada para todos os lados.Só dentro desse contexto, incluindo ainda a falência da representação política partidária e institucional, é possível tentar analisar essa onda disforme e heterogênea.
Apenas algumas certezas estão consolidadas, por exemplo, a força inédita no Brasil das redes sociais para divulgar e conectar movimentos sociais. Também é evidente a enorme demanda da população mais jovem pelo protagonismo na vida política e também na reocupação das cidades de forma menos desigual e mais humana. O pano de fundo atual é a falência das políticas públicas promovidas no país nos últimos 30 anos.
O legado deixado pelas ruas em menos de duas semanas de protesto é a vontade de politizar-se, de ocupar as ruas da cidade com mais pessoas e menos carros, mais aparelhos públicos e menos condomínios fechados, mais acesso à educação e à saúde e menos concreto e estatísticas. Na onda dessa nova juventude, professores da rede pública, médicos do SUS e outros integrantes de movimentos sempre presentes nas ruas respiram aliviados, pois não poderão mais ser chamados de “baderneiros”.
A presença de milhares de pessoas nas ruas é muito positiva mesmo não estando todos remando para o mesmo lado nem pelas mesmas causas. Deixemos de lado a tentação de querer deslegitimar o “vem pra rua” pelos quebra-quebras ou por ações contraditórias, como ativistas saudando a polícia. Daqui a pouco, haverá uma separação natural, um arrefecimento de forças, mas o processo de politização já foi semeado em grande parte desses manifestantes. (transcrito do jornal O Tempo)
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4 thoughts on “Demanda por esperança

  1. Bom texto!

    Acredito que essa politização é um processo sem retorno e dará frutos, muitos frutos. Se não agora, um pouco mais tarde. Mas, chegaremos a ver as mudanças provocadas por essa politização da população em geral.

    E isso é magnífico.

  2. Hélio,

    Quém vai investigar a procuradora esposa do Dr. Gurgel, acusada de receber R$280.000,00 de Daniel Dantas. A acusação foi feita por nada menos que o deputado e ex-delegado da polícia federal Dr. Protógenes Queiroz.

    Quem pode investigar essa acusação. O próprio marido? Ou outro procurador amigo? Qem está a cima deles?

    Como a sociedade fica sabendo, se foi ou será aberto processo investigatório? Ou tudo isso é brincadeira?

    Joaquim Barbosa já tinha avisado que o povo não aguenta mais tanta corrupção. Basta verificar quando ele chama a atenção de Lewandoswiski no julgamento do mensalão.

  3. Seu artigo reflete exatamente o que acontece em nossa sociedade atual. E me pergunto: onde estão aqueles pensadores que ajudaram na construção do PT e que por não coadunarem com a corrupção, foram expulsos ou renunciaram seus cargos? Precisamos destas pessoas para somarmos forças.

  4. Caro colunista, já passei dos sessenta e testemunhei que as manifestações no Brasil sempre foram feitas em grandes centros. O Rio de Janeiro e São Paulo sempre foram pólos desses movimentos. Surprendeu-me que desta vez as manifestações se deram em muitas cidades do interior do Brasil. Que bom.

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