Demóstenes não vai sozinho

Carlos Chagas

A degola do senador Demóstenes Torres, marcada para quarta-feira, traz embutida uma pergunta genérica ao Congresso: “E os outros?”

Os outros, no caso, evitando-se o constrangimento de citações nominais, são deputados e senadores reconhecidamente integrantes de esquemas vinculados a empreiteiras, bancos e grupos econômicos. Podem ser identificados em cada votação na Câmara e no Senado, nos plenários e nas comissões, sempre que se encontram em jogo interesses de corporações diversas. Porque muitos deputados e senadores identificam-se ou fazem parte de grupos empenhados em tirar proveito de ações legislativas e de facilidades na administração pública.

Demóstenes não fez mais do que muitos de seus colegas fazem. Arrebentou-se por haver servido a um contraventor notoriamente conhecido num universo onde os comandantes espertos ficam abrigados, longe dos holofotes da mídia. Como o representante de Goiás, quantos mais dedicam-se às mesmas práticas, muitos até com maior capacidade de influenciar os desvãos do poder?

A cassação do senador será capaz de desencadear um processo de purificação da atividade parlamentar que as urnas, reconhecidamente, não conseguem. A experiência tem demonstrado que nunca vem isolados esses surtos de moralidade. Em especial no tempo em que se alargaram os limites da Polícia Federal e do Ministério Público. Resta aguardar.

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OPORTUNIDADE EM ABERTO

Perdida, propriamente, não está a oportunidade de o Brasil realizar a obra do século, mas que ela anda devagar, quase parando, não se duvida. Fala-se do desvio das águas do rio São Francisco para o extremo Nordeste, empreitada capaz de atrair as atenções do mundo mas hoje meio abandonada.

No tempo dos faraós, o Egito abriu um canal ligando o rio Nilo ao Mar Vermelho, rasgando o deserto. Infelizmente, a areia retomou sua propriedade.

A China da dinastia Ming levou as águas do Yang-Tsé a Pequim em mais de um canal. Os franceses puderam sair de Paris e chegar ao Mediterrâneo pelo mesmo processo. O Panamá e Suez são dois exemplos que deram certo. Por que não conseguiríamos façanha parecida? Não se trata de jogar a responsabilidade inteira nos ombros da presidente Dilma, ainda que a ela caiba mobilizar outra vez o entusiasmo nacional.

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A SEGUNDA METADE

Iniciadas as campanhas eleitorais em julho, em agosto chega a propaganda eleitoral gratuita pelo rádio e a televisão, ocupando setembro. As eleições de outubro, mesmo municipais, fornecerão novas cores partidárias, ainda que se ignore quais. Novembro e dezembro, assim, será tempo de meditação a respeito da segunda metade do governo Dilma. Apesar das sucessivas mudanças no ministério, verificadas nos primeiros dois anos, imagina-se que a presidente promova a reforma ampla que não conseguiu realizar. Os partidos devem esforçar-se agora, se querem colher depois.

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