Demóstenes Torres afundou-se entre Volpone e Tartufo

Pedro do Coutto

Reportagem de Jailton de Carvalho, O Globo de sexta-feira, reproduzindo diálogos entre o senador Demóstenes Torres e Carlos Cachoeira, é totalmente arrasadora para o parlamentar, que viajou pela estrada que une Volpone a Tartufo e chegou a 2012, século 21, apresentando-se como defensor da honestidade, do respeito às leis e ao interesse e patrimônio público. Não era nada disso.

A reportagem foi manchete principal da edição de 30 de março que, aliás, não poderia ser outra.As fotos que acompanham a matéria são de Ailton de Freitas. Incrível o comportamento de Demóstenes. E olha que Cachoeira tinha antecedente. Seu filme focalizando Valdomiro Diniz derrubou o subchefe da Casa Civil, então ocupada por José Dirceu. Valdomiro Diniz desceu a um subterrâneo da ilegalidade para receber compensação pelo que fazia.

Torres desceu ainda mais. Quase se transforma em novo Doutor Fausto, de Goethe. Mas citei que ele próprio se afundou num roteiro que, através dos séculos, une Volpone a Tartufo.A peça de Volpone foi escrita em 1606, pelo inglês Ben Jonson, contemporâneo de Shakespeare. Tartufo é de 1664, portanto 58 anos depois.

Demóstenes Torres, que da boca para fora pregava a honestidade, mas nas ações substantivas enveredava pelo plano da desonestidade, encaixa bem no personagem imortal de Molière. Tartufo é uma comédia satírica e dramática ao mesmo tempo. Com artifícios em série consegue ter colocada em seu nome a mansão de um poderoso da época. Termina tentando expulsar o doador que tanto o beneficiou. Mas o impostor termina mal. É uma história do traidor traído por si mesmo.

O enredo não é muito diferente de Volpone, a raposa na tradução. Na obra de Ben Jonson os personagens têm nomes de animais. A peça, da mesma forma que Tartufo, atravessou os séculos com várias interpretações. No final da década de 40 foi parar no cinema, com Harry Baur e o grande Louis Jouvet nos papeis principais. Filme francês dirigido por Michel Tourneur. Excelente. Assisti essa obra em 1949 no Cinema Rox. Sátira profunda do comportamento humano, creio que o filme esteja atual. Até porque o tema é imortal.

Nesta altura dos acontecimentos, percebo com maior nitidez, agora, que o roubo e a ingratidão são impulsos fortíssimos. Estão no mesmo nível do sexo. Marx e Freud explicam. Demóstenes Torres é mais um hipócrita num elenco cada vez mais numeroso. O dos desonestos também. E dos aproveitadores, que, por prudência própria, tentam encobrir até simples avaliações.

Relativamente a este ponto, vejam os leitores o que aconteceu com a vereadora Teresa Bergher na Câmara Municipal do Rio. Presidente da Comissão de Ética, ela defendeu publicamente e apresentou oficialmente projeto para que os contratos que a empresa Locanty possui com o Palácio Pedro Ernesto sejam avaliados, pois surgiram sombras em torno de pagamento em dobro por um trabalho de limpeza realizado. Não acusou ninguém.

Mas a iniciativa foi suficiente para que um grupo de vereadores, tendo à frente Aloisio Freitas, como O Globo publicou a 30 de março, iniciasse movimento para derrubá-la do posto. Um absurdo. Pois se contratos da Locanty com o governo Sérgio Cabral no montante de 283 milhões de reais, de 2008 a 2012, estão sendo avaliados, por que não podem ser os da Câmara de Vereadores com a mesma empresa? Não faz sentido.

No mesmo período, contratos da Locanty com a administração Eduardo Paes somaram 62 milhões. Pode haver algo estranho em tudo isso. Pedir explicação e avaliação afinal de contas, não deve ofender ninguém.

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