Denúncias contra corrupção saem do próprio Palácio do Planalto

Pedro do Coutto

O ministro Carlos Lupi – escrevo este artigo na terça-feira 8 – sem dúvida está fora do Ministério do Trabalho. A reportagem de Chico de Gois, Luiza Damé e Gerson Camaroti, com fotos marcantes de Gustavo Miranda, é arrasadora. A Comissão de Ética do governo, por unanimidade, cobrou explicações públicas do quase ex-titular da pasta, a mesma iniciativa foi divulgada pelo ministro Gilberto Carvalho, Secretário Geral da Presidência.

O Tribunal de Contas da União, e até parlamentares do PDT, com Miro Teixeira à frente, fizeram o mesmo. O TCU, como também foi publicado na imprensa, apontou a existência de 500 convênios com ONGS contendo irregularidades de várias espécies. Uma dessas estranhas Organizações Não Governamentais recebeu 11,2 milhões de reais para realizar cursos de capacitação profissional. Botou o dinheiro no bolso e nada fez. Não foi a única. São cinco centenas na mesma situação.

O Ministério do Trabalho não fiscalizava e não cobrava serviço algum. Tornou-se assim uma máquina de falsificar pagamentos. O chefe do gabinete,
antes do escândalo em série explodir nas páginas da Revista Veja, que circulou na tarde de sábado, já fora afastado do cargo. Mas o acusado não é apenas ele. Há diversos outros personagens. A corrupção exige parcerias. E, se não conivência, pelo menos omissão, leniência.

Não posso afirmar que Carlos Lupi seja ladrão. Tampouco devo acentuar que sua omissão tenha sido proposital. Prefiro acreditar que decorreu de insensibilidade para com os fatos e incapacidade para o posto. Não poderia, isso sim, ocupar um ministério. Talvez tenha se deixado influenciar pelos amigos do poder que sempre aparecem nas horas favoráveis e desaparecem nos momentos difíceis.

O exercício de cargos importantes é um perigo permanente. Os bajuladores são só elogios, prestativos ao extremo (só na aparência), prontos a acompanhar o poderoso em qualquer viagem, sem vacilar. O perigo mora ao lado, para adaptar o caso em tela ao filme famoso de Billy Wilder, com Marylin Monroe. Mas esta é outra questão.

O essencial é que Carlos Lupi vai se tornar o sexto ministro de Dilma Roussef afastado em consequência de corrupção, tenha ele participado diretamente dela ou não. Os fatos são fortíssimos e não adianta brigar com os fatos.

Mas eu, no título, sustentei que as denúncias contra a corrupção saem do próprio Palácio do Planalto. Acho que estou certo. Vejam só. Antonio Palocci, derrubado a partir de uma denúncia da Folha de São Paulo. Alfredo Nascimento, a partir de acusação na Veja. O mesmo ocorreu com Wagner Rossi. Pedro Novais pela Folha de São Paulo, Orlando Silva alvejado pela Veja, tarde de sábado. O mesmo se repetiu com Carlos Lupi.

Se, como disse o saudoso Hélio Silva, a história não espera o amanhecer, o travelling das denúncias não aguarda o alvorecer dos domingos. Ao contrário. Surge no crepúsculo dos sábados. De onde partem as acusações? Da Polícia Federal e do Ministério Público. A Polícia Federal encontra-se subordinada ao ministro da Justiça, Eduardo Cardoso.

Não é possível que a PF, ao desenvolver as investigações, não tenha fornecido os resultados ao titular da pasta e à presidência da República. Seria inclusive uma insubordinação, uma agressão oculta por uma elipse. Não tem cabimento pensar-se em tal hipótese. Partindo-se então da certeza de que Eduardo Cardoso, Gilberto Carvalho e Dilma Roussef soubessem de tudo,conclui-se facilmente que a presidente da República não aceita conviver com a corrupção e com os corruptos ou omissos. Tanto não convive bem que, através da imprensa, os denuncia à opinião pública e, em seguida, os demite. A fonte das acusações, a meu ver, é o Palácio do Planalto.
Agora, acusar criminalmente os desonestos e exigir a devolução do produto do roubo é tarefa do Ministério Público Federal. A cargo do Procurador Roberto Gurgel, chefe do MP. Ele não é Procurador Geral do governo. Representa a sociedade. Não deve se omitir.

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