Depois da briga com Carluxo, ex-marqueteiro de Bolsonaro escreve sobre robôs eleitorais

Equipe de transição de Bolsonaro tem primeira baixa - Jornal O Globo

Carvalho explica como funcionam os chamados robôs eleitorais

Deu em O Globo

O empresário Marcos Aurélio Carvalho, um dos donos da AM4, foi peça-chave na campanha presidencial de Jair Bolsonaro em 2018. No fim daquele ano, contudo, deixou a equipe de transição de Bolsonaro após o vereador Carlos se incomodar com uma entrevista que deu a O Globo. Depois de meses em silêncio, Carvalho aceitou escrever um artigo para o seção Sonar de O Globo, sobre internet e política. Leia abaixo o artigo do ex-marqueteiro que ajudou Bolsonaro a virar presidente:

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O PARTIDO DOS ROBÔS SEM VOTO
Marcos Aurélio Carvalho

Ademocracia moderna foi atravessada por um desafio inimaginável até pouco tempo: a ocupação da pólis por seres irreais. Quem são esses usuários que diariamente emplacam temáticas políticas nos trending topics do twitter, com uma capacidade quase imediata de mobilização em torno de hashtags perfeitamente bem combinadas, perfeitas até demais para serem verdade?

Há uma falha no teste do pato. “Se ele parece com um pato, nada como um pato e grasna como um pato, então provavelmente é um pato” – diz o ditado. E o usuário que se parece com eleitor, reclama como eleitor, apoia como eleitor, mas usa hashtags milagrosamente lançadas, em questão de minutos, aos assuntos mais comentados do momento? É robô.

TUDO VIRA HASHTAG – Tudo que acontece de mais relevante na política nacional vira uma hashtag, ou mais provavelmente duas: uma de apoiadores e outra de detratores. Inicia-se, então, a batalha digital do dia.

Existem, porém, as batalhas reais e as batalhas que nascem forjadas e se tornam reais. As primeiras não deixam de interessar à análise do cenário dicotômico, mas as segundas merecem especial atenção crítica.

Robô não vota. Então por que importa tanto o tumulto que ele faz? Porque a movimentação de usuários irreais tem o condão de pautar o debate. A aparência de que um assunto está sendo comentado faz com que ele passe a ser comentado de fato. Está feito o sequestro da pauta política de um país.

CRIA-SE UMA BOLHA – A movimentação de uma expressiva quantidade de usuários falsos tem a perigosa capacidade de criar uma bolha inflacionária política ou eleitoral. O que significa isso? Que ela traz uma falsa robustez a uma ideia, a uma pessoa ou a uma causa. Esse conjunto de robôs desprovidos de título de eleitor cria uma “bolha” de apoiadores – frágil, posto que mentirosa. Mas a demonstração da ampla adesão à ideia chama mais gente, desta vez pessoas reais.

É uma bolha inflacionária política e eleitoral, na medida em que carrega uma pessoa nos ombros invisíveis de celulares conectados a contas falsas e entrega a ombros verdadeiros de quem sentiu que estava aderindo a um forte movimento, “que subitamente eclodiu”.

Então, pouquíssimo importa que robô não vota, não comparece a manifestação, não bate panela na janela, desde que ele consiga fazer pessoas reais, capazes de tudo isso, aderirem ao movimento.

EM BUSCA DO FALSO – Não pode ser subestimada a grande susceptibilidade de uma pessoa real se juntar a um movimento de origem falsa. As pessoas entram diariamente nas redes sociais em busca de um tema para comentar. Não é mais só uma questão de programação comportamental, é também uma questão de pertencimento. Se uma hashtag entra para os trending topics, para muitos isso significa quase automaticamente que o assunto em torno dela merece um comentário ou uma ação.

Muita ficção científica foi produzida no passado, especulando sobre robôs usurpando empregos e até postos de comando humanos; mas pouco se imaginou sobre robôs usurpando o debate público humano, o debate sobre a própria forma de uma sociedade humana se organizar e se deixar liderar.

Qual é o grande mal disso? Justamente pela fugacidade do “assunto do momento”, a batalha política passou a ser diária, pontual e pormenorizada.

SEM IDEIAS E PROJETOS – Houve um claro esvaziamento da política de identificação de ideias e propostas, em favor da política de identificação de posturas e falas, cotidianamente. É um rumo perigoso para se tomar: o debate político deixar de ser sobre ideias e passar a ser sobre circunstâncias. A transitoriedade do apoio gera graves crise de representatividade e de capacidade de se liderar, pelo prazo necessário para fazer qualquer diferença.

Se esses fatos estão postos e estamos falando de uma realidade enquanto ela acontece (vide batalha de hashtags do dia), o que se há de fazer? Muito se debate, acertadamente, sobre regulação, investigação e inibição da presença digital fake. Mas conhecem-se os desafios de se controlar algo que é pouco rastreável, que desconhece fronteiras territoriais e faz-se esbarrar em alcances jurisdicionais.

Sem dúvidas, a melhor forma de encarar é escancarar.

É PRECISO CONTROLE – Não se questiona a importância de a comunidade digital global continuamente trabalhar para evoluir em segurança, rastreabilidade e confiança; e de as comunidades jurídicas amadurecerem os debates sobre controle, responsabilização e desmobilização. Mas a contribuição mais eficaz e imediata virá – e já tem vindo – das iniciativas de jogar luz sobre as trevas da mobilização robotizada em torno de pautas políticas.

Não tem fidelidade partidária no Partido dos Robôs sem Voto. É preciso apostar alto na “trollagem” contra os robôs. Isso significa expor suas contradições, suas obviedades, suas falhas, seus movimentos e suas inconsistências. Talvez seja essa uma boa releitura moderna do enigma da esfinge. Precisamos decifrar as redes a serviço do fake, sob pena de vermos devorado o debate público tal como se conhece. Nas urnas: um homem, um voto. Nas redes: um homem, um post.

14 thoughts on “Depois da briga com Carluxo, ex-marqueteiro de Bolsonaro escreve sobre robôs eleitorais

  1. “A felicidade é uma questão de escolha.Vamos ser felizes.” Basta de 171, charlatões, maus fluídos, mentiras, ilusões vãs e frustrações, de direita, de esquerda e de centro, à paisana e fardados. Xô tristeza, xô depressão, xô desesperança. Cansado dessa “estória” mal contada que a gente ouve desde criança que somos o país do futuro, mas que nunca chega, me dei ao trabalho de viajar 100 anos adiante, no tempo e no espaço, onde consegui encontrar e capturar o possível melhor futuro para o Brasil, criatura essa que apelidei de RPL-PNBC-DD-ME, e, há mais de 20 anos, estou tentando entregá-la de presente, de mão beijada, para vc povo brasileiro sofrido, para libertá-lo do charlatanismo político que vigora neste país há pelos menos 130 anos, que espero que vc faça jus a ela. E assim o fiz e faço por gratidão e compensação pela minha passagem por estas plagas onde dancei legal o grande bailão existencial, sem pedir-lhe nada em troca, apenas que zelem da criatura e sejam felizes com ela. Bora, embarcar sem medo no melhor avião político possível com destino à felicidade ? https://www.facebook.com/lojinhalu.official/videos/268091667725669/UzpfSTEwMDAwNzA5NTQzNDAxNDoyNjY5MzE3MzgzMzE0NzUw/

    • Digamos que esse projeto, se entendi bem, de mais igualdade, só poderia ser implementado caso fosse adotado espontaneamente pelo mundo todo. Acredito que o ser humano ainda não está preparado para tal e ainda vai demorar muito tempo.

  2. Ótimo artigo. Hoje a maioria das discussões políticas são estéreis, em torno de costumes, ideologias tolas e coisas falsas. Coisas que importam mesmo são deixadas de lado.

  3. O cara falou, falou mas não disse nada de novo. Acredito ser impossível criar mecanismos para impossibilitar a existência de robôs, enquanto eles existirem a coisa não muda. Nem todo mundo tem tempo e/ou disposição para ficar se questionando, “este debate é verdadeiro ou falso, será obra de robôs”? Detesto boas intenções, elas nunca levam a nada, só criam falsas esperanças.

  4. Bem … de minha parte, li a matéria … e continuo muito do curioso sobre como funciona essa tal mídia dos robôs kkk KKK kkk que compete intensamente com as mídias tradicionais que, todos sabemos, tem por mote a emoção kkk KKK kkk

    Os robôs são rotinas da programação???

  5. Jose Vidal … por 1972, fiz Curso de Analista de Sistemas no LTD-DATAMEC (Laboratório de Técnicas Digitais da ainda existente DATAMEC)

    http://sindpdrj.org.br/portal/v2/2016/08/24/datamec-uma-historia-de-pioneirismo-e-sucesso/

    Não havia então Cursos Superiores atinentes … e o fiz para entender os cérebros eletrônicos da IBM e da Burroughs … tive noções das linguagens fortran, cobol e assembly … … … as informações eram passadas para processamento por fitas magnéticas e por cartões de papel que recebiam furos (como os atuais de megasena CEF).

    Os Analistas eram auxiliados pelos programadores.

    Aprendemos a analisar um Sistema (é coisa cansativa – se tem que anotar o passo a passo de da atividade em análise e o tempo que demora)
    … depois é feito um fluxograma com a nova maneira de execução … entra em ação o programador padronizando rotinas etc etc etc

    No artigo não tem nada disso … e os robôs não votam – portanto, não são pessoas … … … são o quê???

    • Lionço, eu também, quando era programador, fiz curso de análise de sistemas na Datamec, na sua época. E trabalhei com informática, como atividade principal ou não, pelo resto da vida. Bem vindo ao clube.
      Os chamados “robôs” do artigo são programas que replicam à exaustão nas redes sociais posts determinados por seus exploradores, utilizando contas com identidades falsas para parecer que se trata de pessoas reais. Deste modo um post que você faça pode ser transformado em centenas ou milhares de outros om o mesmo assunto, que, por sua vez, sendo julgados verdadeiros por leitores e por eles replicados, dão a impressão de que você tem uma enorme base de apoio. Podem ser utilizados também para influir em pesquisas e votações feitas nas redes ou em órgãos da imprensa, votando repetidamente conforme programados, por isso é que muitas vezes quando você vai votar numa delas encontra alguma coisa mais difícil de automatizar para ser feita antes que diz que é para provar que você não é um robô.
      Com isso distorcem o volume de conteúdo da mídia e as redes, que por sua vez influenciam pessoas, que tomam decisões baseadas nas informações falsas ou exageradas em importância, daí se dizer que esses robôs votam.

    • Caro Lionço, essa dos cartões perfurados é coisa antiga. Também lembro desse tempo. Acho que começava com: Dimension, job, etc…
      Hoje, o pessoal usa algoritmos na computação que podem ser mais ou menos complexos para alcançar um objetivo. Através deles podem ser alcançados os gostos pessoais de cada um ou descobrir o que o usuário pesquisa.

  6. Robôs? Hans River revelou ao Brasil na CPI quem os contratou… é só procurar na internet… ninguém pode alegar desconhecer…. Hans River… CPI fake news…. tá lá no google.

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