Depois do desabamento, Eduardo Paes ainda quer demolir o elevado da Perimetral?

Pedro do Coutto

O desabamento de três edifícios no centro do Rio, o primeiro da noite de quarta-feira 25, os outros dois na madrugada de quinta, constituiu-se numa das maiores tragédias da história da cidade.  Sobretudo porque as causas, no momento em que escrevo,  ainda não foram identificadas ou explicadas, nem pelo prefeito, nem pela Prefeitura.

Havia obras ilegais no edifício que tinha 20 andares e ruiu arrastando os demais. Que obras foram essas? Levantou-se a hipótese de, bem à moda brasileira, a da falsa esperteza que sempre custa caro demais, terem sido realizadas por empresas não registradas no Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura. Mas onde está o acompanhamento obrigatório da administração municipal?

As obras teriam causado abalo na estrutura do prédio  maior que, ao desmoronar, arrastara dois consigo. Sim. Mas onde fica na história a vistoria do Corpo de Bombeiros? O fato da competência ser da Prefeitura não libera a responsabilidade também do governo Sérgio Cabral. O Corpo de Bombeiros é um órgão do Estado.

A reportagem que o Globo publicou é impressionante. Os repórteres Célia Costa, Duilo Vítor, Rafael Caldo e Renata Leite empenharam-se ao máximo para cobrir o desastre que foi pela noite adentro e chegou ao alvorecer. Fotos dramáticas e magníficas de Pedro Ririlos e Pablo Jacob.

O Rio é uma cidade vulnerável. Veja-se a explosão do restaurante da Praça Tiradentes, depois o acontecimento de agora. Veja-se o emaranhado de fios onde se enrolam os gatos de acesso à energia  e aos canais de TV a cabo. Veja-se o abandono completo e total de dois prédios na Cinelândia, um deles histórico, o do antigo Automóvel Clube, que faliu. Paraíso hoje de ratos. O outro do antigo cinema Plaza, fechado e solitário há vinte anos. Um perigo para todo um quarteirão.

Que procedências os governos estadual e municipal tomaram no passar do tempo? Nenhuma. Amanhã quando ocorrer novo desastre, a culpa é sempre do acaso. O Rio é uma espécie de cidade aberta ao risco e à tragédia, para recorrer à imagem contida no clássico de Rosselini, que filmou Roma nos dias finais da ocupação nazista. No meio de omissões e falta de explicações, dificilmente o prefeito Eduardo Paes deverá permanecer na vontade de demolir o elevado da Rodrigues Alves, elo principal com a ponte Rio-Niteroi.

Pois, se a falta de fiscalização, prevenção e ação administrativa foi capaz de conduzir a cidade a uma das maiores catástrofes de sua história de mais de 400 anos, para ser exato, 447, que dizer o risco terrível que se prevê com a derrubada do elevado, que só pode ser à base de fortíssima implosão .

Se o desmoronamento de três prédios, acarretando consequências trágicas, paralisou o centro carioca, o que poderá acontecer se a via elevada for explodida ou implodida? Se três edifícios deixaram os escombros revelados pela reportagem e pelas fotos de O Globo em nível insuportável, como será feita a remoção dos escombros de um elevado que demorou 17 anos para ser construído (1962 a 1979) e, depois de tantos entraves, foi inaugurado pelo governador Chagas Freitas?

Se Eduardo Paes, buscando viabilizar um empreendimento imobiliário na área do antigo Porto do Rio, por sua vez inaugurado em 1910, detonar a obra, terá que aplicar carga elevadíssima de explosivos, pois a estrutura é de aço reforçado. As consequências vão se fazer sentir nos sistemas elétrico hidráulico, de comunicações e nas redes pluvial e de esgoto. O centro do Rio poderá ser arrasado.

O prefeito, que não consegue terminar as obras da Avenida Venezuela e Rua Sacadura Cabral, deve refletir pelo menos um pouco e se informar melhor a respeito dos projetos que anuncia. Pode, ao detonar o viaduto, desmoronar, não só sua administração, mas a própria cidade.

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