Derrota de Dilma lembra a de Jânio quando indicou Ermírio de Moraes

Pedro do Coutto

A presidente Dilma Roussef sofreu, sem dúvida, uma derrota política no Senado quando, semana passada, teve rejeitada sua indicação para manter Bernardo Figueiredo na direção geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres. Na realidade era um caso de recondução, já que seu mandato anterior havia terminado.

Reportagem de Catarina Alencastro, O Globo de 9 de março, focalizou bem os vários ângulos do episódio. Um deles, triste reflexo fisiológico. Rebelião no PMDB contra o que considera perda de espaço no esquema de poder. Portanto fica implícito que, concedidos mais cargos, aí o partido que foi de Tancredo Neves, Ulisses Guimarães e Barbosa Lima Sobrinho, volta a apoiar as mensagens da presidente. Como justificar uma coisa dessas? Impossível. A foto da matéria é de Rodrigues Pozebom.

Impossível também, como destacou o senador Lindberg Farias no texto de Catarina Alencastro, entender, sob a luz da ética, o comportamento do líder do governo na Câmara Alta, Romero Jucá. A impressão é a de que poderia ter evitado a derrota, mas não o fez. Deixou correr o barco. Atitude muito diferente da que adotou quando da aprovação final do projeto de lei que iguala, em todas as empresas, os salários das mulheres aos dos homens tratando-se, claro, de funções idênticas. Neste caso ele agiu. Diante da reação de fortes setores empresariais – é sempre assim – requereu (e obteve) nova audiência dos líderes partidários.

Por que não procedeu da mesma forma no caso de Bernardo Figueiredo? Romero Jucá – Lindberg deixou a dúvida no ar – teria trabalhado contra o próprio governo. Inadmissível. No entanto, não surpreende. Jucá foi líder de FHC no Senado, tornou-se líder de Lula e agora é líder de Dilma. Uma vocação irresistível para o poder. Agora, provavelmente, procura equilibrar as correntes que formam a maioria parlamentar do executivo.

Um presidente da República, no momento uma presidente, não pode perder a maioria. Mas no título do artigo eu disse que a atual derrota de Dilma Roussef lembra a que atingiu Jânio Quadros, no Senado, em 1961, quando indicou o empresário Ermírio de Moraes, pai de Antonio Ermírio de Moraes, para embaixador do Brasil na Alemanha Ocidental.Na época havia duas Alemanhas: a Ocidental, cuja capital era a cidade de Bonn. A Oriental cuja capital era Berlim. Hoje, existe uma Alemanha só, capital Berlim.

Ermírio de Moraes havia atuado intensamente na campanha vitoriosa de Jânio, especialmente no espaço econômico financeiro. Sempre foi um grande industrial, nacionalista, que enfrentou tempestades ao longo de sua vida. Recebeu ataques do capital estrangeiro e dividiu o palco político administrativo com o jornalista Assis Chateaubriand, num confronto que se deslocou para a Justiça, chegando até ao Supremo Tribunal Federal.

Ermírio, que era um homem que tinha prazer no combate aberto, processou Chateaubriand acusando o dono dos Diários Associados e da TV Tupi de tentar extorqui-lo. Mas este é outro assunto.

Furioso e legitimamente indignado com a rejeição, Ermírio de Moraes assumiu consigo mesmo o compromisso de eleger-se senador, nas eleições de 62, pelo PTB de Pernambuco. Conseguiu. Foi o mais votado. E, na mesma disputa, garantiu a vitória de Miguel Arraes, fornecendo-lhe suporte financeiro para enfrentar João Cleofas, candidato símbolo do conservadorismo da época. Inclusive inflado por recursos vindo de fora, através do IBAD, sigla através da qual os doadores mantinham ocultos seus nomes.

O combate nas terras pernambucanas que tanto orgulham o acadêmico Marcos Vilaça, foi duríssimo. Arraes venceu por 6 mil votos, menos de 1% do eleitorado.Não tivesse Ermírio de Moraes sido rejeitado, Arraes não receberia os recursos que recebeu e a história do Brasil talvez fosse outra. Coisas da política.

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