Derrubada veio dos EUA, mas títulos americanos são os mais procurados

Pedro do Coutto

Uma profunda contradição aparente envolveu – e está envolvendo – o comportamento dos mercados financeiros internacionais, do início à metade desta semana. A derrubada das bolsas de valores de todo o mundo partiu da incerteza quanto à rentabilidade dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, hipótese admitida pelo presidente Barack Obama, de Washington se ver na contingência de suspender o pagamento dos juros. Desencadeou-se uma onda generalizada que, no Brasil, segunda-feira, causou um recuo de 8% na Bovespa. Em Nova Iorque, o Dow Jones caiu 5,5. Um desastre. A Folha de São Paulo de terça-feira publicou reportagem excepcional sobre o movimento global e as oscilações de dólares. A explosão, ao que parece, decorreu de uma avaliação negativa feita pela Agência (americana) Standard&Poors quanto à solidez de Wall Street.

Se os valores desabaram, como aconteceu, era lógico prever pelo menos uma procura menor pela aquisição dos papeis avalizados pela Casa Branca. Nada disso. Ocorreu exatamente o contrário. O recuo das ações no planeta foram acompanhadas por uma  mais intensa procura dos títulos cuja ameaça de rentabilidade deram início à crise.

Alguma coisa está errada. Filmes já sustentaram ter dado a louca no mundo, a louca no Chapeuzinho Vermelho, o dia em que Wall Street parou, porém na ficção e no humor. Não na realidade concreta. O que terá acontecido, de fato, para a elevação dessa procura e queda dos demais valores? Estranho. Principalmente porque a mesma reportagem assinala que os papeis oficiais do Tesouro dos Estados Unidos tiveram sua rentabilidade anual diminuída de 3,2 para 2,4%. Ao ano. Em nosso país, a taxa de mercado é superior a esta. Ao mês. Qual a explicação? Qual a tradução efetiva dos movimentos matemáticos antagônicos?

Antagônicos só na aparência. No fundo da bola de cristal, uma operação conduzida na emergência para arrasar muitos e enriquecer poucos. Isso porque, princípio de contabilidade, não existe débito sem crédito. E vice-versa. Assim, se alguém ganhou, é porque alguém perdeu. Inclusive no caso da Bovespa, as perdas alucinantes de segunda foram sucedidas por ganhos incomuns na terça-feira. Num espaço de 24 horas, papeis e dinheiro trocaram de mãos e de bolsos.

Teria a Standard&Poors cometido um erro simples de avaliação? Não se sabe. Mas que o processo especulativo desencadeou-se através da contradição, constitui um fato. Os números comparativos estão aí para confirmar. Os repórteres Toni Sciarreta e Giuliana Vallone certamente vão acompanhar os próximos lances. O interesse público é enorme. Alguém, brincando, já disse que o bolso é o órgão mais sensível do corpo humano.

E o pensador alemão Erich Fromm, na primeira metade da década de 50, escreveu um livro cujo título é uma obra prima: “Meu Encontro Com Freud e Marx”. É isso aí. Vamos ver o que vem daqui para a frente. Pois o que ocorreu para trás, o economista Paul Krugman, em artigo na FSP de 6 de Agosto, sintetizou ao cotejar os aspectos críticos da economia americana com os índices de desemprego. A causa total da dificuldade de hoje não está, claro, só neste plano. Mas ele, para Krugman, é predominante. Em 2007, 6,3% dos adultos estavam empregados. Dois anos depois, em 2009, apesar do crescimento populacional, aquele índice desceu para 5,9%. Finalmente, em 2011, está em 5,8 pontos. Falta desenvolvimento  econômico, aumento da produção, e abertura de oportunidades de trabalho. Sem estes fatores, a especulação predomina. Ela sempre espera as ocasiões propícias. A desta semana foi uma delas.

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