Desembarcando ou manobrando?

Carlos Chagas

Como passarᠠ Jos Sarney o fim de semana, sob o eco das palavras do presidente Lula a respeito de no haver votado nele e de que o problema da permanncia de um senador na presidncia do Senado no era dele?

No mnimo, uma descortesia, para no falar em reviravolta verbal. O telefone no tocou ontem no quarto do hospital Srio-Libans ou no apartamento da famlia Sarney, em So Paulo, pelo menos em se tratando de uma chamada oriunda do palcio da Alvorada. At agora o Lula no pensou em minimizar os efeitos de sua afirmao, explicando-se ao ex-presidente. No precisava, claro, porque governantes no se explicam, j recomendava Disraeli. Mas teria sido um gesto maior do que explicar-se, caso tivesse telefonado: uma evidncia de continuar respaldando o aliado em sua guerra com as oposies.

A semana a se iniciar amanh promete, com a reabertura dos trabalhos parlamentares. Por conta da operao de D. Marly, h dvidas sobre se Jos Sarney estar presente nas primeiras sesses do Senado, ainda que o Conselho de tica deva reunir-se para receber as representaes contra o presidente da casa. Ao mesmo tempo, a bancada do PT solucionar a dvida hamletiana de ser ou no ser pelo afastamento de Sarney. PSDB e DEM continuaro batendo firme, tanto quanto o PMDB fingindo-se de morto. Numa palavra, a semana parece quente.

Mudar tudo de uma vez?

O ministro da Justia, Tarso Genro, deu a partida, anunciando pretender continuar no cargo apenas at dezembro. A menos, claro, que o presidente Lula exija sua permanncia at o prazo mximo da desincombatibilizao, a 31 de maro do ano que vem. Candidato lanado ao governo do Rio Grande do Sul, precisa concentrar-se na campanha.

E os demais ministros-candidatos? De Edison Lobo a Geddel Vieira Lima, de Jos Pimentel a Henrique Meirelles, Patrus Ananias e tantos outros, so no mnimo vinte dispostos a disputar governos estaduais e cadeiras de deputado e senador.

Por conta disso crescem junto ao presidente Lula as sugestes para que antecipe a reforma do ministrio e a promova de uma s vez, neste segundo semestre. Empurrar as mudanas com a barriga significa aproveitar em grande parte os secretrios-executivos de cada pasta, ou seja, aplicar meia-sola no governo, precisamente no ano em que mais necessitar mostrar ao e resultados. Nada existe contra os secretrios-executivos, mas, convenha-se, formam no segundo time, na hora em que o campeonato torna-se mais emocionante.

Escoadouro de votos

O tema j foi abordado mas merece ser repetido. Em poucas semanas ser aplicada milimetricamente em So Paulo a lei anti-fumo. At nas caladas ser perigoso acender um cigarro, quanto mais nos bares, restaurantes e estdios de futebol. Esto suprimidos os fumdromos e mesmo nos quartos de hotel as restries se faro sentir.

Quantos fumantes podem ser catalogados no pas inteiro? Vinte milhes, no mnimo. Seno vinte milhes de eleitores, quase isso, j que o voto direito de quem fez dezesseis anos.

Ser que o governador Jos Serra pensou nesses nmeros, ele que se transformou no maior algoz nacional do cigarro? Perdero os companheiros a oportunidade de apresent-lo como criador de agruras para tanta gente? E por que persegue de forma implacvel o usurio de tabaco quando cruza os braos diante dos produtores agrcolas, das fbricas e dos que comercializam cigarros?

Deveria pensar um pouco mais o candidato tucano, mesmo sem abrir mo de seus postulados em defesa da sade pblica. Flexibilizar sempre foi verbo do agrado do PSDB, que o diga Fernando Henrique Cardoso, responsvel por atropelar a soberania nacional, o patrimnio pblico e os direitos sociais. Ser derrotado por perder o voto dos fumantes pode constituir-se numa bobagem.

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