Desenganado da aparência exterior, na visão de Quevedo

Francisco Quevedo (1580 // 1645) foi um genial escritor e poeta espanhol, cuja obra continua atual ainda hoje, tantos séculos depois. Confira este soneto dele, sobre aparências.

Francisco Quevedo

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DESENGANADO DA APARÊNCIA EXTERIOR

Vês tu este gigante corpulento
que solene e soberbo se reclina?
Pois por dentro é farrapos e faxina,
e é um carregador seu fundamento.

Com sua alma vive e é movimento,
e onde ele quer sua grandeza inclina;
mas quem seu modo rígido examina
despreza tal figura e ornamento.

São assim as grandezas aparentes
da presunção vazia dos tiranos:
fantásticas escórias eminentes.

Vês que, em púrpura ardendo, são humanos?
As mãos com pedrarias são diferentes?
Pois dentro nojo são, terra e gusanos.

Francisco Quevedo, in ‘Antologia Poética’
Tradução de José Bento

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