Desorientação e desarticulação são características marcantes do governo Jair Bolsonaro

Charge do Aroeira (brasil247.com)

Pedro do Coutto

O episódio surpreendente que marcou o recuo do governo Bolsonaro em anunciar o novo programa de auxílio social que substituirá o Bolsa Família causou um impacto extremamente negativo refletido na queda de 3% da Bovespa e a subida do dólar, consequências diretas da falta de rumo da administração federal. O tema foi objeto de duas excelentes reportagens de O Globo e da Folha de S.Paulo de quarta-feira. No O Globo, a matéria foi de Manoel Ventura, Naira Trindade, Geralda Doca, Dimitrius Dantas, Fernanda Trisotto e Bruno Góis.

A área econômica não conseguiu chegar a uma conclusão sobre o custo previsto para a sequência do programa, nele incluído, como deseja o presidente da República, um aumento mensal de R$ 211 para R$ 400 por unidade familiar. A área econômica reagiu contrariamente, deixando o ministro Paulo Guedes em péssima situação na medida em que rejeita a despesa que ultrapassaria na escala de R$ 30 bilhões o teto orçamentário para 2022.

DESORIENTAÇÃO – O impasse revela bem o grau de desorientação e de desarticulação que envolvem o Planalto e a Esplanada de Brasília, pois como o governo recua de anunciar um projeto no dia em que ele próprio havia previsto o seu lançamento? Não é possível que na véspera o caso não tenha sido solucionado. Mesmo que seja solucionado a partir de hoje, a marca do desentendimento ficou.

Em seu artigo de quarta-feira na Folha de S. Paulo, o ex-ministro Delfim Netto focaliza o caso e indaga “para onde vamos?”. Ele acrescenta : “O mais grave é que as ações do governo são marcadas por uma incerteza permanente”. Na minha opinião, mais uma vez, aliás como sempre, Delfim Netto reflete ou traduz para o plano político o posicionamento da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo.

PETROBRAS –  Em mais uma prova da desorientação do governo, a Petrobras – matéria de Bruno Rosa, O Globo de ontem –  anunciou que não conseguirá atender aos pedidos de todas as distribuidoras de óleo diesel e gasolina no mês de novembro deste ano e que deve ser estimulada pela retomada da economia. Os pedidos, acrescentou em nota, estão acima da capacidade de produção e refino.

Os pedidos que se referem ao diesel apresentam um crescimento na ordem de 20%. E os relativos à gasolina subiram 10%. Além disso, os estoques das empresas distribuidoras estão baixos, de onde se conclui que se abre um campo para outras fontes de fornecimento, já que o sistema de transporte não pode ser contido em decorrência da incapacidade de fornecimento por parte da estatal.

DESABASTECIMENTO –  O que está acontecendo na área do petróleo ? Segundo a Associação das Distribuidoras, a Petrobras coloca em perspectiva uma situação potencial de desabastecimento. Ótima hipótese para um novo crescimento de preços. Está evidente. O que surpreende, entretanto, é um aumento de 20% do consumo do diesel e 10% no consumo da gasolina, quando, principalmente em relação à gasolina, era válido prever que ocorreria uma queda em função dos preços recentes. Quanto ao diesel, haverá sempre o repasse para o custo de vida porque o consumo do diesel, ônibus e caminhões, representa metade do petróleo consumido por ano no Brasil.

O diesel, portanto, influi diretamente nos preços dos produtos, já que o seu transporte fica mais caro na medida em que o combustível tem o preço aumentado. Na gasolina pode haver uma restrição forçada pelos que têm automóvel. Mas não é o caso do diesel que através dos caminhões permite o abastecimento dos produtos de consumo, como é o caso dos alimentos e o transporte de milhões de passageiros de ônibus entre as suas casas e os locais de trabalho.

PRIVATIZAÇÃO  – Reportagem de Manoel Ventura, O Globo, revela que o projeto de privatização da Eletrobras, a ser executado  no primeiro trimestre de 2022, inclui o uso de recursos do FGTS para a aquisição de ações por parte dos empregados de Furnas, Chesf, EletroSul e EletroNorte. Tais recursos, importante destacar, são que pertencem aos servidores das estatais regidos pela CLT.

Outra fonte de recursos é a colocação de ações novas no mercado, permitindo a captação financeira de R$ 23 bilhões. Mas cabe a pergunta: onde entram os aportes de capital das empresas através das quais Furnas, Chesf, EletroSul e EletroNorte serão privatizadas? Cada uma emite as suas próprias ações, sendo que no caso de Furnas elas não são negociadas diretamente na Bovespa e pertencem tanto à União quanto a estados e municípios. Mas o problema não é só esse.

A questão é que o governo deseja que capitais particulares assumam o controle da administração da Eletrobras. A diferença é só essa, porque privatizada a Eletrobras já é na medida em que as suas ações são negociadas diária e livremente no mercado de capitais. E além disso, existe uma outra questão fundamental: o preço da privatização. O problema não é só vender ações em volume que permita o controle da holding, mas também qual o valor da transferência desse controle.

5 thoughts on “Desorientação e desarticulação são características marcantes do governo Jair Bolsonaro

  1. Já na campanha Bolsonaro declarou mais de uma vez que não entendia nada de economia e que iria nomear o “Posto Ypiranga”.
    Para os demais ministérios iria nomear somente técnicos.
    No entanto, mesmo uma boa equipe precisa de um Líder, um comandante que centralize as ações. Que avalie as diversas opções.
    Até hoje isso nunca foi feito. É cada um por si e Deus por todos.

  2. Realmente Pedro do Couto, não há planejamento, coesão, razoabilidade, na equipe do Ministro Paulo Guedes, sobre Reforma do Imposto de Renda, Reforma dos Precatórios e criação do Renda Brasil, que pretendem mudar de nome tirando o título de Bolsa Família, identificado como política de Assistência Social do PT, que na verdade foi criado pelo governo FHC, denominado de Bolsa Escola.
    Guedes está fragilizado e despretigiado, desde que foi descoberto uma conta secreta dele, pela operação Pandorra Papers, nas Ilhas Virgens Britânicas. Ele está sendo pressionado pelo presidente e pelos ministros políticos, a abrir o cofre público, descumprindo o Teto de Gastos, que foi o motivo para empichar a presidente Dilma.
    Guedes, fraquíssimo no governo, sem moral nenhuma, vem cedendo docemente constrangido a tudo que o presidente solicita, tudo com fins eleitoreiros, visando a reeleição em 2022. Renda Brasil turbinado de 190 para 400 reais, Vale Gás pela metade do preço e redução do preço do Diesel para garantia do apoio do Sindicato dos Caminhoneiros Autônomos, categoria que apoia Bolsonaro desde a campanha de 2018.
    A equipe econômica de Guedes ameaça uma debandada e ele se equilíbra no cargo com incrível perplexidade.
    Ao dormir deve lembrar, que desprezou os filhos de porteiros, empregadas domésticas, aposentados e servidores de estatais e agora o bumerangue da vida o atingiu em cheio.

  3. Bom dia , leitores(as):

    Senhores Pedro do Coutto , Marcelo Copelli e Carlos Newton eis aí um verdadeiro crime de ” LESA-PÁTRIA ” por parte dos dirigentes da Petrobrás e do governo responsáveis por dar continuidade de proibi-la de usar suas próprias refinarias , para produzir derivados p/atender o mercado interno Brasileiro como antes , com o agravante de que destruíram todo o ciclo do petróleo e alto-suficiência que a Petrobrás levou anos á fio p/adquirir e dominar , e agora nos ameaçam impunimente c/a falta de nossas riquezas em nosso próprio país .

  4. A Petrobrás está sendo fatiada, esquartejada em conta gotas.
    Já venderam a BR Distribuidora, importantes gasodutos. O Estado só detém 37% das ações e os investidores privados comandam 63% das ações. Na prática, a Petrobrás já está privatizada.
    Basta vender essas ações equivalentes a pouco mais de 30 por cento, para explodir a maior empresa brasileira.
    Trata-se de um crime cometido a céu aberto.

  5. Paulo Guedes jogou literalmente a toalha. Já fala em ” furar o teto de gastos”, medida que criticava com enfase desmedida nos governos anteriores, como sendo danoso a Economia.
    Atolado até o pescoço, no escândalo Pandorra Papers, a famosa offshore dele em paraíso fiscal, está aceitando tudo agora. Parece que entoou o discurso clássico: ” as favas os escrúpulos de consciência”, pois precisamos reeleger o presidente Bolsonaro.
    Então, vai gastar a vontade no ano que vem. Dizem que vai começar agora em novembro, com aumento do Bolsa Família substancioso.
    A ordem é liberar geral nas medidas chamadas de Pacote do Bem.
    Lógico que os caminhoneiros também serão beneficiados, com o Vale Diesel e vem aí, o Vale Gás. Tudo pele reeleição.

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