Desse jeito, a atuação das Forças Armadas no Rio de Janeiro nada vai resolver

Jungmann falou muito, mas não disse quase nada

Jorge Béja

Se o povo brasileiro e suas necessidades, primárias e vitais, fossem o alvo dos governos e a prioridade dos que ocupam os cargos de comandos supremos nacionais, o país inteiro não estaria no caos em que se encontra. Nem a violência urbana seria tanta e insuportável. Seria nenhuma. Ou seria tolerável. Mas, desgraçadamente, eles só pensam neles. À custa do sofrimento do povo, eles querem o bom e o melhor só para eles. Eles só cuidam deles. Dos dinheiros públicos, só tiram proveitos para si próprios. Eles não gostam de nós. Nos odeiam e nem gostam de ouvir falar do povo.

Também não gostam do nosso cheiro, de nossas vozes. Eles não sentem piedade de nós. Não choram por nós. Eles nos têm por adversários e inimigos. Deles, somos todos vitimados. Eles nos roubam e são nossos algozes. Para eles, somos lixo. E lixo não-reciclável. Nosso lugar é o esgoto.  E é por isso que nós também os odiamos. Generalizadamente.

IMPROVISAÇÃO – Vem aí uma outra improvisação para a “segurança” no Rio. Foi anunciada nesta quinta-feira (dia 27), pelo ministro da Defesa, em entrevista coletiva na sede do Comando Militar do Leste, Centro do Rio.

“As operações não serão anunciadas, nem serão previstas em decretos de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), como aconteceu nas Olimpíadas 2016. Tempos difíceis e extraordinários requerem medidas difíceis e extraordinárias”, disse o ministro Raul Jungmann, acrescentando:

“Não anunciaremos o efetivo, o custo, os locais. O objetivo não é apenas inibir o crime com a presença física das Forças Armadas e outras forças. A palavra-chave é inteligência. Golpear o comando do crime”.

TUDO AVISADO – Ora, ministro, o que não era para ser anunciado o senhor, bisonhamente, já anunciou, ou antecipou, e o crime, organizado ou não, já está ciente e avisado. Se as operações não serão anunciadas, como o senhor declarou, é porque não existe planejamento, mas improvisação. O que vier a acontecer será fruto do ímpeto, do repentino.  Até que seria prudente não divulgar antes uma operação militar-policial contra o crime.  Mas como nas improvisações tudo depende do momento, das ocasiões e circunstâncias, então nada existiu que o senhor pudesse anunciar.

Operações temporárias, ministro, desestruturadas e relâmpagos, nunca dão certo. Vive-se um tempo de falsa calmaria e depois tudo volta muito pior do que  era antes. As Forças Armadas se retiram e ficam as polícias militar e civil, desfalcadas, desarmadas, cambaleantes, com reduzido número de integrantes, frágeis, frágeis.

MUITAS CARÊNCIAS – Sem contar os policiais assassinados, o soldo da tropa é irrisório. Falta combustível para as viaturas. Falta organização. Falta o dinheiro que foi roubado dos cofres públicos. Falta autoridade. Falta moral. Tudo falta.

Ministro, tudo o que o senhor disse ontem — ainda que bem intencionado — será um grande fiasco. Os cariocas não querem e nem pedem, de imediato, operações que não possam ser anunciadas, mesmo que o senhor já tenha antecipado que elas vão acontecer. O que o povo quer é muito simples. O povo quer ter e quer ver policiais fardados e armados em todos os cantos da cidade do Rio e de todo o Estado.

Ministro, circule pelas ruas do Rio e no final do dia conte nos dedos quantas viaturas da PM e quantos soldados o senhor encontrou no patrulhamento. A soma será inexpressiva.

PRESENÇA NAS RUAS – Ministro Jungmann, se as tropas estiverem presentes nas ruas, fardadas e armadas, a população se sentirá segura e os meliantes não vão correr o risco de assaltar nem cometer latrocínios. O policiamento ostensivo, fardado e armado, noite e dia, todos os dias, em todos os cantos, sem nunca ser interrompido ou reduzido, é uma solução necessariamente imediata e urgente para a defesa da população. Sem este policiamento, a criminalidade aumenta e todos os tipos de crimes são cometidos, à luz do dia, a qualquer hora, e muitas vidas se perdem.

Naquela tarde de outubro, de um ano que não me recordo, fazia frio em Amsterdam. Foi num “snack bar” que avistei e puxei conversa com Fernand Cathala, comissário de polícia da França. Simpático e falante, entre um gole de uísque e outro, ele me confirmou de viva voz o fato que narra no seu famoso livro “Polícia, Mito e Realidade”. Que nada acontecia de anormal em Neuchâtel, terra natal de Jean Piaget e capital do cantão suiço de nome homônimo. Os bares fechavam as portas às 10 da noite, a delegacia de policia há anos não registrava uma ocorrência, nem de briga de casal.

UM GENDARME – Tudo lá era tranquilo e reinava a plena paz. Então, para que manter aquele gendarme, fardado e armado, na única guarita da cidade, em revezamento 24 horas por dia? Sem utilidade, o alcaide de Neuchâtel decidiu retirar aquele vigilante e acabar com a guarita. Pois foi a partir daí que os bares começaram a fechar as portas muito mais tarde. Também começaram as brigas. E na segunda noite sem a guarita e sem o gendarme, aconteceu o primeiro assalto a um turista italiano. Na semana seguinte, o primeiro homicídio. E dias depois, um latrocínio. E tudo isso aconteceu pela ausência daquele policial que estava sempre presente, fardado e armado.

“O policial na rua, fardado e armado, permanentemente em patrulhamento, é indispensável, porque representa a presença da autoridade pública em defesa da população e contra os malfeitores”. E com essa afirmação, Cathala e eu nos despedimos. E a pé, sem medo e vendo muitos policiais nas ruas de Amsterdam, cada um foi para o seu lado e seguiu sua vida.

COSME-DAMIÃO – Então, ministro Jungmann, traga de outros Estados policiais fardados e armados para o policiamento ostensivo e preventivo de toda a cidade do Rio de Janeiro. Nem se diga para reforçar, porque a força está ausente. Traga para completar e restabelecer o que deixou de existir. O senhor não era nascido, ministro Jungmann, e aqui no Rio, dia e noite, só se via incontáveis duplas dos chamados “Cosme-Damião”. Eram policiais militares nas ruas em defesa da ordem e da população.

Era uma época de paz. Nem era preciso Forças Armadas, nem operações extraordinárias. Também não eram tempos fáceis. As quadrilhas comandadas por “Cara-de-cavalo” e “Mineirinho”, implantavam o terror. Mas saiba o senhor que, mesmo assim, não exigiam “medidas difíceis e extraordinárias”, como as que o senhor já antecipou nesta quinta-feira que vão ocorrer. Quando? Ninguém sabe. Talvez nem o senhor saiba. Pois se ninguém sabe se Temer está garantido na presidência até o final de 2018, como garantir uma operação que depende, no mínimo, de um governo federal estável?

21 thoughts on “Desse jeito, a atuação das Forças Armadas no Rio de Janeiro nada vai resolver

  1. Mais um magnífico artigo do brilhante jurista Jorge Béja. Segurança Pública é primordial para que todos possam ter qualidade de vida.

  2. Dr. Jorge Béja,
    Boa tarde,
    Note a incompetência do governo Pezão, o governo federal deve ao estado do Rio de Janeiro R$ 49,2 bilhões de reais e faz exigências para poder conceder empréstimos para resolver os problemas criados por Pezão e Sérgio Cabral.
    O que o governador Pezão, sua equipe incompetente, os parlamentares que representam o Rio de Janeiro, senadores, deputados federais e estaduais deveriam estar fazendo, era exigir do governo interino de Michel Temer, a liberação de parte dos recursos que o governo deve, agora temos que ver a declaração de Moreira Franco, todos nós sabemos o que foi o governo Moreira Franco no Rio de Janeiro, lamentável, dizer que o BNDES vai emprestar dinheiro ao estado, quanta incompetência deste desgovernador, é incrível, até quando vamos aguentar este governo Pezão, o povo e servidores públicos estão sofrendo, na época do governo Moreira Franco, quando saiu deixou o estado destruído, foi preciso Leonel Brizola colocar o esta nos eixos novamente e ainda construiu escolas em tempo integral, para que crianças não entrassem na criminalidade, mas todos que vieram depois destruíram também, Marcelo Alencar, Garotinho e mulher e Sérgio Cabral.

  3. Não tem mais jeito. Com gente séria e honesta no governo federal e estadual, levaria décadas para
    “arrumar” o Tiro de Janeiro.
    Como os bandidos estão dos dois lados,
    pode ir para o Galeão ou Santos Dumont e boa viagem……………..

    • Se passar pela Linha Vermelha…
      Já tem uns Tanques nas ruas do Rio…. Inteligência ??? Eles servem para que mesmo na área de segurança pública ?
      Mais circo !

  4. Prezado Doutor Béja,

    Peço licença para publicar no seu post um artigo que saiu aqui mesmo, quando a Tribuna da Internet ainda era a Tribuna da Imprensa:

    “PERCIVAL DE SOUZA ANALISA A VIOLÊNCIA: O ESTADO É IMPOTENTE

    TRIBUNA DA IMPRENSA – Roberta Araujo, 05 de março de 2007

    O Mapa da Violência de 2006 revelou que os jovens brasileiros são os que mais matam e os que mais morrem no País, reféns da criminalidade. Além disso, também são os que mais praticam crimes hediondos, que aterrorizam a sociedade. Em homicídios, o Brasil só perde para Colômbia e Venezuela, dois recordistas.
    O tema violência é hoje um dos mais debatidos em todo o País. Qual a saída? O sistema penitenciário atual é ou não capaz de regenerar jovens? Como o Estado deve se posicionar para tornar a sociedade comum mais atraente aos menores que são seduzidos pela vida no crime?
    São algumas perguntas que não têm respostas e intrigam estudiosos e intelectuais. Para o jornalista, escritor e criminólogo Percival de Souza, o Estado está “carcomido e tornou-se impotente diante do desafio”. Escreveu 16 livros sobre o tema, sendo que o mais recente, “Sindicato do crime”, revela fatos, ocultados à sociedade sobre as facções criminosas a partir do surgimento do PCC.
    Sobre a crise na segurança pública, não poupa críticas e diz que “nossos legisladores têm sido omissos”. E parafraseia Nietzche quando levado a analisar as palavras do presidente Lula, que disse que não se pode fazer legislação por conta da tragédia da hora.
    “O Estado é o mais frio dos monstros frios”.

    TRIBUNA DA IMPRENSA – Por que o senhor diz no seu mais recente livro, “Sindicato do crime”, que a instalação do crime organizado dentro da prisão é a primeira grande novidade penitenciária do século XXI?
    PERCIVAL DE SOUZA – Nosso imaginário gira em torno do gângster que comanda crime residindo em mansão, usando carros de último tipo, estilo de vida cheio de luxo, algo como um Al Capone ao Sul do Equador. COMANDAR O CRIME MAIS ESTRUTURADO DE DENTRO DE UMA CELA É INVENÇÃO BRASILEIRA. É paradoxal.
    O poder interno na prisão sempre foi considerado inútil. De repente, essa mesma prisão se transformou em escritório do crime, pois o Estado não consegue o mínimo: manter o isolamento do mundo exterior. Nossos presídios ingressaram no realismo fantástico.

    TRIBUNA DA IMPRENSA – Qual é a questão central do livro?
    A partir de uma organização criminosa paulista, o PCC, examino os estragos que faz e fez, e explico como tudo isso pode nascer, crescer, prosperar e dominar. As autoridades de São Paulo fizeram questão de esconder a realidade. Mais uma vez, o jornalista-escritor, como já havia acontecido diante de outros temas, é desafiado a desnudar essa face oculta. O livro é uma investigação profunda sobre facções criminosas.
    Uma exegese, que não deixa de lado fatores endógenos e exógenos, reconstrói fatos, revela personagens, exibe documentos sigilosos, denuncia situações e mostra aquilo que a sociedade brasileira tem o direito de saber.

    TRIBUNA DA IMPRENSA – O agravamento da criminalidade no País se deve à piora do quadro social?
    Em parte, sim. No todo, não. Procuro ver a floresta, não apenas a árvore. Não existem Robins Hoods nessa história, onde muitos criminosos estão mais para misantropos do que para filantropos. Fernandinho Beira-Mar, o megatraficante, e Michel Frank, o algoz de Cláudia Lessin Rodrigues, por exemplo, nunca foram coitadinhos, mal-aventurados. ELIAS MALUCO NÃO TRUCIDOU TIM LOPES PORQUE ESTAVA FAMINTO. É um crápula, bandido na acepção do termo, covarde.
    O menino João Hélio não foi esfolado vivo durante sete quilômetros por matadores carentes. Para ser violento, é preciso, primeiro, aprender a odiar. Claro que são indispensáveis políticas públicas para enfrentar a sinistra realidade: o crime acompanha a sociedade como a sombra segue o corpo. O marco zero foi Caim.

    TRIBUNA DA IMPRENSA – O Palácio do Planalto já decretou que não haverá mudança na idade penal. O senhor é a favor desta redução?
    O Planalto, muitas vezes alheio ao que acontece na planície, empurrou dolosamente a tragédia do menino João Hélio para esse enfoque romano-canônico, marca registrada do nosso Direito, tratando tudo como fato consumado, e que nos restaria apenas o conformismo, nada mais. SE NOSSA PREFERÊNCIA É PROTEGER LOBOS, escreveu Victor Hugo, CONDENAMOS OVELHAS À MORTE. Quem foi que disse que se resolvem problemas graves com simples edição de leis?
    Como já disse Eça de Queirós, NO BRASIL HÁ MAIS DOUTORES DO QUE BRASILEIROS. Só pensam em artigos e parágrafos, que não fazem previsão sobre buracos no peito abertos pela dor e pela saudade. O ponto central é não manter uma regra genérica para todos os casos. É óbvio que nem sempre três anos de internação são suficientes para retirar as características de periculosidade de alguém de faixa etária reduzida. Este é o ponto. Examinar caso por caso, por equipe interdisciplinar, e não por curiosos levianos, e resolver. A pena em abstrato é mais uma das ficções brasileiras.

    TRIBUNA DA IMPRENSA – Segundo o presidente Lula, não se pode atender ao pedido da diminuição da idade penal porque não se pode fazer legislação do pânico. Ou seja, a tragédia da hora não pode forçar os políticos ao debate sobre segurança pública como se fosse um fato isolado. O senhor concorda?
    Acho curioso falar-se em “calor da hora” como se o momento mais adequado para discussão de temas relevantes fosse, quem sabe, o “inverno da hora”. O problema é que muita coisa que está nas leis não está nas ruas e muitas coisas que acontecem nas ruas, todos os dias, não estão nas leis. Este é punctum saliens. NOSSOS LEGISLADORES TÊM SIDO OMISSOS E, EM MATÉRIA DE SEGURANÇA PUBLICA, VAGABUNDOS. Se não querem ouvir o clamor das ruas, a decantada “vox populi”, não adianta eliminar o calor, mesmo porque – como ensinou Nietzsche – o Estado é o mais frio dos monstros frios.
    Em pleno calor da hora, o contraditório Lula chamou de terroristas os ataques incendiários contra ônibus repletos de passageiros no Rio. Estava emocionado? Nervoso? Ou indignado? No meu livro, dei a um dos capítulos o título de “Cemitério de teorias”. Gira sobre esse blá-blá-blá, lero-lero, palavras bizantinas. De tudo isso, a população está exausta.

    TRIBUNA DA IMPRENSA – De acordo com o Mapa da Violência de 2006, os jovens brasileiros são os que mais matam e os que mais morrem no País devido à criminalidade. Em homicídios, só perdemos para Colômbia e Venezuela, dois recordistas. Na sua opinião, de que forma o Estado poderia proteger melhor os jovens e oferecer a eles uma condição de vida mais digna, afastando-os da violência?
    São os que mais matam, mais morrem, mais ficam presos. A faixa etária do mundo criminal é baixa, dentro e fora das prisões. A juventude é fugidia e frágil, escreveu Marguerite Youcenar. O jovem tem que ter perspectiva, nutrir esperanças, não aniquilar a razão (através das drogas), não elevar auto-estima marginalmente (pelo poder das armas), não erigir traficante em modelo e tão pouco transformar o crime em “profissão”, como se matar, roubar, traficar, seqüestrar, estuprar e outras figuras penais fossem normais.
    Esse mundo criminoso acaba sendo tentador: dinheiro, poder, respeito, regras ortodoxas implacáveis. É contra isto, exatamente, que o Estado tem de agir. Que tal colocar essa agenda para o Ministério das Cidades? Que Ministério é este que parece um fantasma ausente exatamente das cidades?

    TRIBUNA DA IMPRENSA – O senhor tem esperança de que a crise na segurança pública do Brasil acabe um dia ou é utopia pensar nisso? A situação pode ficar mais caótica?
    A crise existe porque a questão da segurança pública, dever do Estado e direito de todos, na forma do Artigo 144 da Constituição, não pode ficar restrita exclusivamente à polícia. O caput constitucional é claríssimo. Investir em educação, empregos, moradia, saúde – tudo isso tem caráter preventivo no mais amplo dos sentidos. Segurança quer dizer polícia, sim, mas quer dizer, e junto, Judiciário, Ministério Público, sistema prisional, condições dignas de vida, fim da impunidade, a idéia de que cada um faz o que bem entende e fica por isso mesmo.
    Até a utopia, nesse cenário, muda conceitos. A propósito: AS GRANDES CONQUISTAS DA HUMANIDADE FORAM OBTIDAS EM RAZÃO DA NECESSIDADE OU DA UTOPIA? Cervantes poderia responder com seu Quixote e os modernos moinhos de vento.

    TRIBUNA DA IMPRENSA – Na sua opinião, o que leva os jovens a crimes hediondos como o praticado contra o menino João Hélio Fernandes?
    Esta é uma marca da brutalidade que desumaniza o que os romanos chamavam de “mundus” e os gregos de “kosmos” – a pureza, a beleza, a harmonia, a regência da constituição cósmica. Os animais, com inteligência biológica, não são corruptos. Os humanos, sim. A mãe de João Hélio ainda foi chamada de “vagabunda”. OS MATADORES TIVERAM SETE QUILÔMETROS, 14 QUARTEIRÕES E QUATRO BAIRROS PARA MOSTRAR UMA PARTÍCULA DE HUMANIDADE.
    Preferiram um zigue-zague com o carro, para ver se o corpo se soltava do cinto de segurança. Quando abandonaram o corpo esfacelado e sem cabeça, foram para casa, tomaram banho e saíram para um baile. Não existe nenhum valor, nenhum respeito. Cérebros doentios, ocos. Os inteligentes biológicos não fazem nada de longe parecido com isso. A prerrogativa é humana. Por que? Todos nós somos convidados a responder – e temos feito isso tão mal que no momento até intelectuais se engalfinham ferozmente sobre o assunto.

    TRIBUNA DA IMPRENSA – Como é a vida que esses jovens levam? Não se sensibilizam com mais nada?
    A vida para eles é roubar, dividir o produto dos assaltos, achar que isso faz parte do jogo. Essa é a regra. Ética? Moral? Solidariedade? Amor? Zero. MATAR NÃO PASSA DE ACIDENTE DE PERCURSO. A sociedade criou esses tipos na sua proveta das ruas, que produz incessantemente. A reação deles foi de indiferença. Para eles, a vida humana é o artigo mais barato do mercado. Lamentaram apenas terem sido identificados. Nada mais.

    TRIBUNA DA IMPRENSA – A violência pode gerar crianças assassinas?
    Quando crianças e adolescentes são instrumentalizados, sim. Charles Dickens escreveu isso com seu Oliver Twist, uma ficção sobre a Londres do final do século 19 que parece com os nossos reais centros urbanos de hoje. Os adultos dizem: “pode fazer isso que não lhe acontece nada”. Ou quando matam: “segura a bronca, garoto, porque você é de menor e tá liberado”.
    O texto legal a respeito pode ser um, mas a interpretação é esta. HOJE TEMOS CRIANÇAS E ADOLESCENTES DEFORMADOS, que ao serem surpreendidos são tratados com o eufemismo de “medidas sócio-educativas”, que não passam de um gigantesco embuste na maioria absoluta das instituições totais.

    TRIBUNA DA IMPRENSA – A violência pode diminuir se houver treinamento mais adequado para os policiais e aumento do efetivo nas ruas?
    O que deveria haver, e não há, é uma polícia que, além de ser repressivamente ostensiva, quando necessário, tivesse capacidade de elucidar os casos de autoria desconhecida, os crimes misteriosos. O percentual de êxito dessa polícia judiciária, hoje, é muito baixo. Homicídios, principalmente. ESCLARECER CASOS QUER DIZER ESTANCAR A IMPUNIDADE.
    Isso inibe práticas criminosas, é pedagógico até. A ação da presença também produz sensações de conforto em termos de segurança. Mas não podemos nos esquecer nunca: a polícia sempre trabalhou com efeitos. Causas, raízes, são com outros grupos sociais e o governo.

    TRIBUNA DA IMPRENSA – Ao seu ver, quais são os indicadores que contribuíram e ainda contribuem para o crescimento da violência?
    A marca registrada da violência está nos homicídios, nos crimes contra o patrimônio e nas conseqüências do tráfico e drogas. São esses os três fatores, interligados. Droga tem a ver com morte, droga tem a ver com roubos, drogas têm tudo a ver com contrabando de armas e munições. A prioridade deveria girar em torno desse tripé criminal. Mas infelizmente não tem girado.

    TRIBUNA DA IMPRENSA A – miséria e a exclusão social também contribuem para a violência?
    Claro. O ser humano é ele e suas circunstâncias, ensinou Ortega y Gasset. Isso não significa que a pobreza seja fator exclusivo de criminalidade, mas a ausência de elementos básicos de subsistência contribui decisivamente para desvios. Como diria Tomás de Aquino, PARA A PRÁTICA DE VIRTUDE É NECESSÁRIO UM MÍNIMO DE BEM-ESTAR. Aristóteles também foi um pouco por essa linha.

    TRIBUNA DA IMPRENSA – De que forma o Estado poderia “competir” para colocar os jovens na contramão do tráfico, da violência?
    A competição é feroz. O mal contra o bem. Não se trata, aqui, de ser simplista ou maniqueísta. Os atrativos saudáveis podem e devem seduzir, encantar – esportes, música, aprendizagem profissional, lazer. Mas creio que o Estado carcomido tornou-se impotente diante do desafio. A sociedade, que já se vestiu de branco e de vez em quando se manifesta em passeatas pela paz, pode convergir esse sentimento para algumas ações concretas. Crime organizado, sociedade desorganizada. Uma antítese. Tenho certeza de que tratar o semelhante humanamente sempre produz resultados surpreendentes.

    TRIBUNA DA IMPRENSA – Punições mais duras podem afastar os jovens da criminalidade?
    Sem demônio ou glamour. Crianças, jovens ou adultos, não podem fazer tudo, principalmente se dentro desse tudo estiver o inconseqüente, o que fere o direito alheio. TODA SOCIEDADE TEM REGRAS, SEMPRE TEVE REGRAS, CÓDIGOS, ESTATUTOS, NORMAS. Vide Hamurabi, Levítico, Deuteronômio, os 10 mandamentos para os nômades de Deus. É preciso ter noção clara de que transgredir normas criadas pela sociedade implica em receber sanções correspondentes. A palavra “repressão” pode ser legítima, se exercida dentro das balizas da lei. Sem regras, sem leis, vivemos a anomia, perigoso estimulante da violência.

    TRIBUNA DA IMPRENSA – Na sua análise, quais seriam as formas mais adequadas e justas de punição?
    Seria uma terapia para o comportamento anti-social. O que significam 30 anos de prisão? Nada. O que importa é o tratamento real para que alguém se transforme e tenha condições de voltar a viver socialmente. Se demorar cinco anos, que a pena seja de cinco. Se forem necessários 10, que sejam 10. É COMO O DOENTE NO HOSPITAL: NÃO TEM DATA PARA SAIR. SAI QUANDO OBTIVER ALTA, ISTO É, QUANDO ESTIVER BOM, NÃO PRECISAR MAIS DE HOSPITAL. Fica em casa até para convalescer. Claro, alguns não saem, até morrem internados. Que tal a analogia?

    TRIBUNA DA IMPRENSA – De que forma o senhor analisa o sistema penitenciário do País? Está longe de ser regenerador?
    O PCC, conto em meu livro, chama o presídio de “faculdade”. Não é preciso dizer mais. Além de ser um deboche acintoso com a educação, quando insinua uma “graduação” no crime, este quando transforma penitenciária em escritório, exibe o atestado de falência. A reincidência é alta, a prisão é uma mãe que gera muitos filhos. Explicito isso no “Sindicato do Crime”. Que fazer?
    Fico com Michel Foucault: A PRISÃO É DETESTÁVEL SOLUÇÃO, MAS NADA CRIAMOS, AINDA, PARA COLOCAR EM SEU LUGAR.”

    Abraços.

    (PS: O tempo passou, as palavras bonitas foram levadas pelo vento e entre a entrevista concedida à repórter Roberta Araújo e o dia de hoje, foram mortas mais de 500.000 pessoas e a taxa de homicídios passou de 25,4 para 32,4 mortos por 100 mil habitantes. Nesse mesmo tempo, os nossos GOVERNANTES, COVARDES E INSENSÍVEIS COM a MATANÇA DOS INOCENTES, permaneceram protegidos atrás de carros blindados, SEGURANÇAS ARMADOS e condomínios fechados sem se importarem com os que estavam do lado de fora, entregue aos lobos).

  5. Caros Amigos:
    Este Sr. Jungmann desde os tempos de estudante que se caracterizava exatamente por isso, gostava de falar e de um palco politico, esta noticia infelizmente é uma uma contradição em termos…avisa, avisando que haverá operações policiais, ora se são sigilosas o ministro não deveria as ser o primeiro a guardar segredo????? seguindo o principio do nosso Carlos Newton, daqui da TI, vamos fazer tradução simultânea !!!
    O objetivo oculto desta comunicação retórica é dizer: “Olha pessoal eu estou fazendo algo bem legal…estamos cuidando….” ao invés de focar verdadeiramente no elemento surpresa que garanta a operação, nem cogita da possibilidade desta dar errado por conta do aviso prévio…lembrem-se que isto já foi feito no Rio de Janeiro e não deu resultados….uma pena, o Rio merece respeito e seriedade…uma lastima o que estão fazendo com a população carioca…não merece, mesmo!

  6. Prezados leitores, os comentários são valiosíssimos, utilíssimos, integram o artigo. A todos, muito agradeço, eis que o assunto é do interesse da coletividade, diz respeito a todos nós.

    Ao Eminente Francisco Vieira, do Distrito Federal ( é bem melhor assim, identificar a Brasília sonhada por Dom Bosco, por Distrito Federal) e ao Reverendíssimo Dom Alex Peña-Alfaro, especial agradecimento pelas oportunas observações que nos proporciona história e cultura.

    E ao leitor Roberto, uma indagação: onde consta que a União deve 49,2 bilhões ao Estado do Rio de Janeiro. Tratando-se de dívida líquida, certa e até hoje não quitada, o ERJ passa de devedor a credor. É importante obter a prova. Tem-na?. Nos detalhe, por favor.

    • Caro Dr. Beja,
      O leitor e comentarista Roberto tem razão.
      A emenda é pior do que o soneto!
      Essa turma que atualmente detém o poder é mais perversa do que imaginamos.
      A União Federal cobra dívidas do nosso falido Estado do Rio de Janeiro, no entanto ela nos deve R$ 49,2 bilhões, cujo valor é por conta da Lei Kandir, na medida em que o governo fluminense abriu mão de ICMS de produtos exportáveis.
      Certamente, se a União quitasse essa dívida que hoje monta em R$ 49,2 bilhões e já se acumula há 18 anos (entre 1997 e 2015) com o Rio de Janeiro, segundo levantamento da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), por conta da aplicação da Lei Kandir, o nosso Estado falido por Sérgio Cabral Filho e Pezão sairia dessa grave crise, a União deve também para outras unidades da federação, não é só para o Rio de Janeiro.
      Essa legislação foi editada em 1996 sob a égide do Governo de FHC (PSDB) e visava impulsionar as exportações do país, que estavam em baixa, ela desonera de ICMS as exportações de produtos primários e semielaborados como café, soja, tabaco, óleo de petróleo e minério de ferro.

  7. O Dr. Béja está certo quando diz “Operações temporárias, desestruturadas e relâmpagos, nunca dão certo.”
    Quem sabe a operação deixe de ser temporária, se torne definitiva, se alastre pelo país todo e a tão sonhada intervenção militar tenha início no Rio de Janeiro.
    Sonhar (ainda) não paga imposto.

  8. Como se conserta aquele filho que mimamos durante anos e agora só nos dá dor de cabeça? Com uma boa conversa? Psicólogo? Colocar de castigo? Assim é hoje o Rio de Janeiro. Durante anos a complacência de muitos governos com a criminalidade desaguou no que vivemos hoje. Brizola não deixava a polícia subir o morro, o gato angorá dizia que iria acabar com a violência em seis meses. O crime organizado existe, e vivemos uma guerra civil, todos sabemos. Como já dito aqui inúmeras vezes, as FFAA existem para o combate, e caminhamos inevitavelmente para isso. Tenho lido vários textos e comentários, aqui e em outros veículos, abordando todas as causa e soluções, entretanto, nada é dito sobre um pequeno fator, aquele que alimenta isso tudo. Afinal, sem o cliente o negócio não prospera. E são inúmeros os clientes, cada vez mais e mais, alimentando a hipocrisia de se querer paz, fazer passeatas e pregar cruzes na praia. Afinal, o que queremos? Já são 91 policiais mortos em combate, e quando há uma vítima de bala perdida a bala é sempre da polícia. Como disse um comentarista acima, há bandidos dos dois lados. O filho mimado não está nem aí para a conversa e nem para o psicólogo, e curte o castigo puxando um bom baseado.

  9. Será uma declaração de guerra do crime chapa-branca organizado contra o crime pé de chinelo amalucado, tipo manobra diversionista, mudança de foco, com as forças armadas entrando de gaiata no navio furado, para tentar salvar o Titanic avariado ?

    • Aumentar a carga tributária já insuportável e colocar as forças armadas nas ruas para tentar salvar o $istema político e seus agentes apodrecidos é a mesma coisa que gastar velas boas com defuntos ruins.

  10. Policiamento fardado e ostensivo é um paliativo e de pouca eficácia, porque o bandido acha que se sair da vista do policial, estará a salvo.
    O que combate mesmo a criminalidade é a certeza do criminoso de ser apanhado por uma investigação rápida e eficaz e uma condenação dura e que cumprirá todo o tempo a que for condenado.
    O combate ao crime como é feito no Brasil é uma demonstração de incompetência e falta de seriedade, onde para começar são duas polícias, Civil e militar, que disputam espaço e atribuições.
    A prioridade deveria ser a investigação, o fim do inquérito policial e a agilização do processo, tendo a polícia que atuar diretamente em parceria com o ministério público e ainda as figuras do juiz de instrução e juiz julgador.
    Alem de não termos leis que atemorizem a bandidagem, as investigações são deficientes e a justiça é branda e morosa, dai as barbaridades que acontecem.
    Milico na rua como costumam fazer no Brasil, só serve é para tumultuar o transito e atrapalhar a vida do cidadão.
    Quando um policial fardado se posiciona a beira de uma estrada, logo todos que transitam nas proximidades ficam sabendo, o sinal de luz é um alerta a todos e disparado por quase todos.
    O próprio usuário da via trabalha contra o policiamento e depois ainda reclama da criminalidade. Coisas de Brasil.

  11. Caro Dr. Béja, assino mil vezes teu artigo, como sempre, levantando a Vóz, em defesa do cidadão-trabalhador-humiulde, que com suor e lágrimas, tenta fazer um País decente e justo.
    Temer e canalhada, transformaram o Brasil em grande senzala, com 220 milhões de escravos.
    A corja que tem o poder em Brasilia, são criminosos hedionados, cujas almas na trevas, servem à mamon, e já tem garantido o Ranger d Dentes nas trevas do Inferno na Consciência.
    A Cada um segundo suas obras e pagarás até o último ceitil, Jesus, o Cristo a 2 mil anos, Lei de Deus, a Porta, do túmujlo se abrirá, para a Prestação de contas, de todos nós. Que Ceus nos ajude a sair desse Pântal de lama. Dr. Muita Saúde e longa vida. Théo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *