Destituído do cargo por Bolsonaro, deputado diz que foi “líder de um governo que não queria ter base”

Vitor Hugo avalia que o governo está em uma “nova fase”

Natália Portinari
O Globo

Prestes a ser substituído pelo deputado Ricardo Barros (PP-PR) como líder de governo na Câmara dos Deputados, Vitor Hugo (PSL-GO) avalia que o governo está em uma “nova fase”, em que há uma base do governo na Casa. Em 2019, segundo ele, essa não era uma das prioridades do presidente Jair Bolsonaro.

A mudança se deve a uma nova “avaliação de cenário” da parte de Bolsonaro, diz Vitor Hugo ao O Globo. O parlamentar afirma ainda que seu maior desafio foi ser “o líder de um governo que não queria ter uma base”. Agora, quer focar em trabalhar por seu eleitorado, em Goiás, mas frisa que continua à disposição do presidente.

Como o senhor ficou sabendo da troca na liderança?
Desde a terça-feira passada, Bolsonaro tinha sinalizado para mim que tinha feito uma nova avaliação de cenário e queria fazer uma troca na liderança do governo. Eu disse que estava eternamente grato, de, como deputado de primeiro mandato, poder assumir esse cargo tão estratégico. Foi uma jornada excepcional, desejo sorte ao novo líder.

O governo hoje está mais próximo do Centrão. O senhor contribuiu nesse processo? Como ele ocorreu?
O presidente foi eleito com dois partidos pequenos que romperam coalizões de todos os demais. Eu enfrentei, junto com o presidente. Sou o parlamentar que mais esteve com o presidente no ano passado, mantendo essa ligação cognitiva para saber o que ele queria e transmitir isso e existir dentro da Câmara, que era um ambiente extremamente hostil ao próprio governo no começo do ano passado.

Ao longo do tempo, o governo foi amadurecendo em relação à necessidade de aproximação do Parlamento. A legislatura também foi amadurecendo. E eu, na função, também. Então, tudo foi se acomodando, a ponto de agora nós termos efetivamente uma base.

Qual foi sua maior dificuldade como líder do governo Bolsonaro?
Acho que a superação dessas fraturas da eleição, essas rusgas naturais que se seguem ao processo eleitoral, foi um grande desafio. O fato de o governo na época não querer ter uma base mas ainda assim ter uma representação formal na Câmara. Ser o líder de um governo que não queria ter uma base significa ter que conversar muito mais, dialogar muito mais sobre o mérito das questões.

O que mudou?
Tivemos esse foco até o momento em que o presidente e o governo quiseram começar a construir uma base. E isso aconteceu muito nesse ano, em função da pandemia, que forçou o governo a dar soluções mais eficazes e mais oportunas aos problemas que foram criados pela pandemia. E aí o presidente decidiu ter uma base.

O governo foi muito pressionado a ceder cargos e espaços na Esplanada para formar essa base?
O presidente tomou uma medida acertada quando, lá atrás, escalou ministros técnicos e estabeleceu critérios para a ocupação de cargos na Esplanada e nos estados. Agora, quando houve a decisão de composição, isso amenizou muito os problemas que nós vislumbramos como o principal do país, que é a corrupção, a ineficiência administrativa. Agora, é um novo momento. O governo e o Estado brasileiro têm uma artilharia para se contrapor aos malfeitos.

A articulação do governo é bastante criticada. O senhor concorda que houve falhas?
Fiz até um balanço rápido com Bolsonaro nessa semana e, apesar da resistência inicial do Parlamento com o governo, tivemos muitas vitórias. Aprovamos a reforma da Previdência, o estado de calamidade pública, o Orçamento de guerra, o auxílio emergencial de R$ 600, o socorro aos Estados e municípios, 41 Medidas Provisórias, abertura do setor aéreo ao capital estrangeiro.

O senhor chegou a ser cotado como ministro da Educação. Bolsonaro prometeu algum outro cargo para o futuro próximo?
Eu fui designado líder do governo antes de tomar posse como deputado federal. Acabei dedicando meu tempo muito mais à liderança do governo do que ao mandato que foi me dado pelo povo de Goiás, então agora quero voltar para lá, para os municípios, e quero ajudar mais, conhecer mais a realidade dos problemas. Voltar para o meu mandato.

Mas vou estar à disposição do presidente para qualquer missão e vou continuar apoiando o presidente, como estive quando ele me sondou para ir para o MEC. (Na ocasião) fiquei extremamente honrado com a lembrança do presidente.

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