Deus, seja o de Michelângelo, o de Einstein ou Chaplin, vive em todos nós

Pedro do Coutto

No espaço que ocupa brilhantemente às quartas-feiras em O Globo, nesta última o antropólogo Roberto da Matta coloca em pauta a existência de Deus e lembra ter se dirigido a ele para encontrar seu filho, Renato, que perdeu a trilha numa excursão. O renomado professor e intelectual foi atendido. Mas ficou em dúvida para as etapas seqüentes de sua vida.

Quase todos alimentam alguma dúvida. No fundo, a razão lógica também. Pois se nos momentos de aflição, ansiedade e dúvida, nós o evocamos, logo vive  na consciência humana. Caso contrário, estaríamos sendo hipócritas ou idiotas nos apelos e orações. Nos instantes de desespero, principalmente.

Pedimos seu apoio e depois o negamos? Não podemos assumir diante dele o comportamento de Iago de Shakespeare em relação a Otelo, seu benfeitor. Deus está vivo. Não importa que seja o Deus humanizado de Michelângelo na Capela Sistina, ou o Deus, síntese do absoluto de Einstein. Nem o de Chaplin, que a ele roga pelo menos em duas de suas obras notáveis. No Grande Ditador, maior filme político de todos os tempos. Em Luzes da Ribalta, quando implora para que a bailarina interpretada por Claire Bloom exerça sua arte no momento de entrar no palco. Atrás da cortina Chaplin se ajoelha e diz :”Seja você quem for, humano ou divino, ajude-a a cumprir seu destino”.

Houve fases do passado em que até era elegante e aristocrático chocar pela excentricidade: pessoas negam a existência de Deus só para contrariar. Essa época passou. A batida wildeana, o lance agressivo e irônico de salão, já era. Não surpreende mais ninguém. O desfecho final de O Retrato de Dorian Grey, quando o personagem se destrói envelhecendo seu auto-retrato, é de inspiração nitidamente mística, com um ser humano tentando se eternizar na Terra, através de sua imagem. Uma tentativa de autodeificação.

Mas falei no Deus de Michelângelo, um Deus comandando o universo do alto, figura humana de poder e seriedade. Muito bem. Falei no Deus de Chaplin.Vou falar no de Albert Einstein, mas a lista não acaba neste ponto. Para Einstein, na relatividade que ele lançou no início do século 20, fornecendo nova visão tanto à Matemática e à Física quanto à existência humana, Deus é o absoluto. Tudo mais, portanto, é relativo. Chegou à conclusão porque (relativamente)  para que haja relatividade é indispensável haver o absoluto.

Segundo o gênio que nasceu em 1880 e morreu em 1955, para Deus, por isso mesmo, não pode existir passado, presente ou futuro. Ele é Deus. E se o tempo muda com o passar das décadas – agora é minha opinião – Deus muda com ele. Já que o mundo que ele criou (ou cria?) hoje, claramente não é o de ontem.

O universo possui mais de 5 millhões de anos. A era cristã tem 1978, a partir do desfecho da cruz em Jerusalém. Os séculos são diferentes entre si. Mas deve-se incluir, no rol das dúvidas e das mudanças, as visões de Louis Buñuel e de Fellini.

Buñuel na primeira fase de sua carreira, dirigiu “Lage D’or”, de 1933, fortemente anti-religioso e até anticristão. Era absolutamente ateu e, sobretudo, anticlerical. Confundiu catolicismo com cristianismo. Já no final, com o “Anjo Exterminador”, passa a aceitar o sobrenatural para o qual não encontra explicação. No “Estranho Caminho de Santiago” (de Compostela) o espanhol antifranquista despedia-se buscando estender a mão e encontrar-se com Deus. Não importa se no Céu ou na Terra.

Finalmente, para Fellini, a vida oscilava sobre linhas de dúvidas. Ultrapassou o obstáculo em “Oito e Meio”, deixando um cardeal, na sauna, dar a sua versão de Deus. Faltou – dirão os leitores – Dostoievsky. Claro. Nos “Irmãos Karamazov”, define-se na frase famosa: “Se Deus não existe, tudo é permitido”.

Como nem tudo é permitido, está exposta sua crença, mesmo indiretamente. Na verdade – acrescento, como comecei – Deus vive em todos nós, está em todos nós. Na alma, na mente, no coração.

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