Dever de casa pela metade

Carlos Chagas

Os exemplos são muitos, mas vamos ficar em apenas dois, na demonstração de que a presidente Dilma  faz o dever de casa, mas pela metade. Em defesa do cidadão, ela proíbe a Petrobrás de reajustar os preços dos combustíveis quando variações se sucedem no mercado internacional.  Da mesma forma, empenhou-se e reduziu as tarifas de energia elétrica, beneficiando famílias e empresas. De tabela, combate a inflação.

Ótimo. Parabéns. Só que essas duas decisões deixam de calças na mão  a Petrobrás e as empresas geradoras de energia elétrica. A estatal do petróleo registra prejuízos seguidos, suas finanças andam mal. Quanto às  elétricas, públicas ou particulares, não tem como enfrentar despesas adicionais com o faturamento reduzido.

A moeda tem duas faces mas apenas uma delas brilha. A outra assusta, continuando as coisas como vão.

Tem saída, o dever de casa que aumenta o prejuízo desses importantes agentes econômicos?  Tem. Basta que a presidente avance mais uma casa nesse jogo complicado. Por que não tirar a diferença através do  sacrifício parcial  de setores privilegiados que nenhuma dificuldade enfrentam em suas atividades? Por que não taxar um pouco mais  o lucro dos bancos e das operações financeiras? Por que não aumentar impostos sobre o capital que,  amealhado aqui, é enviado para o exterior? Por que não reduzir as vantagens  do capital-motel, aquele  que chega de tarde, passa a noite e  vai embora de manhã,  depois de haver estuprado um pouquinho mais nossa economia, sem haver criado um emprego ou forjado um parafuso?

Estaria na hora de um passo adiante, se a meta do  governo é ampliar a integração social   das camadas mais pobres e até  da classe média,  coisa inegável quando  o cidadão paga menos pela luz que recebe em casa  e  deixa de  gastar demais com combustível.  Que paguem mais aqueles que relativamente  pagam menos. O imposto sobre grandes fortunas dorme em alguma gaveta da tecnocracia, assim como o imposto sobre heranças virou sonho de noite de verão.  Em suma, falta a outra metade do dever de casa.

IR PARA A PRESIDÊNCIA NÃO É COMO IR AO CINEMA

Tancredo Neves era governador de Minas e Ronaldo  Costa Couto, seu secretário de Planejamento.  De São Paulo, Antônio Ermírio de Moraes telefona para o assessor e desenvolve raciocínio fundamental: o governador tinha que sair da casca. Assumir logo sua candidatura presidencial e  lançar-se  em campo. Teria o inequívoco apoio do empresariado paulista, já farto do regime militar e temeroso de ver os avanços de Paulo Maluf.

Costa Couto apressou-se em transmitir a conversa ao chefe, que comentou: “Antônio Ermírio é um grande capitão de indústria. São Paulo e o Brasil devem muito a ele. Mas está pensando que ir para a presidência da República é o mesmo que ir ao cinema. Não se trata de uma questão  de vontade, pois envolve uma série de fatores.”

Nem a um de seus secretários mais chegados Tancredo se abria. Claro que Costa Couto acompanhava todos os lances da trajetória  do governador para a  viabilização de  sua candidatura, que o levou à vitória.

Só para ficarmos em Minas, verificando como eram diferentes os estilos dos mineiros fazerem política, vai outra historinha. Logo depois  de deixar a presidência da República, Juscelino Kubitschek   era candidato a voltar. Botou na rua a campanha JK-65 e anunciou  que seu segundo mandato se voltaria para a agricultura. Chegou a  preparar um slogan: “Cinco anos de agricultura para cinquenta anos de fartura”.

Como no caso de Tancredo, Juscelino  acabou  frustrado, nenhum dos dois chegou  ao palácio do Planalto, como pretendiam. Esses dois episódios servem de alerta para Aécio Neves, que necessita, como o avô,  conquistar o  apoio do  empresariado paulista, mas também precisa avançar um elenco de metas capazes de empolgar a opinião pública, acima e além de suas críticas à presidente Dilma.

CONTA OUTRA 

Revelou  o presidente da Câmara, Henrique Alves,  ter ouvido da presidente Dilma a promessa de reduzir a produção de medidas provisórias.  O diabo é que desde que elas foram criadas, todos os presidentes da República anunciaram a mesma coisa. José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique e o Lula juraram que apenas em casos de urgência relevância se valeriam do expediente…

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2 thoughts on “Dever de casa pela metade

  1. Sr. Chagas, estas são as mesmas incógnitas sobre as quais venho falando há meses aqui na Tribuna da Imprensa.

    – Maior carga de impostos para os bancos;
    – Instituição do impostos sobre grandes fortunas (IGF);
    – Reforma tributária;
    – Aceleração da construção de vias férreas para priorizar a integração nacional;

    E etc.

    Lembrando que, para atrair mais dólares para o Brasil e ajudar no controle cambial a fim de desvalorizar o dólar, o ministro Mantega acaba de retirar os 6% de IOF sobre o “capital motel”, ou seja, sobre as aplicações em renda fixa. Como os juros, daqui, são maiores do que os praticados lá fora, fatalmente dará certo.

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