Devido às relações com uma lobista que atua nos Transportes, o futuro de Paulo Bernardo e Gleisi Hoffmann está nas mãos de Pagot, o homem que sabia demais.

Carlos Newton

Pegou mal, muito mal mesmo, a notícia de que a consultora Teresinha Nerone, amiga íntima do casal de ministros Paulo Bernardo (Comunicações) e Gleisi Hoffmann (Casa Civil), atuou no governo para obter apoio do Ministério dos Transportes à construção do anel viário de Maringá, no Paraná.

A empresa de Teresinha Nerone é contratada desde 2008 pela Prefeitura de Maringá para “assessoramento na montagem e acompanhamento de processos para a captação de recursos”, e a obra é investigada pelo TCU (Tribunal de Contas da União), que aponta sobrepreço de R$ 10,5 milhões nos pagamentos do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes).

Teresinha tem uma antiga e estreita relação com o casal de ministros. Em outubro de 2009, postou em sua página no microblog Twitter que estava “na praia, tomando vinho” com Gleisi e Paulo Bernardo. Questionado sobre isso por um jornalista, Bernardo respondeu: “Isso não é da sua conta”.

Os ministros negaram, por meio de suas assessorias, terem tratado com a consultora sobre a liberação de recursos para a obra do anel viário de Maringá. Ambos reconheceram a amizade com Teresinha, mas negaram saber que ela faça lobby em Brasília.

Sobre o financiamento do BID, Bernardo disse que também não conversou com ela e que a operação foi legal. “A tramitação pelo [Ministério do] Planejamento passou normalmente pela área técnica, que analisa projetos de empréstimos internacionais. Isso é praxe.”

Essas relações delicadas com uma lobista, envolvendo obra superfaturada, deixam o casal de ministros nas mãos do ainda diretor-geral do Dnit, Luiz Antonio Pagot, atualmente de férias do cargo. No início do mês, Pagot afirmou que “cumpria ordens do Planejamento”, chefiado por Bernardo no governo Lula, e que Gleisi era quem acompanhava as obras no Paraná.

Ao mesmo tempo, Bernardo foi alvejado por uma denúncia expressa de corrupção ativa, feita pelo senador Roberto Requião (PMDB-PR), a propósito do projeto de uma ferrovia no Paraná, com superfaturamento, e que o ministro Bernardo teria oferecido diretamente a Requião, que à época era governador do Paraná.

Depois que Pagot deu depoimentos na Câmara e no Senado, negando receber ordens do então ministro do Planejamento, Paulo Bernardo ficou mais tranquilo e até deu entrevista elogiando a apuração das irregularidades no Ministério dos Transportes.

“As pessoas estão vendo que a presidenta está tomando providências para que as coisas funcionem direito”, disse o ministro, acrescentando: “A partir do momento em que houve denúncias, é obrigação do governo apurar, ver o que está acontecendo”, disse Paulo Bernardo, lembrando que o Tribunal de Contas da União tem apontado seguidamente, problemas, e o governo “tem que se virar” para resolver. “É assim que vai continuar sendo feito”, afirmou.

Mas ressalvou que, em sua opinião, é “quase impossível” não haver irregularidades. “O Dnit tem orçamento [anual] que deve ficar este ano na faixa de R$ 13 bilhões. Supor que não haverá nenhum problema é [supor] uma coisa quase impossível. Sempre tem problema”, admitiu.

Requião não voltou à carga, as denúncias contra Bernardo pareciam superadas, mas não terminaram. Como se sabe, o diretor-geral do Dnit, Luiz Antonio Pagot, não aceitou a demissão e entrou de férias. As informações são de que entregará hoje sua carta de demissão. Será?

A blindagem de Paulo Bernardo é o ponto mais importante de todo o episódio do Ministério dos Transportes e agora depende diretamente de Pagot. Como o ministro é casado com a chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, se o escândalo atingir os dois, o estrago será gigantesco, porque o casal terá de ser demitido em conjunto.

Como já comentamos aqui no blog, a exemplo do que ocorre na trama do filme “O homem que sabia demais”, de Alfred Hitchcock, Pagot é o personagem principal desse enredo verdadeiramente cinematográfico, cujo final ainda não foi escrito.

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