Devolva o Neruda que você me tomou, e nunca leu…

Chico e Hime fizeram canções inesquecíveis

O arranjador, pianista, cantor e compositor carioca Francis Victor Walter Hime compôs em parceria com Chico Burque a música “Trocando em Miúdos”, cuja letra retrata o fim de uma relação amorosa. A música faz parte do LP Chico Buarque, lançado, em 1978, pela Philips/Polygram.

TROCANDO EM MIÚDOS
Chico Buarque e Francis Hime

Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim
Não me valeu
Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim?
O resto é seu
Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas de amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças
Aquela esperança de tudo se ajeitar
Pode esquecer
Aquela aliança, você pode empenhar
Ou derreter
Mas devo dizer que não vou lhe dar
O enorme prazer de me ver chorar
Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago
Meu peito tão dilacerado
Aliás
Aceite uma ajuda do seu futuro amor
Pro aluguel
Devolva o Neruda que você me tomou
E nunca leu
Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde…

                   (Colaboração enviada por Paulo Peres – site Poemas & Canções)

7 thoughts on “Devolva o Neruda que você me tomou, e nunca leu…

  1. 1) Boa música, boa letra, bons compositores e cantores.

    2) Licença: em 01 de agosto de 1755 nasce no RJ, o escritor Moraes Silva, foi o primeiro a escrever um “Dicionário da Língua Portuguesa (1789)”.

    3) Fonte: BN, Agenda, 1993.

  2. Paulo, que música linda e triste essa do Chico que Millôr Fernandes disse outrora que ele era uma “unanimidade nacional” Depois veio uma desavença entre eles, mas é outra história. Todos nós, penso eu, já “trocamos em miúdos” não só em relacionamento amoroso, mas entre amizades, no trabalho, na comunidade, em qualquer convivência. Muitos de nós nos identificamos com essa música porque cansamos de sofrer decepções. Todos nós entendemos que “já vamos tarde, fora de hora”. As poesias do Neruda e o disco do Pixinguinha são as saudades que levamos. pois afinal fica alguma coisa de tudo que passamos na vida.

    • Medida do Bonfim se refere às fitas que se adquire na Igreja do Bonfim, em Salvador. A original tinha como medida o comprimento 47cm correspondente ao braço direito da imagem. O fiel necessitado de cura, fazia uma promessa e quando curado trocava uma imagem de cera, da parte curada e trocava pela fita que colocava em seu braço.

  3. Já nos dois primeiros versos, Chico mostra a sua genialidade, a da medida do Bonfim, que não lhe valeu, não serviu, seu desejo não se realizou, o casal está se separando.

    Porque é para isto que serve a fitinha do Bonfim que prendemos ao pulso. Para fazer pedidos enquanto se dá os nós (em geral três nós, três pedidos) e se espera que a fitinha caia naturalmente, quando então, todos acham, os desejos se materializam.

    As sobras de tudo que chamam lar é outra surpreendente e bela sacada. Só quem já se separou sabe o quanto é difícil esquecer, deixar pra lá o que se viveu a dois, bem como dividir as coisas de dois que voltam a ser de um. Um pra cada lado.

    Como ele brinca com sobras e sombras e fala desse toma lá dá cá dos livros, que em geral não voltam às nossas mãos. No caso do Neruda, o livro nem foi lido, o que pode indicar insensibilidade e desinteresse da mulher, pelo livro e por ele.

    Mesmo assim ele ama essa mulher(ou amou muito), pois no últimos quatro versos diz que sai em silêncio, sem nada levar além de si mesmo (a identidade) e da saudade, que é muita. Acha que ela nem liga, como se dissesse ‘já vai tarde’.

    Poesia não é para explicar, mas pra sentir. É horrível explicar poesia.

    Quanto à briga do Chico com Millôr, como lembra a Carmen Lins, o próprio Millôr explicou no programa Roda Viva, ao jornalista Augusto Nunes, não com estas palavras. “O caráter de um brigou com o caráter do outro”. E completou: “Eu não acredito em gente que lucra com o seu ideal.”

    Mas houve briga sim. Os jornais noticiaram na época. Não foi briga física, de rolar no chão. Chico cuspiu no Millôr após perguntar a ele “o que você tem contra mim?” Millôr jogou tudo o que havia em cima da mesa no Chico. Não lembro mais onde estavam. Na Fiorentina? Acho que não.

    Uma briga dos ídolos de muitos. Duas feras em seus domínios como artistas da palavra.

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