Dez anos de poder voraz

João Gualberto Jr. (O Tempo)
O Partido dos Trabalhadores vem celebrando seus dez anos no governo central com uma “road tour” por 13 capitais brasileiras. Na turnê, que passou por Belo Horizonte recentemente, são apresentadas conquistas obtidas pelo povo brasileiro graças ao perfil petista de administração. Essa avaliação meritória, é claro, vem dos próprios petistas, que deixam nas entrelinhas o entendimento que nenhum outro partido ou coalizão teria feito tão bem. Na cesta da autoexaltação entram a exclusão de 2,5 milhões de pessoas da pobreza – o carro-chefe das festas partidárias -, a ascensão do país no cenário internacional, os investimentos em infraestrutura e o comprometimento com os pilares da estabilidade econômica.
Contaminada pelo mesmo vírus eleitoral que contagia o PT, a oposição respondeu. Aécio enumerou 13 supostos fracassos do governo federal, e o DEM incluiu, com picardia, o ano de 2005 na linha do tempo exposta pelos adversários nos corredores do Congresso.
Entretanto, essa leitura de retrovisor requer a frieza de quem não pretende pedir votos. E os fatores que sublinham uma impressão geral do que representam dez anos do PT no Planalto vieram nas últimas semanas: trata-se de um projeto de crescente busca por concentração de poder.Muito já se falou sobre as duas matérias controversas que colocam o Legislativo e o Judiciário em pé de guerra no momento. A subtração, do Supremo, do papel de revisor de leis e zelador da Constituição em benefício do Parlamento é um tiro no peito da Carta de 1988. E o projeto que estrangula a criação de novos partidos é justificável por que lógica?
E A FIDELIDADE CANINA?
Ambas as teses são de autoria de deputados petistas. Se não se trata de retaliação a outras instituições, pelo menos denotam fidelidade canina ao governo. A presidente Dilma Rousseff e a ministra Ideli Salvatti – a quem cabe fazer o meio de campo com o Parlamento – foram surpreendidas por essa onda de criatividade legislativa como os demais cidadãos?Mas a relação do Executivo com o Congresso, nesses dez anos, também teve suas complicações. Petistas e aliados foram denunciados, julgados e condenados pelo Supremo por pagar parlamentares com o objetivo de conquistar a fidelidade deles em votações de interesse do governo Lula. E, nos oito anos em que sustentou a batuta, a estrela maior da legenda editou 345 medidas provisórias. Fernando Henrique, em período equivalente, não remeteu 300 ao Congresso.

Mas nenhum gestor faz nada sem dinheiro. Estudos tributários apresentam uma curva decrescente da acumulação de receitas no governo federal, principalmente após a promulgação da Constituição, com seu forte caráter descentralizador. Mas essa tendência passou a assumir um viés de crescimento justamente depois de 2002. Na era petista, a concentração atingiu 68% (em 2009), dez pontos a mais do que no último ano de gestão FHC. Não obstante o desequilíbrio, o governo Dilma sempre evitou tratar da negociação da dívida dos Estados e dos municípios, de que a União é credora.

Não dá para tratar como coincidência todas essas tendências de concentração de poder e recursos de 2003 para cá. Que seja feliz e esteja com a razão quem julgar que elas valem a pena em nome de conquistas mais amplas e democráticas.

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5 thoughts on “Dez anos de poder voraz

  1. Ode ao Lulla

    Na Propaganda petista,

    antes de 2003 só havia

    a Escuridão e o Caos

    (completo eu:)

    E depois de 2003,

    Vigarice e CorruPTção

  2. Sr. articulista,concordo com quase tudo que você escreveu, mas, dizer que Dilma e Ideli não sabiam de nada, não dá para engolir.Essa mulher que é presidente( e eu não engulo), tem fome de poder( poder totalitário).Portanto…

  3. Acabei de ver na TV o programa partidário do PT comemorando 10 anos de governo. Como realmente viajo pelo país, e vejo a profusão de obras por todos os lados, temos mais é que apoiar mais 10 anos, para continuarmos, com pleno emprego, distribuição de renda, diminuição da migração interna, diminuição das favelas, etc…

  4. Ronaldo Luiz, infelizmente essas obras a que se refere não chegaram ao interior da Bahia. Por exemplo: o semi-árido necessita de água (açudes), a transposição do S.Francisco caminha a passos de cágado, da Ferrovia Oeste-Leste apenas sete quilômetros implantados,embora as locomotivas já estejam no pátio, segundo o deputado federal Juthay Magalhães; mas há mais: extensa área do sertão praticamente incólume sem programa adequado para cultivo da terra. Mas há muita ropaganda.

  5. Ronaldo, bom dia.

    Pleno emprego? Desculpe, existe subemprego. É IMPOSSÍVEL sustentar uma família com esse ridículo salário mínimo. Sugiro que pesquise no site do Dieese de quanto deveria ser o salário mínimo;
    Distribuição de renda? Refere-se ao Bolsa Família? Salvo exceções no interior do país, nas cidades, principalmente capitais e metrópoles, ocorre picaretagem. Pessoas que mantém empregos informais apenas para poder acumular sua renda com a Bolsa. E quem recebe dois salários mínimos ou mais, paga esse absurdo de alíquota do imposto de renda. Quem paga aluguel, com essa renda, mais o imposto, mais o absurdo dos preços dos alimentos, sabe do que estou falando;
    Diminuição de migração? Tenho orgulho de dizer que trabalhei em supermercado no começo da minha vida, em meio ao governo Lula. 90% dos funcionários eram nordestinos, 5% provinham de outras regiões. Minha sogra mora no interior do Pernambuco e disse que lá, conseguir emprego é como ganhar na loteria, se é que me entende;
    Diminuição de favelas? Grande parte dos bolsistas gosta da favela, pois assim não precisam pagar aluguel, prestação, luz, água e tv a cabo.

    Com todo respeito, dizer que esse governo é excelente e deve permanecer mais 10 anos é receber água da sarjeta e dizer que está bem, que mata a sede.

    Abraços.

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