Di Stefano, o ditador Franco, Real Madri e Barcelona. Endeusado na Espanha, foi realmente grande jogador (“A seta rubia”). Agora exaltado no Brasil fora de campo, como “defensor da Liberdade”. Ha!Ha!Ha!

Helio Fernandes

Fui o primeiro jornalista do Brasil (e dos raros do resto do mundo) a ver Di Stefano em campo, quando começava, mas já com todas as virtudes do craque. Em 1948, o Chile organizou a “Copa dos Campeões”, lógico, da America do Sul. Viria a ser o embrião da agora disputadíssima Libertadores da America. Só que na época ninguém pensava nisso, mas competição interessantíssima.

Era disputa entre clubes campeões. O Chile, ambicioso ou sem experiência, montou esses jogos, que duraram 42 dias. Todos os clubes jogavam com todos, os dois melhores classificados disputariam a final.

Representando o Rio foi o Vasco da Gama, que era não só o melhor time da capital como do Brasil. Era chamado de “Expresso da Vitoria”. Ficavam na reserva tantos jogadores de alta qualidade, que se formou outro time, identificado como “Expressinho da Vitoria”, tão ganhador quando o principal.

O presidente do Vasco era Ciro Aranha (que tempos, que diferença) que me convidou para acompanhar o clube. Muito amigo do Ciro e adorando viajar e participar (política ou esportivamente), aceitei.

Era Secretario-Adjunto da revista O Cruzeiro, não pensei que fosse demorar tanto. Os jogos eram realizados no belíssimo Estádio Nacional. (O mesmo que serviu como penitenciária para milhares de pessoas, em 1972, quando a onda de golpes militares atingiu esse país. Costa Gavras fez um notável filme, e um dos pontos mais filmados é o Estádio Nacional. Então, prisão, centro desumano e cruel, para esconderem cidadãos torturados).

O representante da Argentina era o tambem poderoso River Plate, que timaço. Naquela época, no mundo inteiro, o que existia era o “2,3,5”, defesa, meio campo, ataque. No centro desse ataque do River, um jovem, que já vinha credenciado por atuações no próprio país.

Destacado, foi logo apelidado de “seta rubia”, pela velocidade e pelos cabelos vermelhos. Como era fácil de prever pela importância dos dois clubes e pelo futebol desses países, a final foi a esperada: Vasco-River Plate.

Pelo regulamento (ainda não havia mata-mata), se o jogo terminasse empatado, seria campeão o clube que tivesse melhor saldo de gols. O Vasco jogava pelo empate, não se acreditava nisso, pela potencia dos dois ataques. O jogo terminou 0 a 0, os grandes atacantes suplantados pelas ótimas defesas. Mas jogo emocionante.

Embora tenha sido jogador extraordinário, não pode ser dito (como escrito há dias) “Di Stefano foi o segundo JOGADOR DO MUNDO, LOGO DEPOIS DE PELÉ”. Ora, existem no Brasil e em outros países, “SEGUNDOS JOGADORES TÃO BONS quanto Di Stefano”. E até hoje, a discussao para o melhor do mundo, tem sido apenas um debate ou uma escolha entre Pelé e Maradona. Como não se decidirá pelo primeiro, sobrará apenas o terceiro lugar. Mas não ostensivamente para Di Stefano.

É difícil a comparação fora do tempo, mas Maradona não pode ser deslocado de maneira alguma do debate. Isso, levando em consideração o que aconteceu e acontece, dentro do campo.

Di Stefano, (hoje presidente de honra do Real Madri) tem sido colocado, fora do campo, num altar da Liberdade, da honra e da coragem. Aí a discordância do repórter é ainda maior. Por questões familiares, continuei acompanhando o futebol da Espanha, dentro e fora do campo. E a luta nada esportiva entre Madri e Barcelona. As cidades e os clubes.

Naquela época, o passaporte para jogar no exterior, não era apenas a qualidade do futebol. Isso era exigência fundamental, lógico. O Real Madri tentou logo contratar o craque da Argentina, mas e o dinheiro?

Entrou em campo a política e o ditador Franco, que dominava ferozmente o país. Seu palácio era naturalmente em Madri, capital. Ele fingia gostar de futebol, e abusivamente torcia pelo importante clube de Madri.

Já existia a rivalidade esportiva que dura até hoje. Como mostram os três jogos que disputaram e o quarto de terça-feira. Di Stefano foi elogiadissimo, por ter criticado seu próprio clube, “por não ser ofensivo”. E virou um “campeão da honra e da liberdade”. Mas nada disso está no seu passado.

Franco massacrou a Espanha durante 36 anos, de 1939 (quando derrubou o presidente Rivera, eleito pelo povo) até 1975, derrubado, mas levou com ele a República. Nessa maior guerra civil do ocidente, (proporcional à população), morreram mais cidadãos do que na Guerra da Secessão (EUA, 1860) e na Guerra da Rússia, 1917, que acabou se transformando em União Soviética.

O ditador financiou toda a contratação de Di Stefano, o que não é o mais condenável. As provocações que fazia e a tortura em massa, isso sim, não tem salvação. Quando jogavam Real e Barcelona, na capital, ele ia ao jogo, se exibia como esportista. Mas mesmo com “100 mil seguranças”, jamais foi a um jogo em Barcelona, tinha medo da oposição da Catalunha.

O grande Di Stefano, fora do campo era um adorador do ditador. Aceitava as provocações feitas por Franco ao país e aos adversários, estava sempre ao lado dele, gostava de se exibir. Quando a ditadura acabou, Di Stefano estava com 49 anos, já havia parado de jogar, é evidente. Mas mandava muito no Real Madri.

Agora, com 85 anos, é presidente de Honra há muito tempo, mas desapareceu para sempre. Só os adoradores dos “bezerros de ouro”, se lembram dele para chamá-lo de herói da humanidade. Eu lembrei as duas fases, a elogiável e a execrável. Conheço muito bem as duas.

***

PS – Quem foi também ao Chile, estou me lembrando, o radialista Oduvaldo Cozzi. O melhor de sua época, craquissimo, só não posso dizer se era da Mairink Veiga ou da Nacional.

PS2 – O técnico do Vasco, nesse 1948, era Flavio Costa, dois anos depois, 1950, tecnico da seleção . 1948 para lembrar, 1950 para esquecer. Como posso esquecer a minha primeira Copa do Mundo?

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