Diálogo sem subserviência

Carlos Chagas

Ao contrário do que parte da imprensa divulgou ou sugeriu, não foi complacente, muito menos subserviente, a postura de  Dilma Rousseff  diante do secretário-geral da Fifa, segunda-feira, em Bruxelas. Claro que ela buscou pontos de entendimento e até se comprometeu a emendar, conforme algumas sugestões, o projeto de Lei Geral da Copa, atualmente no Congresso. Mas não cedeu no principal, ainda que algumas reivindicações da entidade dependam da legislação dos Estados, não da União. 

Num exemplo: maiores de 60 anos continuarão pagando meia-entrada, nos estádios. Não há hipótese de penalizar os velhinhos, protegidos por legislação federal.  Quanto aos estudantes, tudo dependerá de negociações da Fifa com os governadores e as Assembléias  Legislativas.  Também a proibição da venda de bebidas alcoolicas nos recintos esportivos só será suspensa se os Estados quiserem.  

Jerôme Walcke não repetiu a arrogância de Joseph Blatter, que por sinal pulou fora do  encontro com a presidente brasileira precisamente para permitir um diálogo franco e educado, sem as  imposições por  ele apresentadas  através da mídia.

Quando abordaram a questão dos aeroportos nacionais, necessitando de   ampliações, Dilma não permitiu que as obras em andamento em diversas capitais parecessem exigência da Fifa.  As melhorias  constituem iniciativa nossa, visando não apenas a temporada dos jogos de futebol, em 2014, mas  adotadas para aprimorar o sistema de transportes conforme planejamento de prazo maior. A mesma coisa com relação às vias de acesso aos estádios.

Tudo bem quanto ao credenciamento para jornalistas, da alçada da Fifa, ou  às negociações para a transmissão de todas as partidas, a cargo das empresas de televisão e da entidade internacional.  Nada feito em relação a indenizações suplementares   referentes à ação ou omissão do governo brasileiro.

Em suma, busca-se o entendimento entre as partes, não a prevalência de uma delas. À  Fifa o Brasil não permitirá tornar-se um superpoder  capaz de turvar  nossas leis ou arranhar nossa soberania.  Até porque, a Fifa  terá muito mais a perder do que nós, se as coisas não derem certo…     

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BURRICE  

Idéia realmente de jerico é a de erigir  muros  no limite  das florestas, para preservá-las e evitar o desmatamento.   Berlim já demonstrou a inocuidade dos muros, valendo o mesmo  para as fronteiras de Israel  com os palestinos ou dos Estados Unidos com o México.   A língua espanhola já compete com o inglês, num caso, e a criação do Estado Palestino é mera questão de tempo, no outro. Além de monumentais  recursos que uma obra dessas exigiria, ficaria impossível transformar nossas florestas em gafieiras, daquelas onde quem está dentro não sai e quem está fora não  entra. 

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“SE BAIXAR A MÃO ESTÁ  PRESO” 

Eurico Dutra era ministro da Guerra e enfrentava a reação de alguns generais contra o então ministro da Educação, Gustavo Capanema,  acusado de comunista por ter encomendado a  Cândido  Portinari amplo painel  para enriquecer o novo prédio do ministério. Um daqueles gorilas foi despachar com Dutra e demonstrou tamanha indignação que, sentado, levantou um dos braços e preparava-se para dar um murro na mesa. O ministro foi rápido no raciocínio: “Se baixar a mão está  preso e reformado!” 

O indigitado general só teve uma saída, comentando como  o gabinete do ministro estava cheio de pernilongos, a ponto dele precisar espantá-los com o punho, que continuou no ar, preparado para acertar um daqueles insetos inexistentes…

Essa historinha se conta a propósito de um senador que entrou na sala de  José Sarney, preparado para um murro na  mesa, mas desistiu por causa de um simples e gélido olhar do ex-presidente  da República. Prender, ele não pode, mas reformar o colega, quem sabe? 

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CHEGA DE FIRULAS

Não dá mais para deputados e senadores ficarem fingindo de elaborar a reforma política, que não será aprovada este ano e provavelmente em nenhum outro. Brincam de alterar o que não querem. E nem podem, tamanha a diversidade de opiniões a respeito de cada um dos itens examinados. Nem votação em listas partidárias, nem financiamento público das  campanhas, muito  menos  redução dos mandatos dos senadores, de oito para quatro anos.  Voto distrital, nem pensar. No máximo poderia ser mudada a data de posse dos futuros presidentes da República e governadores, do primeiro  de janeiro para dez ou quinze dias depois.

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