Dicionário canalha

Sebastião Nery

As civilizações nascem da palavra. Duraram as que fizeram da palavra seu alicerce e caminho. Judaísmo, cristianismo, o que seriam sem a Bíblia? E o islamismo, o budismo? A voz do Oriente ao longo de séculos.

O inesquecível Paulo Ronai catou a palavra na literatura universal:

– “E a palavra, uma vez lançada, voa irrevogavel” (Horacio).

– “A palavra é a única magia. A alma ´é conduzida e regida pela palavra” (Ronsard).

– “Uma palavra fora do lugar estraga o pensamento mais bonito” (Voltaire).

– “A palavra foi dada ao homem para explicar seus pensamentos” (Molière).

– “A palavra foi dada ao homem para disfarçar o próprio pensamento”.(Talleyrand, também francês mas politico):

É preciso respeitar a palavra e seu significado. O melhor retrato de uma civilização, um povo, um governo, é o respeito às palavras. Os que as falseiam acabam desmentidos pela Historia. Como Lula : – “Não houve Mensalão. Houve Caixa-dois”. Ou Dilma : Não vamos tolerar, vamos fazer uma faxina nos mal-feitos”.

Não é “mal-feito”. É “corrupção”, é “roubo”.

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SKAF

O mais canalha dos truques para esconder o verdadeiro significado das palavras é o dos banqueiros e seus bull-dogs e escribas. Não se dizem “banqueiros”, “especuladores”. São (seriam) “o mercado”. Quanto mais sugam e escorcham um pais, um povo, mais alegam que são “o mercado”.

Cortam as aposentadorias, aviltam os salários, obrigam os governos a impedirem qualquer margem de crescimento e chamam isso de “pacote de austeridade”. Quando os bancos quebram, “faltaram provisões” e os banqueiros exigem imediato socorro dos Bancos Centrais. Quando os governos não podem mais pagar os juros escandalosos, “deram o calote”.

Na “Folha”, o bravo presidente da FIESP (Federação das Industrias do Estado de São Paulo), Paulo Skaf, lider da industria brasileira, não varre a verdade para baixo do tapete. Diz o que é, como é :

– “Cada ponto percentual da taxa Selic equivale a R$ 17 bilhões em gastos públicos adicionais. Por outro lado, o governo despenderá neste ano mais de R$ 240 bilhões com juros, enquanto a saúde recebe apenas R$ 70 bilhões e a educação menos de R$ 60 bilhões”.

Também na “Folha”, Eduardo Fagnani concorda:

-“Entre 1996/2003, o gasto social na despesa do governo federal declinou 10 pontos percentuais, e a das despesas financeiras cresceu 17 pontos. De 94 a 2002, na gestão do ex-ditador do BC, a dívida interna pública subiu seis vezes (R$ 109 bilhoes para R$ 660 bilhões), dobrando como proporção do PIB (30% para 60%). Somos líderes planetários em “maior taxa real de juros” e “maior pagador de juros em proporção do PIB”. O que pagamos em 2010 financiaria 63 anos de combate à fome”.

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SARDENBERG

No “Globo”, o Carlos Alberto Sardenberg, pseudônimo da Miriam Leitão, faz o serviço dos banqueiros : – “No quesito dívida, isso que acontece com a Grécia – não ter dinheiro para pagar seus compromissos externos – já aconteceu com o Brasil, México, Coréia do Sul, Rússia, Argentina. Lembram-se dos pacotes da Era FHC? Eram programas de corte de gastos e aumento de impostos para quê? Fazer caixa para pagar dívida”.

“Lembram-se do início do governo Lula? Aumentou o superávit primário – fez quase o dobro do “neoliberal” FHC – para pagar juros e, assim reduzir o endividamento público. Isso mesmo, segurou gastos com a educação e saúde, para pagar juros. Só por que o mercado exigia”?

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ROSSI

O mestre Clovis Rossi, na “Folha”, dá uma lição da crise grega:

– “O fato é que a Grécia, sob intervenção européia, só fez regredir nesse ano e meio, qualquer que seja o indicador para o qual se olhe. Cito um, talvez o mais dramático: o número de suicídios nos cinco primeiros meses do ano aumentou 40% na comparação com os cinco primeiros meses de 2010.

Robert Kuttner (“The American Prospect”) explica: -“Papandreou está cansado de ser o agente da destruição econômica de seu próprio país nas mãos dos banqueiros, Está também cansado da impopularidade política que vem com seu papel de corretor da austeridade”.

Kuttner desconfia, além disso, que o premiê resiste a eventual truque da banca para driblar o corte de 50% na dívida grega, decidida pelos europeus há uma semana…Ele está jogando a única carta que tem: se os banqueiros refugarem no alívio da dívida a que se comprometeram em princípio, a Grécia dará o calote. E Papandreou quer que a decisão seja feita pelo povo grego e não pelos burocratas. Do que se pode acusar Papandreou é de não ter tomado decisão parecida antes”.

“Tudo indica que ele se deixou levar pela infernal gritaria dos mercados de que, se a Grécia não pagasse integralmente sua dívida, estaria condenada aos infernos para todo o sempre – o mesmo cantochão que se gritou no caso da Argentina há dez anos e se revelou falso”.

A diferença é que a Argentina tinha um verdadeiro presidente. E continua com uma presidente verdadeira.

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