Dilema shakespeariano

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Tostão (O Tempo)

Freud disse, cem anos atrás, que não existe observador neutro, totalmente imparcial. Os filósofos de botequim e a ciência moderna falam o mesmo. Somos todos tendenciosos. Galvão Bueno, mais do que os outros. Costumamos pensar, analisar e agir de acordo com nossos preconceitos, preferências e conveniências, às vezes, sem perceber.

O jornalista esportivo, diante das incertezas do futebol, corre atrás de fatos e explicações que justifiquem e aprovem suas opiniões. Torce por suas ideias. “Não falei”, costuma dizer o orgulhoso comentarista de televisão durante as partidas. Quando os fatos contrariam suas opiniões, diz que o futebol é uma caixinha de surpresas.

Hernanes é um bom jogador, uma opção nas posições de volante e de terceiro no meio-campo, como atuou contra a França, junto com Paulinho e Fernando. Mas dizer que o time melhorou, após a entrada de Hernanes, quando a França estava desfigurada e sem marcar ninguém, é uma opinião tendenciosa e/ou de quem não percebe as mudanças durante as partidas. Uma coisa é entrar no início, e outra, nessa situação.

Apesar da claríssima falta cometida por Luiz Gustavo, detalhe (acaso) que mudou a história do jogo, o primeiro gol só saiu porque o volante brasileiro pressionou para desarmar no campo da França, como foi bastante treinado.

Hulk, mais uma vez, foi o mais eficiente dos quatro jogadores mais adiantados. Quando erra, é chamado de grosso. Há também uma insistência em rotular Lucas de craque. Não é. É um bom jogador, coadjuvante no Paris Saint-Germain.

Marcelo foi o melhor atacante, o que criou mais chances de gol. Como dizia o saudoso mestre Armando Nogueira, “quem ataca é atacante”. Sua atuação foi facilitada por Valbuena, que ia para o centro e deixava Marcelo livre para receber a bola. Mesmo assim, o treinador Deschamps não fez nada para corrigir o erro.

Escrevi, no domingo, que Alex, se jogasse hoje, como fazia quando era jovem, seria titular da seleção. O mesmo serve para Zé Roberto, de volante, posição que atuou na Copa de 2006, quando foi escolhido para a seleção do Mundial. Mas não há nenhum motivo para os dois serem convocados hoje. Seria o mesmo se a Holanda chamasse Seedorf. Não dá mais para a seleção. O tempo passou. Como diz a letra de um tango, “não é o tempo que passa; nós é que passamos e não enxergamos o presente”.

Aumentaram as esperanças com a seleção e, paradoxalmente, cresceram as preocupações com Neymar, que, se evoluísse, seria o principal responsável pela melhoria do time. Atuou, mais uma vez, como um jogador comum. Receio que a precoce celebridade o tenha perturbado, o colocado em um dilema shakespeariano, entre driblar e passar, entre fazer um gol de placa e jogar coletivamente, entre ser ou não ser um fenômeno.

PARADA NO BRASILEIRÃO

O Atlético tem hoje, contra o fraco time do Santos, mesmo na Vila Belmiro, uma boa chance de conseguir mais uma vitória e ficar em uma situação melhor no Brasileirão. Com a parada do Nacional, o Galo terá tempo de treinar bastante, após pequenas férias, e recuperar seus principais jogadores para os jogos decisivos com o Newell’s Old Boys. Como vai parar o Brasileirão, e os assuntos serão apenas a seleção e a Copa das Confederações, não vou escrever, nesse período, o comentário que faço, no fim da coluna, sobre os times mineiros.

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3 thoughts on “Dilema shakespeariano

  1. Com todo o respeito ao Tostão, de quem eu estou concordando mais ultimamente, vou tornar a discordar. Na seleção, pra mim, tem que jogar os melhores do momento, independente da idade, e por isso, na minha seleção, hoje, jogaria o Zé Roberto (não tem nenhum jogador mais preparado fisicamente do que ele, no futebol brasileiro), o Alex e o Ronaldinho Gaúcho.

  2. Gilson, concordo com você que o Zé Roberto e o Alex poderiam colaborar muito com a seleção. Quanto ao Ronaldinho, todavia, não dá mais. Já jogou inúmeras vezes pela seleção e, efetivamente, não se vislumbrou, sequer, cinco boas atuações que tenha tido pelo selecionado. Quando se sagrou campeão na copa de 2002, Ronaldinho Gaúcho foi mero coadjuvante dos cracaços, estes sim, Rivaldo e Ronaldo Fenômeno.

  3. Marcos, vc tá esquecendo que o Ronaldinho foi o melhor jogador do mundo por duas vezes, claro que ele teve uma caída e é até normal, ele ainda tem idade para jogar na plenitude da forma. Quanto à seleção, quem jogou bem nas últimas convocações, não esqueça que o Brasil está na 21a posição no ranking da FIFA.
    O Atletico Mineiro vem sendo apontado como o melhor time brasileiro no momento, será coincidência a subida do time e a chegada do Ronaldinho, que é uma unanimidade até entre os jogadores do Atlético.
    Não vamos fazer juízo por ele ter, num determinado período, preferido as farras, convenhamos que qualquer um na idade dele pode fazer o mesmo, mas, negar que ele é “bola”, desculpe não posso concordar.

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