Dilma criou um mundo só dela, onde tudo está sob controle

João Bosco Rabello
Estadão

Na forma, a reaparição da presidente reeleita Dilma Rousseff cumpriu o objetivo de sugerir uma chefe de governo mais consciente da crise econômica e determinada a combater a corrupção – os pontos vulneráveis que marcam o fim de seu primeiro mandato. O conteúdo da primeira entrevista coletiva, porém, trai esse discurso em várias passagens.

Foi uma entrevista caracterizada pela negação – de causas da crise econômica e dos meios para enfrentá-la. A alta dos juros, logo após o fechamento das urnas, é agora atribuída a uma conveniente autonomia do Banco Central, usada para recusar-se a comentar a medida.

Dilma repete o discurso que torna excludentes combate à inflação e emprego ao não se comprometer com a meta da primeira, sugerindo mais uma vez que pretende governar com um pouquinho de inflação.

Coletiviza a dificuldade pessoal e de governo ao abordar o resgate do crescimento. “Não acho que ninguém tenha receita prontinha”, diz sobre o tema, em uma evasiva que é o pior recado para os investidores.

SEM METAS

Para quem entra no quinto ano de um mandato que será de oito, é inquietante ouvir da presidente que não tem uma meta quantitativa de redução de gastos. “Se eu tivesse, dizia tudinho aqui”, afirmou.

Insiste em que não há queda de empregos, desprezando a tendência descendente no cômputo geral, mas especialmente as baixas no setor industrial, e contesta as estatísticas do Ipea sobre o crescimento da pobreza extrema, ocultado durante a campanha, quando os dados já estavam disponíveis.

Continua negando as dificuldades e prejuízos bilionários no campo energético, celebrando o uso das usinas térmicas, mesmo ao custo de agravamento do rombo no setor.

A entrevista sugere que os maus resultados não produziram a autocrítica necessária sobre o primeiro mandato, que registra um rombo recorde de R$ 20 bilhões nas contas públicas, inflação alta, crise energética (negada), juros na casa dos 12%, com viés de alta, aumento das tarifas de gasolina e luz, descrédito internacional e um cenário de corrupção da qual a Petrobrás passou a ser o símbolo.

SEM MUDANÇAS

A fala da presidente remete à leitura de que não pensa o novo ministro da Fazenda sob o prisma da delegação de responsabilidade, prospectando a permanência do conceito centralizador para a próxima gestão.

Tal constatação reforça o sentimento de que pouco adiantará o anúncio de um ministro da Fazenda sem autonomia mínima. Seja quem for o escolhido, fica a impressão, estará submetido às convicções econômicas da presidente, que não parecem ter mudado.

6 thoughts on “Dilma criou um mundo só dela, onde tudo está sob controle

  1. Autoridades dos ESTADOS UNIDOS estão investigando o envolvimento da Petrobras e de seus funcionários em um suposto esquema de pagamento de propinas, segundo reportagem publicada neste domingo pelo “Financial Times” em sua página na internet. Conforme o jornal, fontes familiarizadas com o assunto contaram que o DEPARTAMENTO DE JUSTIÇA dos Estados Unidos abriu uma investigação criminal sobre a empresa, que tem ADRs (do inglês American Depositary Receipt) listados em Nova York, enquanto a Securities and Exchange Commission (SEC), que regula o mercado de capitais americano, está buscando um inquérito civil.

    A reportagem lembra que a estatal, a maior empresa brasileira, é alvo de investigações pela Polícia Federal e pelo Ministério Público que podem culminar na revelação de “um dos maiores casos de corrupção da história do país”. O jornal também destaca que muitos dos problemas apontados na Petrobras teriam ocorrido quando a presidente reeleita Dilma Rousseff estava à frente do conselho de administração da empresa.

    “As autoridades dos Estados Unidos estão investigando se a Petrobras ou seus funcionários, intermediários ou prestadores de serviços violaram a Lei de Práticas Corruptas no Exterior [tradução livre de Foreign Corrupt Practices Act], uma lei anticorrupção que torna ilegal subornar funcionários estrangeiros para ganhar ou manter negócios”, indica a reportagem, citando as mesmas fontes como origem da informação.

    No Brasil, segue o texto, promotores alegam que a estatal e seus fornecedores superfaturaram custos de projetos e aquisições em “centenas de milhares de dólares e repassaram parte dos recursos para políticos da coalizão governista liderada pelo Partido dos Trabalhadores”. Segundo o Financial Times, o Departamento de Justiça e a SEC declinaram de comentar o assunto e a Petrobras não respondeu o pedido de entrevista.

  2. Valeu, João Bosco Rabello…

    Me fez lembrar texto do jornalista Elio Gaspari, na edição do último domingo, no O GLOBO, em artigo “O Lado Steve Jobs De Dilma”, faz alusão ao que denominou, como comparação, o “campo de distorção da realidade”, em que opera a presidente que governa um país de 202 milhões de habitantes.

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