Dilma encontrou um novo aliado: ndio da Costa

Pedro do Coutto

Nesta altura dos acontecimentos, Dilma Roussef no poderia ter encontrado melhor aliado do que aquele que o destino reservou para sua campanha presidencial: ndio da Costa, candidato a vice-presidente na chapa de Jos Serra. Surpresa? Nem tanto para os que analisam poltica serenamente, sem paixo, e so capazes de desenvolver raciocnio em dois ou mais estgios.

Vejam s. A afirmativa que fez no site do prprio PSDB, a respeito de uma ligao do PT com as FARC e o narcotrfico, na realidade somou pontos para a ex-chefe da Casa Civil. Em primeiro lugar envolveu Jos Serra, candidato presidncia da Repblica, a quem no consultou sobre a iniciativa. Em segundo lugar no conseguir provar tal acusao, inclusive gravssima. Em terceiro plano, suas palavras terminaram por conduzir o debate exatamente para o campo em que Serra no deseja que venha a ser travado. Sobretudo porque fornece munio a Lula e abre espao para que revide a acusao e exija o que no caso essencial a respectiva comprovao.

Foi um desastre. Basta ler as edies de O Globo e da Folha de So Paulo de ontem, segunda-feira. E tanto foi desastrosa a afirmativa que aliados de Serra como Alosio Nunes Ferreira, Orestes Qurcia, Juta Magalhes, Roberto Freire, presidente do PPS, e Rodrigo Maia, presidente do DEM, legenda de ndio da Costa, vieram a pblico condenar o gesto.

O prprio Jos Serra, principal atingido pelo gol contra, negou-se a comentar o episdio. Talvez aja no sentido de criar um clima de constrangimento para que ndio da Costa se veja na situao de abrir mo de sua candidatura. Entretanto a coligao PT-PMDB quer que ele continue.

Pois no leva noo de poltica em dimenso mais ampla do que a da esfera estadual. O presidente Lula certamente deseja mant-lo de p no rinque. No quer que o PT parta para o nocaute. Assim como na campanha de 2008, nos Estados Unidos, o candidato a vice de Obama, Joe Biden, procedeu no debate da TV com a vice republicana Sarah Palin. O nocaute significa a substituio por algum outro nome, no caso brasileiro, melhor que o de ndio da Costa. O governo no precisa tomar a iniciativa de arriscar. Deixa ficar como est. Problema para o PSDB-PPS-DEM.

Imaginem os leitores se sai ndio da Costa e entra Itamar Franco, como Acio Neves chegou a sugerir. Para Dilma Roussef, o atual vice da oposio muito melhor. Olha s: o responsvel pela comunicao eletrnica do PSDB, Sergio Caruso, disse FSP que o deputado do DEM no fora escalado pela direo oposicionista a bater no PT dessa forma. O presidente do PT, Jos Eduardo Dutra, anunciou estar estudando o acontecimento para ver se a legenda processa Indio da Costa. No creio que o faa. Para qu? suficiente dirigir uma interpelao atravs da Justia Eleitoral.

O erro de ndio da Costa inevitavelmente vai se incorporar aos equvocos que candidatos cometem ao longo de campanhas eleitorais. O mais conhecido ocorreu nas eleies de 1945, quando o brigadeiro Eduardo Gomes afirmou, em palestra numa universidade paulista, que nas urnas de 2 de dezembro no queria o voto dos marmiteiros.

Marmiteiro no era s o trabalhador que, na bela interpretao da cantora Marlene, s 11 horas da manh acendia o fogo para a comida esquentar. Era sinnimo de picareta, desonesto, algum que vivia de golpes em torno de obras e fornecimentos pblicos. Levava comisses, muitas vezes em nome de outros de quem se tornava prximo. Pessoa falsa. Mas os operrios que, ainda como no samba, balanavam nas portas dos trens da poca, interpretaram a frase como um agresso, um menosprezo. Foi a interpretao que predominou nas urnas. Eurico Dutra foi eleito disparado.

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