Dilma está certa: pimenta nos olhos dos outros é refresco

Pedro do Coutto

O título inspira-se, ao mesmo tempo, no pronunciamento da presidente Dilma Rousseff em Bruxelas, defendendo o rumo estruturalista da economia e rejeitando o monetarismo, e na marchinha popular, grande sucesso no carnaval de 1952 no Rio de Janeiro. Passou o tempo, mas o humor, fortemente verdadeiro, não perdeu atualidade. Tampouco o debate entre estruturalismo e monetarismo que marcou o governo Juscelino Kubitschek.

Excelente reportagem de Clovis Rossi, Folha de São Paulo de terça-feira, focalizou amplamente o pronunciamento da presidente brasileira na Bélgica e sua entrevista à imprensa ao lado de Herman Van Rompuy, presidente do Conselho Europeu. Foto belíssima de Thierry Roge, edição primorosa do jornal.

Clovis Rossi iniciou o texto recorrendo à ironia, mas dela se afastou ao percorrer as teclas, pois sem dúvida foi importante a definição colocada por Rousseff. Ela afirmou que a experiência demonstra que ajustes fiscais extremamente recessivos só aprofundam o processo de estagnação e desemprego. Dificilmente pode-se sair de uma crise sem aumentar o consumo e o nível de investimento.Ela não se dirigiu apenas ao cenário europeu, o que já seria importante. Sinalizou sobretudo o plano interno brasileiro. Daí seu empenho em reduzir a taxa de juros Selic, agora na escala de 12% ao ano.

Num terceiro vértice do triângulo político, indiretamente, manifestou seu apoio à política do presidente Barack Obama. Que se volta para a geração de empregos. Dilma poderia, faltou a seu lado um assessor mais experiente, ter-se referido ao presidente Franklin Roosevelt que assumiu o governo dos EUA em 33, herdando a recessão de 29, e entregou a Casa Branca a Harry Truman, seu vice, com o país liderando a economia internacional. Morreu em abril de 45, menos de um mês antes do fim da guerra, depois de se reeleger em 36, 40 e 44. Explico: na sua última vitória foi mudar a Constituição americana. A reeleição ficou limitada a uma única.

Roosevelt teve como meta principal o desemprego ao mínimo, elevou substancialmente os salários, como lembrou recentemente o atento e lúcido leitor Flávio Bertolotto. Além disso, pagava antecipadamente o fornecimento dos materiais de guerra. Quando ela terminou na Europa em maio e na Ásia em agosto de 45, as empresas haviam recebido 3,2 bilhões de dólares antes de fornecerem os equipamentos, inclusive aviões. Lucraram além da expectativa, mas mantiveram o emprego no alto.Três bilhões em 45, corrigidos, são 300 bilhões de dólares hoje. Deixa para lá. Vitória da democracia, êxito total do estruturalismo.

Em nosso país, nos anos dourados de Janeiro de 56 a janeiro de 61, o confronto ideológico ocorreu com intensidade. JK rompeu em 58 com o FMI nos jardins do Palácio do Catete (eu era repórter do Correio da Manhã ) e em abril de 59 demitiu Lucas Lopes do Ministério da Fazenda e Roberto Campos da presidência do BNDE, hoje BNDES.

Eles – está no livro de Hermógenes Príncipe – propuseram que fossem paralisadas as obras de Brasília. Juscelino disse apenas o seguinte: não posso passar à história como autor de elefantes brancos. O nível de emprego era alto. O do salário mínimo maior ainda: 1 mil e 700 reais a preços atuais, cálculo de Flávio Bertolotto.

Mas eu disse que pimenta nos olhos dos outros é refresco. Leio no artigo do economista Rodrigo Constantino, O Globo de 4 de outubro, haver necessidade de demissões para enfrentar a crise. A demissão dos outros, por certo. Não a dele. Esquece que todos são seres humanos, têm família e precisam poder viver.

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