Dilma na encruzilhada da palavra

João Gualberto Jr. (O Tempo)

Quando nem na festa se acerta, o momento, realmente, requer zelo e benzedura. A tarefa era fácil: o time para o qual (digo que) torço vence um campeonato importante, e eu, autoridade pública, desejo saudar os atletas e os torcedores governados. Basta emitir uma nota de celebração. Não tem muito como errar. Mas o deslize foi jocoso.

Afirmou a presidente no festivo comunicado: “Aprendi a gostar de futebol indo, ainda criança, ao estádio do Mineirão assistir aos jogos do Atlético”. Como é de 1947, Dilma fará 66 anos em dezembro. Em setembro de 1965, quando foi inaugurado o Magalhães Pinto, tinha quase 18 anos e talvez já estivesse totalmente envolvida em outras urgências que não a presença na arquibancada.

O novo papa, sacerdote que congrega as esperanças de boa parte dos católicos por uma nova Igreja, visitou o Brasil. Foi a primeira viagem internacional dele, homem simples, de hábitos módicos, que prega a humildade e a atenção aos mais pobres. Seus discursos honram a escolha do nome Francisco, inédita no Vaticano.

Ao recepcioná-lo oficialmente, a presidente buscou sintonizar as prioridades do pontífice às de seu governo. Misturou Platão com penico, e seu discurso soou como um guincho de trompete na pausa da orquestra. O papa pouco deve ter entendido as loas ao Bolsa Família, os milhões de pessoas fora da miséria e as autorreferências. Se tivesse gostado, teria topado, enquanto chefe de Estado que é, firmar com Brasília uma espécie de parceria espiritual em favor dos desfavorecidos. Talvez Francisco tenha saído com uma impressão mais nítida – embora ainda míope – de que há mais similaridades entre a petista e a viúva Cristina, a quem costuma torcer o nariz.

“NULIDADE”…

Aí veio a entrevista à “Folha de S.Paulo” em que Dilma declarou que “Lula não vai voltar porque nunca saiu”. O que fez a oposição? Chamou-a de “nulidade” e “marionete” do ex-presidente e padrinho. Não foi o primeiro disse que disse sobre a chefe do Planalto que nasceu na imprensa. Lembre-se a suposta “transigência” com a inflação em nome do crescimento, deixada escapar em uma reunião dos Brics, na África do Sul, neste ano, que teria causado furor aos mercados”.

Pois, se crescer ou puxar a rédea é um dos dilemas a se enfrentarem até outubro do ano que vem, outra encruzilhada dura passa pela palavra. E convém evitar mais tropeços, a todo custo.

No caso de quem almeja mais um mandato ao cargo máximo da República, silêncio não é remédio quando se vai mal da língua. Comunicar é preciso – vide as lições de Francisco. Mais do que isso, é imperativo afinar as palavras aos anseios dos brasileiros para que eles sejam tocados e conquistados.

Que Dilma não tem o tom do palanque do padrinho, isso é coisa velha. Mas um ajuste fino no tom é possível, com muita fonoaudiologia, muito “media training” e “ghost-writers” menos aloprados.

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