Dilma não pode ser refém da corrupção: é um crime altamente impopular

Pedro do Coutto 

Na entrevista à apresentadora Patrícia Poeta, Fantástico de domingo, reproduzida no dia seguinte pelo Globo, Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo, neste caso matéria assinada por Luciana Nunes Leal, a presidente Dilma Rousseff afirmou que não é refém da base aliada no Congresso Nacional muito menos compactua com a corrupção, embora considere ser difícil exterminar o problema. Tanto assim que ela revelou rejeitar o termo faxina, uma vez que seu uso pode transmitir a idéia de que a questão é simples, passageira.

Tem razão, é complexa. Sobretudo porque cresceu muito a partir do governo Collor, contribuindo para a quase formação de uma cultura que rejeita as pessoas íntegras. São contraditoriamente vistas sob desconfiança, discriminadas. O comportamento que outrora era exceção tornou-se a regra.

Simples detectar, basta cotejar os bens dos que ocupam posições públicas com os seus rendimentos. A Controladoria Geral da União não faz isso porque não quer. Mas o desafio essencial não está na redução dos parceiros do roubo a zero. Isso ninguém conseguiu ao longo da história, nem conseguirá. Mas é plenamente exequível contê-lo e reduzi-lo. Pois no nível que atingiu devora verbas oficiais e com isso submerge o país na falta de solução dos nossos problemas. Esse o conteúdo não tão claramente explícito, mas transmitido de forma menos incisiva pela presidente da República.

No período Fernando Collor, tivemos PC Farias. Itamar Franco atravessou ileso o desfiladeiro. Fernando Henrique Cardoso conseguiu aprovar a emenda da reeleição. No governo Lula da Silva, houve o mensalão, houve José Dirceu, Roberto Jefferson, Marcos Valério, Delúbio Soares. Dose para dinossauro. O que impressiona é que a corrupção é um fato, embora seja altamente impopular.

Na manhã de domingo, em seu programa semanal de debates e opiniões na Rádio Tupi, o jornalista Haroldo de Andrade Júnior realizou juntos aos ouvintes, são 380 mil por minuto, uma pesquisa sobre o que achavam do comício programado para o dia 20, no dentro do Rio, exatamente contra a corrupção. Pelo telefone, 95 por cento afirmaram-se favoráveis à manifestação. Pela Internet, o índice de aprovação bateu 97 por cento.

O resultado do levantamento foi emblemático: a corrupção é impopular. Portanto, eis aí um dado capaz de fortalecer o desencadeamento de ações concretas contra ela. De um lado, a corrupção, de outro a sociedade.

Exatamente por isso, penso eu, é que a presidente Dilma Rousseff não pode ser refém da chamada base aliada no Congresso Nacional. Não pode ser refém porque – esta é que é a verdade – senadores e deputados precisam muito mais da chefe do executivo do que a presidente da República deles. Se as matérias colocadas à discussão forem legítimas, do interesse do país, os que votam por motivações estritamente pessoais, não poderão fazê-lo porque, em tal hipótese, estarão jogando suas reeleições no lixo.

O governo tem meios de sobra para lhes cobrar o posicionamento adequado, já que o inadequado levará à colisão com os eleitores. Além do mais, se alguma facção desejar romper, aparecerá imediatamente outra corrente, de outras legendas, para substituí-las. Tal processo lembra a resistência francesa contra a ocupação nazista. Havia uma frase corrente entre os maquis: companheiro, se você tombar, alguém sai da sombra e ocupa o seu lugar.

Se tal mecânica funcionou sob uma situação de risco físico total, não  é por acaso que o processo substitutivo se impõe sempre. O episódio Jean Moulin, na mesma França de 1941, é típico. Torturado e morto por Klauss Altman, o carniceiro de Lyon, como o nazista era conhecido, o chefe da resistência heróica foi substituído. E a resistência, em junho de 44, estava firme nas praias da Normandia apoiando o desembarque das forças democráticas comandadas por Eisenhower. Foi uma ação legítima. Venceu e varreu o nazismo da história. No Brasil, pode-se tentar diminuir a corrupção ao mínimo.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *