Dilma Rousseff revive Graciliano Ramos: Memórias do Cárcere

Pedro do Coutto

Foi uma reportagem de importância histórica excepcional a da jornalista Sandra Kiefer, Correio Braziliense de domingo, manchete de primeira página, publicando o depoimento de Dilma Rousseff à Comissão de Direitos Humanos do Rio Grande do Sul, em 2001, revelando as torturas que sofreu em Belo Horizonte, no Rio e São Paulo quando foi presa em 1972 e vagou pelos porões da violência e do sadismo. Permaneceu dois anos encarcerada, ora aqui, ora ali, sobrevivendo a uma atmosfera terrível na qual as ameaças da violência já se tornavam um suplício antecipado.

Creio que pela primeira vez no mundo alguém que chegou à presidência da República ou que chegou a integrar um governo democrático revela os sofrimentos que lhe foram impostos. Nelson Mandela, um homem santo, passou 27 anos na prisão na África do Sul. Dela saiu para se eleger presidente pelo voto popular. Nenhum impulso de revanche ou desforra. Um santo, sem dúvida. Sua resposta ele deu com sua vitória nas urnas. Dilma também respondeu com seu extraordinário êxito político. Mas, ao contrário de Mandela, deu seu depoimento, agora publicado com enorme destaque.

Na segunda-feira, os três maiores jornais do país, O Globo, O Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo, reproduziram as partes mais fortes do texto de Sandra Kiefer. No Globo, assinou Amanda Almeida. No Estadão, Marcelo Portela. Na FSP, saiu sem assinatura.

Dilma Roussef, com o depoimento de Porto Alegre, reviveu Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, preso pela ditadura Vargas no Estado Novo, e Dostoievsky, prisioneiro do Czar, autor de Recordações da Casa dos Mortos. São duas obras de peso extraordinário, momentos eternos da consciência humana. Sobretudo porque não pode haver nada mais hediondo do que a tortura. Subjugar um ser humano e torturá-lo é algo demasiadamente infame.

Na verdade, suponho, a consciência do torturador o perseguirá à eternidade. Ele nunca conseguirá perdoar a si próprio, seja por qual justificativa for. Não conseguirá olhar nos olhos de sua mulher, de seus filhos, seus netos. Será para sempre prisioneiro do próprio remorso.

Neste momento, em que escrevo, me lembro de Nelson Rodrigues, meu amigo , e que, nas suas Confissões, publicadas no Globo, que sucederam as Memórias, iniciadas no Correio da Manhã, tentava obscurecer as torturas dos anos de chumbo. Até que seu filho Nelson, Nelsinho, foi preso na Polícia do Exército, quartel da Rua Barão de Mesquita. Preocupou-se intensamente, é claro. Era o governo Médici.

Então, numa entrevista a Villas Boas Corrêa e Antonio Carbone, O Estado de São Paulo, classificou a tortura como a coisa mais hedionda que existe na Terra. No início do artigo usei o adjetivo inspirado naquela matéria que passou a significar um marco de ruptura entre um dos maiores apoiadores do movimento desencadeado em 64 e os métodos de repressão para obter confissões. O ciclo militar de poder perdia, naquele momento, sua principal ponte de sustentação junto à classe média urbana. As Confissões saiam simultaneamente – ia esquecendo este detalhe – no Globo e também no Estado de São Paulo.

Algo semelhante ao que ocorreu com o presidente Lyndon Johnson, no episódio produzido no Golfo de Tonquim, guerra do Vietnã. O governo de Washington montara uma farsa, um falso ataque a seus navios. Isso numa noite. Na tarde do dia seguinte, o comentarista William Conkrite, adorado pela classe média, denunciou a simulação. Ao ouvir o comentário, Johnson disse: perdi Conkrite, perdi a classe média.

O movimento que derrubou Goulart havia perdido Carlos Lacerda em 68. Perdeu Nelson Rodrigues em 71 para 72. Ficou sem base popular. Submergiu no arbítrio e na tortura, que agora a presidente Dilma Rousseff revive como personagem e testemunha.

A Comissão da Verdade 2012 ganhou nova dimensão.

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