Dilma sinaliza que nada tem com os réus do mensalão no STF

Pedro do Coutto

Em recente entrevista à imprensa em Porto Alegre, logo após assinar o Pacto Sul Contra a Miséria, a presidente Dilma Roussef afirmou que apoia as marchas contra a corrupção que se realizam no país. As manifestações, incluindo os protestos, são ao mesmo tempo consequência e elemento fortalecedor do regime democrático do Brasil – acrescentou.

A reportagem, importante, foi de autoria de Naira Hoffmeister.Importante porque, no fundo, revela um compromisso da presidente da República para consigo mesma e seu governo. Como acentuo sempre, não basta se ver o fato, mas principalmente identificar o que está implícito no fato. Se ela apóia  as concentrações contra a corrupção, deixa claro que a corrupção a incomoda, não passa ao largo dela, e, na medida em que condena a prática, está diretamente condenando seus autores.

A colocação é pertinente, sobretudo porque em seu governo já identificou vários episódios que culminaram com a demissão dos responsáveis. São os que têm volúpia para enriquecer de qualquer modo, legal ou ilegal, e, por isso mesmo, rompem com a ética e o direito. São perigosíssimos. A demissão, em tais casos, não deveria fechar as cortinas do espetáculo, mas – como costuma dizer meu amigo Humberto Braga – ensejar a entrada do Ministério Público no palco. Sim. Porque Roberto Gurgel, como Procurador Geral da República, representa toda a sociedade, não apenas a administração federal. O mesmo raciocínio se aplica às Procuradorias Federais nos Estados.

Um caso criminoso como o da explosão do restaurante Filé Carioca, no centro do Rio, merece investigação ampla, pois ao que os sintomas indicam a corrupção acendeu o estopim da tragédia, emitindo alvarás provisórios em sequência, esquecendo a licença definitiva. O que isso representa? Este é um lado da questão. Não o único. Existem muitos outros ângulos e episódios.

O processo do mensalão, o principal. Estourou em 2005 com a entrevista de Roberto Jeferson à jornalista Renata Lo Prete, da Folha de São Paulo. Acusou frontalmente o ministro José Dirceu, quem em consequência foi demitido da chefia da Casa Civil pelo presidente Lula e teve o mandato cassado. Mandato cassado teve também Roberto Jeferson. Este, numa atitude inédita, para afundar José Dirceu, atacou a si próprio. Claro. Pois sustentou ter recebido do ex-ministro 4 milhões de reais para a campanha eleitoral de seu partido, o PTB. Não revelou, pelo menos até agora, qual o destino do dinheiro. À luz da lógica, impossível sua absolvição. Confessou diretamente a prática de um crime.

Impossível a absolvição de Marcos Valério e Delúbio Soares, operadores e distribuidores dos recursos captados através de um sistema publicitário e de empréstimos bancários de fantasia. Demitido e cassado, impossível também a absolvição de Dirceu. Marcos Valério inclusive, chegou ao ponto de propor a inclusão do ex-presidente Lula no rol dos acusados. Duplamente impossível sob o prisma que adotou.

Em primeiro lugar a denúncia cabe ao Ministério Público. Não incluiu Lula. Em segundo porque se Marcos Valério nega a existência do mensalão, como pode propor a inclusão do ex-presidente no que diz não existir? Não há dúvida. Como também, agora com as declarações de Porto Alegre, Dilma não deixou dúvida de que não é de seu interesse, tanto pesoal quanto político, que o Supremo venha a adotar digamos, uma posição flexível na apreciação dos fatos. Pelo contrário. Os acusados têm razões para se preocupar.

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