Diminuir a diferença entre as classes sociais é o maior desafio da China

Gunter Schubert é catedrático de Greater China Studies pela Universidade de Tübingen, considerado um dos maiores estudiosos da evolução política, econômica e social da China. Nessa entrevista ao site alemão Deutsche Welle, Schubert fala sobre a atual conjuntura chinesa.

 Gunter Schubert

– Xi Jinping assumiu a liderança do partido comunista chinês há quase quatro meses, e agora, como já era esperado, tornou-se presidente do país. Pelo que ele tem dito e feito nos últimos meses, é possível deduzir em qual direção conduzirá o país?

Isso ainda não está claro. É certo que Xi sinalizou, em vários discursos públicos nos últimos meses, que a China precisa de um novo processo de reforma econômica. Com isso, diferiu significativamente do governo anterior, de Hu Jintao e Wen Jiabao. Mas esses são apenas indícios, ainda não associados a um programa político. É preciso aguardar para ver até que ponto será realmente possível se desviar do que fizeram seus antecessores nos últimos dez anos.
– Que margem de liberdade Xi Jinping tem para tomar decisões num sistema de “liderança coletiva” no qual, por exemplo, já em 2011 havia um plano quinquenal?

Não serão tanto os planos quinquenais que limitarão sua liberdade de agir, mas a estrutura da liderança de Estado e de partido. É um sistema muito bem calibrado, no qual os políticos e quadros de liderança estão interligados horizontal e verticalmente em redes de relações altamente complexas. Dessa forma, alguém na posição de Xi não pode mover muita coisa. No entanto, a história sempre ensina coisas novas. Não está fora de cogitação ele utilizar do seu carisma para tentar trazer os membros do Politburo e do Comitê Permanente para o seu lado – isso, se ele tiver uma agenda clara, o que não parece ser o caso, no momento.

– Quanto à política externa, existem disputas territoriais com o Japão no Mar da China Oriental e com vários vizinhos sul-asiáticos no Mar da China Meridional. Em sua opinião, como Xi Jinping vai se posicionar a respeito?

Ele se posicionou com relativa clareza, até porque a política externa chinesa é sempre clara nesses assuntos. Essas questões da integridade territorial, assim como de preservação dos interesses nacionais, são variáveis independentes na política chinesa. Aqui a linguagem é inequívoca. Desse modo, compensam-se parcialmente as imprecisões na política interna com os assim chamados “êxitos” na política externa. Pois, ao final das contas, não há como ignorar a China, é sempre preciso chegar a algum acordo com ela.

– A seu ver, quais são os maiores desafios para o novo governo?

São essencialmente os mesmos desafios da era Hu Jintao: o que é indispensável combater na China é o abismo de classes. Certas vozes acusam os dois predecessores, Hu Jintao e Wen Jiabao, de terem deixado para traz uma década perdida. Eu não vejo a coisa assim. O governo fez muito, no sentido de abastecer as populações rurais e semiurbanas com bens públicos. Ele introduziu uma mudança de paradigma, ao deslocar fundos das cidades para o campo, com o fim de estimular o desenvolvimento, expandir os serviços sociais, melhorar a infraestrutura rural e, acima de tudo, também avançar com a urbanização. Tudo isso com o objetivo definido de aplainar o abismo social entre a cidade e o campo e reduzir a migração interna. Ao mesmo tempo, também continuar a modernizar as cidades, com a integração da mão-de-obra migrante. Essa é uma agenda a que Xi Jinping deve forçosamente dar seguimento, pois é aí que estão as mais sérias dificuldades para o sistema político.

(transcrito do Diário do Centro do Mundo)

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