Dinastias nada republicanas nem democráticas

Sandra Starling

Quando o PT começou a participar de eleições, em 1982, realizamos inúmeros seminários para discutir programa de governo, conjuntura política e participação popular. Recordo-me bem de que o excelente professor e renomado sociólogo mineiro Otávio Dulci deu-nos, na ocasião, uma aula sobre as “famílias governamentáveis” de Minas Gerais, demonstrando como continuara concentrado o poder no Estado, mesmo após a proclamação da República. Ficamos todos boquiabertos com a prática da exclusão política, acompanhada da usual marginalização econômica. Havia sempre descendentes de sobrenomes famosos a mandar no território mineiro.

Roseana, dinastia Sarney

A partir daí, e no período em que tive vida pública, pude notar que as poucas mulheres eram eleitas em função de pertencer a certas famílias (Roseana Sarney seria o protótipo) ou por serem esposas de políticos famosos, que as promoviam quando eles próprios, por alguma razão, ou não podiam se candidatar ou precisavam ocupar ao mesmo tempo duplo espaço público (este foi, por exemplo, o caso de Esperidião Amim, quando, eleito senador por Santa Catarina, lançou sua mulher, já deputada federal, ao governo, para fazê-la, dois anos depois, prefeita de Florianópolis, fincando estacas e marcando assim seu território de mando).

Quase todas as minhas colegas entre 1991 e 1998, na Câmara dos Deputados tinham essa origem que denominaria “dinástica”, valendo-me do ensinamento do Mestre Aurélio: “Série de soberanos pertencentes a uma mesma família”. Entre os homens, à época, a coisa era diferente: um zé qualquer podia alçar voo próprio na política do país, a partir de seus méritos, e virar, de repente, até presidente da República, como ocorrera, por exemplo, com Juscelino Kubitschek.

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ESTÁ PIORANDO

Verifico atualmente que a coisa anda piorando. Agora, homens e mulheres tomam o atalho da vida pública a partir de seus parentescos com gente já famosa na política. Em Santa Luzia, por exemplo, onde voto, há uma série de candidatos “fulano de tal” em que o “tal” é o nome do pai de quem ele pretende herdar a cabrestagem.

Mas como dizem que os discípulos sempre superam os mestres, a fúria da transmissão dinástica atingiu a esquerda, em especial o PT, de maneira impressionante, em todo o Brasil. Na nova safra de políticos petistas vão se consolidando filhos, esposas e irmãos dos ex-deputados federais e ex-prefeitos (inclusive na capital) que vão passando o bastão.

Aliás, onde sou eleitora, verifico que a candidata petista é irmã de um deputado federal com base eleitoral na região de Venda Nova. Dizendo-se professora luziense, nunca foi vista tão bonita quanto aparece nos cartazes colados por toda parte…

Quando as dinastias se consolidam,  o povo, sente-se traído no direito democrático e republicano de escolher quem quiser.

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