Dirceu acusa elite, mas esquece que foi Lula quem o demitiu

Pedro do Coutto

 
Em pronunciamento na Fundação Perseu Abramo, em São Paulo, transmitido pela Internet – objeto de reportagem de Tatiana Farah, O Globo, e da Folha de São Paulo, não assinada – o ex-ministro José Dirceu, em relação à pena em que foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal, afirmou ser o principal alvo do ódio e da inveja de setores da elite do país. Estes setores – acrescentou – não se conformam com a eleição do presidente Lula, com o papel que ele tem no mundo. Não se conformam com a vitória do PT e com a eleição da presidente Dilma Rousseff. 

A afirmação é contraditória, pois ao mesmo tempo em que vagamente se apresenta como vítima da elite, esquece que foi o ex-presidente Lula quem o demitiu da chefia da Casa Civil. Logo, indiretamente, está culpando Luís Inácio Lula da Silva de ter feito o jogo da elite (cujo conservadorismo ele ataca)  pela situação em que se encontra. Omite que foi o escândalo do mensalão que o fez ter o mandato de deputado cassado pela maioria absoluta da Câmara Fede4ral. As reportagens de O Globo e da FSP foram publicadas nas edições de 11 de setembro. A cassação do mandato de Jose Dirceu ocorreu em 2005. O ex-ministro, de acordo com as matérias publicadas, sustenta que, condenado pela Corte Suprema, pretende recorrer à OEA e às Cortes Internacionais de Direitos. 

Considera-se um perseguido político. Mas perseguido por quem? Ou por quais entidades e órgãos públicos? Trata-se de extremo absurdo atribuir ao STF o papel de seu perseguidor. “Eu vou continuar me defendendo, defendendo o PT e nossos governos”. Dirceu, assim falando, inclui-se como o membro da administração federal.
Esquece que ele, na verdade, é o derrotado maior  do episódio do mensalão. Era, de fato, o primeiro ministro do governo Lula, que o chamava de capitão do time. Mas, mesmo assim, foi o autor do decreto que o demitiu do cargo. Logo, motivos houve para levar o presidente da República à tal decisão. Pensar o contrário, como procede Dirceu, corresponde a acusar Lula da prática de um ato injusto, além de ilegítimo, consequência da pressão da elite.
LULA NEM SE MEXEU

Não faz sentido. Além de exonerá-lo, Lula não moveu qualquer esforço junto à base parlamentar que o apoiava para evitar que seu mandato fosse cassado pelo voto da maioria absoluta daquela Casa do Congresso.
 

Mas eu disse, sem entrar no mérito do processo criminal a que responde, no plano estritamente político, Dirceu foi o grande derrotado pelo mensalão. Pois em consequência do mensalão e da demissão, a ministra Dilma Rousseff foi deslocada da pasta de Minas e Energia para a chefia da Casa Civil. E foi a nomeação para a chefia da Casa Civil que levou Lula a lançá-la como candidata, não só do PT, mas também do PMDB, à presidência da República em 2010. O apoio de Lula, claro, foi decisivo para a vitória de Dilma nas urnas. Não fosse o mensalão, claro, seria José Dirceu, e não Rousseff, o candidato de Lula à sua própria sucessão.
Tivesse isso se materializado, hoje, sem dúvida, seria Dirceu, e não Dilma, o presidente da república. Dirceu estaria em plena campanha pela reeleição. Sua derrota, à luz da história, está sendo enorme. Em vez de se encontrar presidindo o paias, situa-se em árdua luta, que  pode deslocar para o campo internacional, no sentido de evitar sua prisão. Em vez do Planalto poderá até ser privado da liberdade. Dirceu foi o construtor de sua própria contradição.

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6 thoughts on “Dirceu acusa elite, mas esquece que foi Lula quem o demitiu

  1. Queima de arquivo na Casa Civil do José Dirceu e do Toffoli.

    Documentos com questionamentos da Procuradoria Geral da República (PGR) ao então ministro José Dirceu sobre o mensalão desapareceram da Casa Civil. O órgão informou ao GLOBO não ter mais em seus arquivos o processo com a tramitação interna do ofício 734/2005, em que o então procurador-geral Cláudio Fontes perguntava a Dirceu, em 13 de junho de 2005, sobre denúncia do deputado Roberto Jefferson (PTB) de pagamento de propina a deputados do seu partido, em troca de apoio político ao governo Lula. Dirceu respondeu três dias depois, por meio do aviso 590/2005.

    O GLOBO pediu acesso ao processo por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) e também diretamente à assessoria da Casa Civil. À época do ofício, o subchefe para Assuntos Jurídicos do órgão era Dias Toffoli, atual ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Quando Dirceu foi questionado pela PGR em outras ocasiões, Toffoli atuou na defesa do ministro, como mostram documentos da Casa Civil aos quais O GLOBO teve acesso.

    No mesmo ano em que o mensalão foi denunciado (2005), Toffoli formulou a resposta oficial de Dirceu, quando a PGR abriu procedimento para investigar viagem do ministro a Minas Gerais, para inaugurar o Instituto Minas Cidadania. A PGR apurava se a viagem, custeada pelo poder público, poderia ter sido realizada com “propósitos eleitorais”. Toffoli também participou da formulação de defesa de Dirceu quando a PGR pediu acesso a documentos de compra com dispensa de licitação na Casa Civil. Atuou ainda quando Dirceu foi convocado pelo Senado para falar sobre a transformação da Infraero em sociedade mista. Ele recusou o convite.

    Os questionamentos enviados por Fonteles aos principais envolvidos no escândalo estão na origem do processo do mensalão, que resultou na apresentação de denúncia da Ação Penal 470. No ofício enviado a Dirceu, Fonteles perguntou se ele participara de reunião com Jefferson, na qual o deputado teria lhe contado sobre pagamentos de Delúbio Soares (tesoureiro do PT) a políticos do PTB. “Aconteceu a conversa?”, escreveu Fonteles. “Em caso positivo, a conversa deu-se nos termos postos na reportagem?”, continuou, mencionando texto publicado pela “Folha de S. Paulo” sobre o tema. No aviso 590/2005, obtido pelo GLOBO na PGR, José Dirceu respondeu de forma lacônica às perguntas. “Não” e “Prejudicada”, respectivamente.

    “O documento não tem registro oficial na Casa Civil. Procedemos uma revisão manual, pasta por pasta, folha por folha de todos os avisos do ano de 2005. Ao final desta busca, só podemos reiterar que o citado documento não tem registro de entrada ou de saída na Casa Civil”, escreveu a assessoria da ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann. O órgão informou que fará consulta formal à PGR sobre o documento.

    O GLOBO perguntou a Toffoli se ele auxiliou Dirceu a responder a questionamentos da PGR sobre o mensalão. Fez a mesma pergunta a Dirceu. Os dois informaram que não se manifestariam. No início do julgamento do mensalão, o então procurador-geral da República, Roberto Gurgel, cogitou questionar a participação de Toffoli , devido à sua condição de ex-advogado de Dirceu e assessor na Casa Civil na época em que o petista teria cometido os crimes denunciados no processo. (O Globo)
    Transcrito do Blog do Coronel.Coturno Noturno
    em 12.09.2013.

  2. Lula não demitiu ninguém !

    Dirceu e outros Cumpanheiros pediram demissão.

    Revendo a História do Mensalão

    http://memoriaglobo.globo.com/programas/jornalismo/coberturas/mensalao/a-demissao-de-jose-dirceu.htm

    A demissão de José Dirceu foi em 16 de Junho de 2005

    Quem quiser ver tem até vídeo da Globo

    Dois dias depois do depoimento de Roberto Jefferson à Comissão de Ética, o ministro da Casa Civil, José Dirceu, pediu demissão. Alvo dos ataques do deputado nas denúncias sobre o mensalão, Dirceu reassumiu sua cadeira na Câmara. Sua saída, no dia 16 de junho, deu início à reforma ministerial já decidida pelo governo, como destacaria Zileide Silva em sua reportagem no Jornal Nacional daquela quinta-feira.
    Demissão de José Dirceu em 16 Junho de 2005

    Declaração do Dirceu em 2002

    “O Lula sempre é consultado sobre qualquer decisão, e a última palavra é dele.”
    (José Dirceu, Entrevista a Globo, outubro de 2002)

    Frases do Lula, “O mentiroso”, um ano depois que Dirceu pediu demissão:

    “Eu afastei o Zé Dirceu, afastei o Palocci e outros funcionários envolvidos. E vou continuar afastando”.
    Presidente Lula, em entrevista ao Jornal Nacional, da Rede Globo..
    (10/08/2006)

    “Eu não sei por que o José Dirceu foi cassado. Vocês sabem? O Roberto Jefferson foi cassado porque mentiu. Ora, se ele mentiu significa que parte das coisas que ele falou [sobre Dirceu] não era verdade. Ora, eu acho que julgamento eminentemente político pode cometer erros gravíssimos. Chega uma hora em que as pessoas querem condenar o político. Sabe, a gente não pode confundir se foi dinheiro para campanha com mensalão.”
    Presidente Lula, no AeroLula
    (18/09/2006)

    Vejam declaração do Zé Dirceu em 2010.

    “Não estou voltando porque nunca fui embora, nunca parei depois que fui cassado. Vou ter uma função oficial na campanha da Dilma, mas ainda não sei o que vou fazer”.
    José Dirceu, deputado cassado, ao chegar ao 4º Congresso do PT, em Brasília.
    Fonte: Agencia Estado
    18/02/2010

    Tudo não passa de jogo de cena para tapear OTÁRIO!

  3. DEVERIAMOS DIZER TRISTE IMPUNIDADE,ALIÁS SE FOSSE UM DO POVO COITADO TODO RIGOR DA LEI.ENQUANTO OS MINISTROS DO SUPREMO E DESEMBARGADORES FOREM INDICADOS POR POLÍTICOS SERÁ MUITO DIFÍCIL MUDAR OS JULGAMENTOS PREVISÍVEIS DE IMPUNIDADE.

  4. A argumentação do ex- primeiro ministro do PT não se sustenta na realidade fática. Não foi a ELITE, a meu juízo, a responsável pelo seu inferno astral ou ainda o fim do seu sonho de suceder o companheiro Lula. O culpado foi ele mesmo, que ao assumir o controle do Estado como o segundo homem mais poderoso do país passou a ser um membro da ELITE, a qual agora tenta nela jogar a culpa pelo seu afastamento do jogo político eleitoral. Nos bastidores continua o mesmo de antes.

    Ocorre que, a elite ou o sistema ou que nome tenha, nesse campo pantanoso não existe solidariedade, amizade, companheirismo. Pontua o interesse comercial/financeiro acima de tudo e de todas as coisas. Uma vez deflagrado o vai lá, “financiamento de campanha” pela denúncia do ex-amigo, deputado do PTB, todos o abandonaram, os amigos do Partido e a maioria da Base Aliada, não tão aliada assim. Dirceu foi jogado no rio como boi de piranha e esse detalhe é o que mais deve estar lhe afligindo. Nas portas de ser declarado o sucessor do metalúrgico, todas as portas da presidência do país foram fechadas para sempre. Não é fácil suportar tamanha decepção, quando nos minutos derradeiros do segundo tempo, com a vitória já lhe sorrindo, o adversário marca um gol antes do apito final. Não há alma que resista a essa perda histórica.

    Ao longo da história da humanidade, o segundo homem, aquele que é ouvido pelos presidentes, reis, rainhas, primeiro ministros, sonha um dia alcançar a glória de ser o número 1. Por essa razão, os vices são vigiados dia e noite para que não possam conspirar contra o chefe e mesmo assim conseguem o seu intento. Jânio não confiava em Jango, Castelo não confiava em Costa e Silva, Figueiredo não confiava em Aureliano Chaves e Collor não confiava em Itamar. Vamos parar por aqui. A vida é feita de incongruências e por mais que seja planejada, o imponderável ocorre invariavelmente.

  5. Um sujeito que possibilitou o enriquecimento do Eike Batista e cujo governo, do qual participou, nunca deixou de honrar os trilhões de juros da dívida pública interna para as elites, falar que essas o persegue é só para a massa ignara, fundamentalista e alienada em que se transformou a ex-aguerrida militância do PT.

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